Fin­gir que não me sinto inco­mo­dado com todo o ala­rido feito à volta da visita do Papa não faria sen­tido nenhum. É claro que me sinto inco­mo­dado! E muito…

Mas, o que me inco­moda não é nem a sua pre­sença, nem as reac­ções orgás­mi­cas daque­les que o ido­la­tram. Não, nada disso! Fico inco­mo­dado — isso, sim — com a faci­li­dade com que a classe polí­tica naci­o­nal manda à fava a Cons­ti­tui­ção da Repú­blica Por­tu­guesa, desde Pre­si­den­tes de Câmara, pas­sando por Pri­meiro Minis­tro até ao Pre­si­dente da Repú­blica, tudo em nome de um popu­lismo fácil, saloio e inconsequente.

Que desi­lu­são! Assis­tir em 2010 a este fenó­meno de pro­pa­ganda hipó­crita no meu país, com feri­a­dos absur­dos rebap­ti­za­dos de tole­rân­cia de ponto, com cam­pa­nhas de evan­ge­li­za­ção nas prin­ci­pais arté­rias da cidade de Lis­boa, com uma imprensa bolo­renta que ali­nha no show e nada ques­ti­ona, com o enca­rar tudo isto com a maior das pas­si­vi­da­des… sinto, pela pri­meira vez em toda a minha vida, não ver­go­nha de ser por­tu­guês, mas ver­go­nha de que exis­tam tan­tos por­tu­gue­ses a per­mi­tir que tudo isto acon­teça, sem pes­ta­ne­ja­rem, como se tudo fosse nor­mal. Saloios e mari­cas, é o que vocês são…

Tenho um amargo sabor na boca… É o sabor de sen­tir que não adi­anta aca­bar com fas­cis­mos, con­ser­va­do­ris­mos, tota­li­ta­ris­mos, ili­te­ra­cia e igno­rân­cia no país sem que, pri­meiro, se tire tudo isso de den­tro das pessoas.

Pela minha parte, acabou-se. Con­si­dero que a Cons­ti­tui­ção tem sido des­res­pei­tada com todo este fol­clore e, como tal, sinto-me no direito de mudar de ati­tude em rela­ção à defesa da lai­ci­dade do Estado. Acabaram-se as gen­ti­le­zas, os diá­lo­gos pos­sí­veis e os ver­ni­zes poli­ti­ca­mente cor­rec­tos. Não é num país de idó­la­tras men­te­cap­tos que eu quero que as minhas filhas cresçam.