Anomalias ou o ateu embrionário

Hoje, a propósito de qualquer coisa sem importância, recordei-me de que há uns anos atrás escrevi pela primeira vez publicamente sobre o meu ateísmo no fórum do site Anomalies Network. Tinha-me sido recomendado aquele fórum por causa de uma suposta polémica que decorria então (2003) online sobre um viajante do tempo, um tal de John Titor. Recordo-me que na altura dei uma “voltinha” pelo fórum e fiquei de tal forma chocado com os disparates na secção de religião (estávamos ainda no rescaldo do 11 de Setembro com tudo o que isso implicava) que resolvi intervir.

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Nonsense

Às vezes somos obrigados a ouvir conversas  quer queiramos, quer não. Foi o que me aconteceu hoje no café… A conversa entre pai e filha foi a seguinte:

Filha: Então, pai, já tomou o comprimido?
Pai: Tomei… Tomei com o pequeno almoço.
Filha: E, então, já se sente melhor?
Pai: Já… Já me sinto bem!
Filha: Ah, graças a Deus!

Sem comentários!

Racionalizar deus

Se é muito interessante do ponto de vista intelectual questionarmos sempre aquilo que sabemos, já me parece muito pouco razoável que coloquemos em dúvida tudo o que sabemos, independentemente da matéria em causa. Por outras palavras, o nosso grau de conhecimento (tanto individual como colectivo) não é uniforme, fazendo sentido que se apliquem diversos graus de dúvida consoante os assuntos em causa.

Sabemos, com um grau de certeza muito grande, que a Terra gira à volta do Sol; esse grau de certeza é tão grande que nem sequer perdemos tempo a verificar os dados necessários para chegarmos a essa conclusão. Entendemos, simplesmente, as explicações que nos são dadas por que se tratam de explicações racionais.

Temos uma certeza considerável sobre os processos biológicos que conduzem à evolução das espécies. Podemos não saber em pormenor todos os passos evolutivos de todas as espécies, devido a falhas nos registos fósseis, mas compreendemos o processo na sua generalidade por que podemos racionalmente extrapolar alguns casos bem documentados para os outros e toda a evolução é racionalmente sustentada.

Sabemos que devido aos movimentos da crosta terrestre e à agitação das placas tectónicas os continentes vão-se transformando eternamente enquanto a Terra for “viva” em termos geológicos. Racionalizamos os registos geológicos e chegamos a essa conclusão.

Todas estas coisas que sabemos foram temas de estudo no passado para pessoas que, muitas delas, dedicaram a sua vida à pesquisa, à exploração, à busca de provas e à refutação de outras… Esses exercícios de busca do conhecimento permitem-nos hoje falar desses temas como se tratassem de verdades que nem sequer questionamos no nosso dia a dia.

Porquê, então, não racionalizar deus? Porquê, então, tanta dificuldade em retirar deus da equação do conhecimento? Porquê jogar na lotaria de um prémio imaginário? Porque é que os crentes conseguem racionalizar tudo e não conseguem racionalizar deus? Racionalizar deus, note-se, é diferente de racionalizar as religiões. Essas, todos sabemos, são uma evolução da mitologia, em que se cria a noção do profano e do sagrado e em que se separam os deuses dos mortais humanos.

Mas deus, tome ele a forma e o nome que tomar, tem que ser racionalizado, como todo o conhecimento humano. A impossibilidade de o fazer, ao contrário do que tentam demonstrar os crentes, não demonstra a  sua irracionabilidade. Demonstra, muito pelo contrário, a irracionalidade do seu conceito.

Que sentido faz, então, viver em função de algo que não se consegue sequer racionalizar? Que sentido faz, então, viver em função de algo que apenas as convicções mais dúbias e menos sustentáveis racionalmente conseguem suportar? Se as pessoas mentalmente saudáveis não regulam o seu conhecimento – e a sua vida! – em outras matérias em permissas tão frágeis, então, por que fazê-lo em relação à hipótese de deus? Não me parece coerente, não me parece lógico, não me parece racional. Enfim, crendices…

Verdades, Popper e propaganda

truth.jpgSem dúvida que está a ser muito interessante a discussão entre o Daniel Silvestre e o comentador Bernardo no artigo “O diálogo que deve ser promovido“.

Concordo plenamente que os diálogos devem ser sempre promovidos. No entanto, quero chamar aqui a atenção para a urgência que existe de , em circunstâncias deste tipo, se definirem os pressupostos antes de se desenvolverem teorias e se defenderem posições. Refiro-me, claro está, à definição de deus; de que adianta um diálogo se se debaterem conceitos diferentes ou se se utilizarem diferentes graus de especificidade sobre o objecto da discussão? Dessa forma, corre-se o risco de mantermos um diálogo sobre abstracções conceituais inválidas para o nosso interlocutor.

Por outro lado, gostaria de afirmar peremptoriamente que discordo do Bernardo na questão da falseabilidade de deus. Não discuto, obviamente, a sua infalseabilidade à data; discuto a presunção de que será sempre assim. Ou seja, afirmar que deus será sempre uma hipótese não falseável é, em si mesmo, uma afirmação não falseável! Em que ficamos, então?

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