Aritmética, População e Energia

Não é segredo nenhum que a forma como deter­mi­na­das afir­ma­ções são pro­fe­ri­das pode fazer toda a dife­rença no impacto que cau­sa­rão no recep­tor. Quando, em vez do sen­sa­ci­o­na­lismo gra­tuito, somos pre­sen­te­a­dos com uma apre­sen­ta­ção supor­tada pela força dos núme­ros, o impacto pode ser enorme.

Nesta apre­sen­ta­ção de apro­xi­ma­da­mente 80 minu­tos, Albert Bar­tlett, Pro­fes­sor Eme­ri­tus do Depar­ta­mento de Física da Uni­ver­si­dade do Colo­rado, explica-nos — e prova-nos — atra­vés de sim­ples arit­mé­tica que a prin­ci­pal fonte de pro­ble­mas com que a Huma­ni­dade se defronta actu­al­mente é o seu cres­ci­mento expo­nen­cial e as con­se­quen­cias do mesmo nos recur­sos limi­ta­dos do planeta.

[video]http://www.youtube.com/watch?v=F-QA2rkpBSY[/video]

Os aplausos dos distraidos

Ainda no res­caldo do pro­grama “As Tar­des da Júlia”, tive uma con­versa mais aca­lo­rada com alguém que muito res­peito, me é muito que­rida e se enqua­dra no leque  — e que leque — dos cató­li­cos não pra­ti­can­tes. Tudo come­çou a pro­pó­sito de eu ter admi­tido que uma frase do Ricardo Sil­ves­tre pode­ria ter sido evi­tá­vel, embora ele tivesse razões para afir­mar o que afir­mou, uma vez que hos­ti­li­zou um pouco a assis­tên­cia. Refiro-me à pas­sa­gem em que a assis­tên­cia aplaude entu­si­as­ti­ca­mente uma argu­men­ta­ção do padre pre­sente no pro­grama e em que o Ricardo se sai com um eston­te­ante “as pes­soas aplau­dem por­que são igno­ran­tes”. Seguiu-se, claro está, um leque de apu­pos vin­dos da bancada.

Ler mais…

The Golden Compass

The Golden CompassNas últi­mas sema­nas, a para­nóia cristã tem andado alta­mente cris­pada para os lados da terra do Uncle Sam. Em causa está a apro­xi­ma­ção da estreia do filme “The Gol­den Com­pass” (“A Bús­sola Dou­rada” em por­tu­guês), rea­li­zado por Chris Weitz, base­ado na pri­meira parte da tri­lo­gia “His Dark Mate­ri­als”, de Phil­lip Pull­man.

De facto, Pull­man nunca negou que esta tri­lo­gia tinha sur­gido da neces­si­dade que ele pró­prio sen­tiu de dar uma res­posta à pro­pa­ganda cristã na obra de C.S. Lewis, The Chro­ni­cles of Nar­nia. Agora que a obra de Pull­man é adap­tada ao cinema, um for­mato muito mais cati­vante para as cri­an­ças e ado­les­cen­tes dos dias de hoje, eis que sur­gem todo o tipo de opi­niões doen­tias, fun­da­men­ta­lis­tas e aber­ran­tes que supor­tam a ideia de que per­mi­tir que as cri­an­ças vejam este filme é uma espé­cie de pecado mor­tal que lhes abrirá as por­tas ao mundo herege do ateísmo! Inde­pen­den­te­mente da qua­li­dade do filme ou dos livros (Car­ne­gie Medal, 1995), não deixa de ser bas­tante sin­to­má­tico esta reac­ção dos con­ser­va­do­res cris­tãos. Uma escola no Canadá teve mesmo o des­plante de remo­ver a obra de Pull­man da sua bibli­o­teca por o autor ser um ateu con­fesso! A suges­tão de PZ Meyers demons­tra bem onde se che­ga­ria se essa regra fosse levada a sério.

The Gol­den Com­pass” é uma his­tó­ria de fan­ta­sia que se ini­cia em Oxford, mas num uni­verso para­lelo. O equi­va­lente às almas chamam-se dae­mons e parece que foram tra­du­zi­dos para por­tu­guês como génios. Ao con­trá­rio das fan­ta­sias do nosso uni­verso, estas habi­tam fora dos cor­pos e são ani­mais conhe­ci­dos de todos nós. Até já des­co­bri o meu pró­prio génio. Agora, só me falta des­co­brir o filme assim que estrear. Eu e a res­tante famí­lia tam­bém, claro!

O que fazer aos outros?

Do unto othersNão faças aos outros aquilo que não gos­ta­rias que te fizes­sem a ti”.

Esta é uma máxima que parece ser basi­lar, pelos menos em teo­ria, para grande parte dos segui­do­res da dou­trina cristã. Parece-me que este prin­cí­pio, por mais justo e sau­dá­vel que pareça, encerra em si pró­prio todo o poten­cial para o desen­vol­vi­mento de uma cul­tura egoísta e into­le­rante. Não fazer­mos aos outros o que não gos­ta­ría­mos que nos fizes­sem é uma forma de que­rer­mos impor os nos­sos cri­té­rios morais a terceiros.

Parece-me muito mais justo, cor­recto, sau­dá­vel, tole­rante e demo­crá­tico o seguinte raci­o­cí­nio: “Não faças aos outros aquilo que eles não qui­se­rem que lhes façam”.

Tudo isto a pro­pó­sito deste artigo, onde o comen­ta­dor Antó­nio se acha no direito de ava­liar o que é ou deixa de ser moral­mente acei­tá­vel para ter­cei­ros. Por­que o Antó­nio se choca com deter­mi­nada maté­ria, não só entende que os outros tam­bém se devem cho­car como, indo mais longe, se ques­ti­ona, inclu­si­va­mente, sobre a lega­li­dade do pro­duto e da sua expo­si­ção (pelo menos entendi assim, o Antó­nio que me cor­rija se eu esti­ver equivocado).

Não vejo como pode­rei con­tri­buir para a feli­ci­dade alheia limi­tando ter­cei­ros aos meus valo­res morais. O limite será sem­pre a lei em vigor e, nos casos em que esta já não se ade­quar à rea­li­dade e ao evo­luir dos tem­pos, há que fazer tudo para a mudar. Claro está que não estou a falar da lei de qual­quer deus; quem se qui­ser limi­tar por essa é livre para o fazer sem a ten­tar impor aos outros.

A moda das ameaças

Recen­te­mente, fui ame­a­çado de morte na caixa de comen­tá­rios deste blog. Agora, é a vez do meu par­ceiro do Diá­rio Ateísta e autor do Liver­da­des, Bruno Miguel Resende, ser ame­a­çado da ins­tau­ra­ção de um “pro­cesso pela prá­tica de crime con­tra sen­ti­men­tos reli­gi­o­sos, nos ter­mos e para os efei­tos dos arti­gos 251º. e seguin­tes do Código Penal.”

A ame­aça sur­giu, como pelos vis­tos é tra­di­ção, nas cai­xas de comen­tá­rios do Diá­rio Ateísta, num artigo em que o Bruno se limi­tou a divul­gar a obra de JAM Mon­toya. Ora, como eu tam­bém já tinha feito a divul­ga­ção dessa mesma obra neste blog, sinto-me deve­ras mago­ado por não ter sido alvo da mesma aten­ção por parte de nenhum dos comen­ta­do­res deste blog. Isso, claro está, não me impede de estar total­mente soli­dá­rio com o Bruno. Acho, inclu­si­va­mente, que seria inte­res­sante se esta ame­aça fosse para a frente. Sem dúvida que fariam um grande favor à causa ateísta em Portugal.

A ASAE em Fátima

HóstiaA ASAE vol­tou ao ter­reno desta vez em Fátima. Lá fez o seu roteiro habi­tual de pas­sar a pente fino uma série de esta­be­le­ci­men­tos, pas­sar umas coi­mas, fechar alguns a cade­ado e regres­sar a casa com o sen­ti­mento de dever cumprido.

Con­tudo, parece-me que desta vez podiam ter ido um pouco mais longe. É que muito perto do local onde actu­a­ram andam a ven­der — ou melhor, a dar — gato por lebre. Ofe­re­cem umas tos­ti­nhas que não têm nenhum tipo de con­trolo de vali­dade, manu­se­a­das sem luvas ou pin­ças e fazem-nas pas­sar como se fosse carne, ainda por cima humana, com cerca de 2000 anos! Mais, o artigo é depo­si­tado direc­ta­mente na boca da cli­en­tela sem que o depo­si­tá­rio pro­ceda a qual­quer acto de higi­ene pes­soal entre cli­en­tes! Consta, tam­bém, que são leva­das a cabo simu­la­ções de ritu­ais vam­pi­res­cos atra­vés da inges­tão de vinho como se de san­gue humano se tra­tasse. Ora, isto viola uma série de prin­cí­pios bási­cos da higi­ene ali­men­tar e a ASAE não fez nada.

A ASAE falhou.

Sóbria loucura?

Em todos os bair­ros exis­tem cida­dãos emble­má­ti­cos pelas melho­res e pelas pio­res razões. Por aqui, na Penha de França, em Lis­boa, existe uma senhora, pro­va­vel­mente sexa­ge­ná­ria, que leva o dia inteiro de um lado para o outro a res­mun­gar e a gri­tar sozi­nha em pro­testo con­tra as injus­ti­ças da vida.

A senhora está neste momento sen­tada no jar­dim em frente a minha casa numa gri­ta­ria desen­fre­ada, cri­ti­cando e lamen­tando todos os que gas­tam dema­si­ado dinheiro e depois se quei­xam que o orde­nado não lhes chega a meio do mês. Pelo meio vai fazendo refe­rên­cias apa­ren­te­mente des­pro­po­si­ta­das a outros assun­tos, can­tando umas músi­cas de algum fol­clore do país real irre­co­nhe­cí­veis por estes ouvi­dos metro­po­li­ta­nos e levan­tando as mãos aos céus pro­va­vel­mente à espera de alguma res­posta ou sinal.

Num dos seus  apar­tes, per­gun­tou: “E, agora, a Nossa Senhora… Cons­trui­ram lá em Fátima mais uma igreja que cus­tou milhões de con­tos… Para quê? Será que a Nossa Senhora pre­cisa da igreja para alguma coisa? Aquele dinhei­ri­nho não fazia mais jeito aos pobres que não têm dinheiro para comer?”

Sem­pre achei que a defi­ni­ção de lou­cura era das mais difí­ceis de elaborar!