A homofobia de regresso ao parlamento

O assunto do dia é a pro­posta do PSD para um refe­rendo sobre a adop­ção de cri­an­ças por casais homos­se­xu­ais. Num país onde os polí­ti­cos não pedem a per­mis­são — e muito menos a opi­nião — dos por­tu­gue­ses para agi­rem em desa­cordo com os pro­gra­mas elei­to­rais que supor­ta­ram a sua elei­ção, não deixa de ser curi­oso este refe­rendo sobre algo que tem a ver com a igual­dade de direi­tos de todos os cidadãos.

Fica aqui a minha posi­ção: com­ple­ta­mente con­tra o refe­rendo, total­mente a favor da adop­ção por casais homos­se­xu­ais. A acon­te­cer este refe­rendo, receio ter que come­çar a olhar com des­dém para mais de 50% das pes­soas com que me cruzo na rua.

Solidariedade quê?

Hoje ouvi uma expres­são que me deixa sem­pre com suo­res frios: soli­da­ri­e­dade cristã! Pergunto-me sem­pre o que é que o “cristã” acres­centa à “soli­da­ri­e­dade”. O que é que pode haver no exer­cí­cio do cris­ti­a­nismo que possa valo­ri­zar ou carac­te­ri­zar a soli­da­ri­e­dade? Como é que se dis­tin­gue uma soli­da­ri­e­dade que é cristã de uma soli­da­ri­e­dade monár­quica, comu­nista, cien­tí­fica, ama­rela, envi­e­sada, mal dis­posta, boqui­a­berta, qua­drú­pede ou dan­ça­rina? Não se dis­tin­gue, por­que soli­da­ri­e­dade é ape­nas — e tanto — soli­da­ri­e­dade. Mais, o ver­da­deiro acto soli­dá­rio não faz ques­tão de ser reco­nhe­cido, pre­fere e opta pelo anonimato.

A cola­gem de outros ter­mos ao con­ceito de soli­da­ri­e­dade é a pri­meira prova de que os actos soli­dá­rios nem sem­pre são natu­ral­mente altruís­tas, come­çando logo pela uti­li­za­ção de pro­pa­ganda na des­cri­ção uti­li­zada, o que não valo­riza em nada o acto soli­dá­rio em si, mas serve-se deste para pro­mo­ver outros ideais.

Sobre a legalização do trabalho sexual

Não fora a crise ins­ta­lada e os folhe­tins que a cir­cun­dam, a lega­li­za­ção do tra­ba­lho sexual ou a sua sim­ples regu­la­men­ta­ção seriam alvo de mai­o­res dis­cus­sões nos media e na soci­e­dade em geral. Con­tudo, esta dis­cus­são está reme­tida para segundo plano na soci­e­dade que se dedica actu­al­mente à dis­cus­são da situ­a­ção eco­nó­mica do país e pouco mais.

Pes­so­al­mente, tenho for­mada uma opi­nião favo­rá­vel à lega­li­za­ção do tra­ba­lho sexual. Con­tudo, tenho mui­tas dúvi­das sobre a forma dessa regu­la­men­ta­ção ser imple­men­tada, nome­a­da­mente no que diz res­peito à imple­men­ta­ção das bai­xas médi­cas e sobre o seu con­trolo. Não tenho dúvi­das de que a lega­li­za­ção do tra­ba­lho sexual deverá ter como prin­ci­pal objec­tivo o reco­nhe­ci­mento do direito à dig­ni­dade pes­soal e pro­fis­si­o­nal de quem exerce este tipo de pro­fis­são, mas não pode­mos fazer tábua rasa do risco para a saúde pública que poderá repre­sen­tar uma má regu­la­men­ta­ção e/ou imple­men­ta­ção da lei que poderá vir a ser aprovada.

Algu­mas das ques­tões que coloco são as seguintes:

- No caso de um(a) prostituto(a) con­trair uma DST, como é feito o con­trolo de que o/a mesmo(a) sus­pende a acti­vi­dade (tem­po­ra­ri­a­mente ou defi­ni­ti­va­mente)?
– Que direi­tos ficam asse­gu­ra­dos pelo Estado nos casos em que seja con­traída uma DST cró­nica?
– Que tipo de pro­ce­di­men­tos são neces­sá­rios para a emis­são de uma car­teira pro­fis­si­o­nal?
– De que forma deve­rão estar pre­vis­tos os direi­tos do con­su­mi­dor no que toca a ques­tões de saúde?

Enfim, algu­mas ques­tões que não são brin­ca­deira, embora pos­sam parecer.

Quiçá ingénuo

Há mais de trinta anos que não ia a uma mani­fes­ta­ção, o que sig­ni­fica que nunca tinha ido a uma enquanto adulto. À de ontem tinha que ir. Era obri­ga­tó­rio. Pre­ci­sava de ir. E fui…

Ontem foi um dia que fará a dife­rença. Deixem-me ser opti­mista e, quiçá, ingé­nuo, mas espero que este­ja­mos não só no iní­cio da queda deste governo, mas sim no iní­cio de um novo para­digma polí­tico em que o Estado seja­mos todos e em que não seja pas­sado um che­que em branco por qua­tro anos a qual­quer governo, seja qual for a cor do mesmo.

Que este seja o iní­cio de uma época em que os gover­nos sejam obri­ga­dos a cum­prir as pro­mes­sas elei­to­rais e que sejam cons­ti­tu­ci­o­nal­mente impe­di­dos de agi­rem de outra forma;

Que este seja o iní­cio da demo­cra­cia se tor­nar digna desse nome e as gran­des deci­sões para o país sejam sem­pre toma­das em refe­rendo pelo povo;

Que este seja o iní­cio de uma nova cons­ci­en­ci­a­li­za­ção polí­tica de um povo que tem optado pela abs­ten­ção, abdi­cando da força da sua união;

Que este seja o iní­cio da espe­rança e que a des­culpa dos indi­ca­do­res eco­nó­mi­cos não sirva para trans­for­mar os pode­ro­sos em car­ras­cos de quem pre­cisa de tra­ba­lhar ardu­a­mente para ter uma vida digna;

Que este seja o iní­cio da cri­a­ção de um novo pro­pó­sito naci­o­nal de dig­ni­fi­car o seu povo e não de o amor­da­çar no medo do des­ca­la­bro dos ban­quei­ros e das gran­des empresas;

Que esteja seja o iní­cio de um pro­cesso incu­ba­dor de novos polí­ti­cos e diri­gen­tes que res­pei­tem os seus con­ci­da­dãos e que actuem com espí­rito de mis­são, hones­ti­dade e sen­tido de Estado;

Que este seja o iní­cio de um novo “Nós”;

Que este seja o iní­cio de uma revo­lu­ção de men­ta­li­da­des, pois só essa é a ver­da­deira revolução;

Ingé­nuo, pro­va­vel­mente, quiçá?

 

Email para a Junta de Freguesia da Penha de França

O lixo acumula-se nos passeios

Teve que ser… Rara­mente tenho pachorra para estas coi­sas, mas há limi­tes que me dei­xam azul. Por isso, seguiu há momen­tos o seguinte email para a Junta de Fre­gue­sia da Penha de França. Se hou­ver res­posta, aviso.

Exmos. Senho­res,

Gos­ta­ria de vos aler­tar para a quan­ti­dade de lixo espa­lhado na Praça Antó­nio Sar­di­nha. Esta situ­a­ção verifica-se há já vários dias e, para além do aspecto esté­tico, repre­senta um risco para a saúde pública dos habi­tan­tes desta praça, espe­ci­al­mente para o ele­vado número de cri­an­ças que uti­liza o par­que exis­tente na mesma.

A pro­pó­sito do par­que infan­til, recordo que a informação

As obras de melho­ra­mento da sec­ção norte do par­que infan­til foram interrompidas

dis­po­ni­bi­li­zada no vosso site é falsa e as obras de melho­ra­mento do mesmo não se encon­tram con­cluí­das, uma vez que o lado norte do refe­rido par­que carece ainda de melho­ra­men­tos e, não estando devi­da­mente iso­lado, apre­senta sérios peri­gos para a inte­gri­dade física das cri­an­ças uti­li­za­do­ras deste parque.

Junto em anexo duas fotos demons­tra­ti­vas des­tas minhas pre­o­cu­pa­ções. Aguar­dando um escla­re­ci­mento de V. Exas., subscrevo-me,

Com os melho­res cum­pri­men­tos,
Hel­der Sanches

 

O bispo, a esquerda e a falta de blue-jeans

Quando toca a “cas­car” no governo encontram-se as ali­an­ças mais ines­pe­ra­das. Assis­tir ao espec­tá­culo de alguma esquerda a aplau­dir a inter­ven­ção do bispo das For­ças Arma­das, D. Januá­rio Tor­gal Fer­reira, na pas­sada terça-feira na TVI, parece dema­si­ado depri­mente para ser ver­dade. Para essa esquerda, é válido que qual­quer cida­dão se pro­nun­cie sobre poli­tica se for para “cas­car” no governo. Con­tudo, chamo a aten­ção de dois pormenores:

  • O entre­vis­tado foi anun­ci­ado como bispo das For­ças Arma­das e com o seu título de mem­bro da Igreja Cató­lica, enver­gando o pom­poso “Dom” antes do nome (ver aqui)
  • O entre­vis­tado não tra­java à civil, enver­gando as tra­di­ci­o­nais ves­tes do cargo que desem­pe­nha na hie­rar­quia a que pertence

Pergunto-me se, em iguais cir­cuns­tan­cias, essa mesma esquerda defen­de­ria tão con­vic­ta­mente a liber­dade de expres­são do refe­rido bispo em assun­tos como o aborto ou o casa­mento de pes­soas do mesmo sexo. Ou se virão a defen­der o papel de agente social da Igreja quando acon­te­cer um debate público e sério sobre a euta­ná­sia. Não me parece.

Ao con­trá­rio do que muita gente pensa, a sepa­ra­ção entre Estado e Igreja visa a pro­tec­ção de ambos. Ao pronunciar-se sobre assun­tos de Estado, o bispo abre um pre­ce­dente muito peri­goso, pois seria tão ou mais grave que, dora­vante, o Estado come­çasse a opi­nar sobre assun­tos inter­nos da Igreja.

Assim, mesmo que o cida­dão Januá­rio tenha todas as razões e mais alguma para dizer o que disse, não o pode fazer com o “Dom” antes do seu nome e tem que enver­gar uma t-shirt e blue-jeans quando o fizer, caso con­trá­rio comporta-se como mais um agente do trá­fico de influên­cias com que a imprensa e a Igreja Cató­lica tan­tas vezes nos pre­sen­teiam. Que a esquerda opor­tu­nista não queira ver isto é que é de lamentar.

A indignação ilusória

Já não res­tam dúvi­das que o acesso à inter­net e a con­se­quente uti­li­za­ção de blogs, fóruns e outros sites soci­ais como o Face­book, demo­cra­ti­zam a pala­vra e a opi­nião, per­mi­tindo vir­tu­al­mente a qual­quer cida­dão expressar-se como muito bem enten­der. Claro que isso acar­reta os male­fí­cios ine­ren­tes a qual­quer mas­si­fi­ca­ção, tornando-se mais fre­quente o desin­te­res­sante e o monó­tono do que o pro­fundo e inovador.

Con­tudo, não me parece que seja esse o ver­da­deiro pro­blema desta mas­si­fi­ca­ção. O ver­da­deiro pro­blema reside na ilu­são que se cria em quem expõe as suas opi­niões de que elas con­tam. E não con­tam! Toda essa indig­na­ção exposta em entra­das do Face­book, umas mais sérias, outras mais sar­cás­ti­cas, pode con­tri­buir para o retrato do “estado de alma” do país, mas em nada con­tri­bui para melho­rar a fotografia.

Pre­ci­sa­mos de uma maior cons­ci­ên­cia cívica e de nos men­ta­li­zar­mos que existe uma alter­na­tiva ao “fado” de não con­se­guir­mos um melhor Estado. Essa alter­na­tiva passa por con­se­guir­mos menos Estado e isso só é pos­sí­vel com mais tra­ba­lho do que escre­ver uns tex­tos ou par­ti­lhar umas ima­gens com fra­ses fei­tas. É pre­ciso por em prá­tica o que se apre­goa e não ficar­mos ape­nas por pala­vras vãs. E faço já mea culpa.

 

Matemática e Português

cnipe

Os resul­ta­dos dos exa­mes naci­o­nais do 9º ano de Por­tu­guês e Mate­má­tica regis­ta­ram uma des­cida nas médias e uma subida nas repro­va­ções. Um repre­sen­tante da CNIPE - Con­fe­de­ra­ção Naci­o­nal Inde­pen­dente de Pais e Encar­re­ga­dos de Edu­ca­ção — mostrou-se indig­nado com o grau de exi­gên­cia dos exa­mes! Mas que raio de repre­sen­tan­tes são estes que que­rem criar uma gera­ção de incul­tos e analfabetos?

O que estes “repre­sen­tan­tes” não per­ce­bem é que um sis­tema de ensino faci­li­tista que pro­teja os cábu­las e os irres­pon­sá­veis acaba por ape­nas favo­re­cer os filhos das clas­ses soci­ais mais ele­va­das e com capa­ci­dade para colo­car os seus filhos em esco­las em que o faci­li­tismo não seja a norma e os graus de exi­gên­cia obri­guem a nive­lar todos por cima.

Dito por outras pala­vras, a maior parte dos estu­dan­tes de ori­gem social mais humil­dade tem mais hipó­te­ses de poder melho­rar a sua con­di­ção em rela­ção aos seus pro­ge­ni­to­res atra­vés de um ensino mais exi­gente, menos faci­li­tista e que esti­mule e pro­mova o mérito indi­vi­dual e cole­tivo do que atra­vés de um sis­tema que impli­ci­ta­mente fil­tre os filhos dos mais ricos para as esco­las mais eficientes.

Testamento Vital

testamento vital

A pro­pó­sito desta afir­ma­ção do Rui Rodri­gues (Esta dis­cus­são [tes­ta­mento vital] só não se faz, por­que a Igreja Cató­lica não quer) no seu mural do Face­book, recordei-me de algo que eu disse uma vez acerca dos cren­tes, das cren­ças e das reli­giões. Já não me recordo exa­ta­mente do con­texto, mas a afir­ma­ção era mais ou menos a seguinte:

Há duas coi­sas que não se podem dar às reli­giões: nem dema­si­ada impor­tân­cia, nem dema­si­ada con­fi­ança! Se con­se­guir­mos um equi­lí­brio entre estas pre­mis­sas, sere­mos capa­zes de ter uma soci­e­dade ver­da­dei­ra­mente laica e secu­lar sem ser­mos per­se­cu­tó­rios em rela­ção às liber­da­des reli­gi­o­sas de todos os cidadãos.

Isto, claro, abor­dado no con­texto naci­o­nal, ou até mesmo ao nível da Europa oci­den­tal, grosso modo.

Con­ti­nue reading…