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Brexit? Fuxit!

Vamos por partes: o referendo teve um resultado que deve ser respeitado tanto internamente como pelos restantes povos europeus. Isso não está em discussão. Ponto.

A saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE) tem várias razões e tentar justificá-la apenas com um ou dois argumentos parece-me demasiado redutor, simplista e, principalmente, perigoso.

Em primeiro lugar, se tudo estivesse bem com a UE, se os povos sentissem que esta ainda tinha como principal objectivo o bem estar da população em geral, o melhoramento da qualidade de vida e uma permanente busca por um melhor cumprimento dos Direitos Humanos e pelos direitos dos trabalhadores, bem como se demonstrasse um comprometimento com a prosperidade e não um facilitismo para com a corrupção e com a centralização do poder, certamente não teria havido referendo. Se David Cameron não tivesse tido necessidade de uma bengala política eleitoralista para “calar” a oposição dentro do seu próprio partido nas últimas eleições britânicas, tendo tido necessidade de prometer este referendo quando ainda se ignorava – ou fingia ignorar – a crise de refugiados na Europa, certamente não teria havido referendo. Se o RU não fosse um país que se pauta pelos valores europeus de democracia, certamente não teria havido referendo. Mas houve…

Credit: AMMER Source: Wiener Zeitung - Vienna, Austria Provider: CartoonArts International / The New York Times Syndicate
Credit: AMMER
Source: Wiener Zeitung – Vienna, Austria
Provider: CartoonArts International / The New York Times Syndicate

Se os “ses” do parágrafo anterior são muitos, mais são as dúvidas sobre o que o futuro reserva quer ao RU, quer ao projecto europeu. A UE poderá ver-se a braços com uma série de referendos nacionais caso opte por uma atitude acéfala de considerar que este referendo foi uma circunstância única e que se deve à particularidade da atitude e mentalidade insular, pouco continental, do povo britânico. Seria demasiado mau para a Europa que o poder central não se antecipasse com reformas sérias e profundas que tornassem desnecessários ou inconsequentes outros referendos. Por outro lado, o RU corre ele próprio o risco de desmembramento, tendo a Escócia e a Irlanda do Norte já anunciado a intenção de referendos internos sobre a permanência no RU. Um caso bicudo de política factual, principalmente no caso da Irlanda do Norte, onde o próprio Sinn Fein já começou a extremar o discurso, recordando outros tempos de triste memória. É exactamente por este lado que mais receio pelo futuro próximo do RU. Não tenho dúvidas que, após um forte abanão inicial, a economia irá reajustar-se e a Libra continuará a ser uma moeda forte, embora talvez menos cara.

Existe, contudo, um fenómeno que me parece notável nas reacções ao resultado do Brexit. Refiro-me a quem se tem manifestado exuberantemente satisfeito com o resultado do mesmo. Salvo a generalização, a maior parte da excitação vem dos sectores políticos mais conservadores quer à esquerda, quer à direita. Se percebo o entusiasmo dos de direita, uma vez que muitos dos apelos da campanha incidiram sobre a protecção de fronteiras, o controlo e limite à imigração, os valores nacionalistas e até alguma xenofobia, tenho alguma dificuldade em perceber a reacção entusiástica da esquerda conservadora. A não ser, claro, que ela se baseie simplesmente num anti-europeísmo primário, sacudindo airosamente para debaixo do tapete da contestação fácil o facto de o espaço da UE ser uma das regiões do mundo onde se tem melhor qualidade de vida e onde o Human Development Index é mais elevado. Isto são factos, não é doutrina nem mera bazófia. Foi deste espaço que o povo britânico – com toda a legitimidade, talvez só comparável em dimensão ao seu sentimentalismo – resolveu partir.

Não consigo deixar de estabelecer um paralelismo entre as relações UK-UE e um casamento fracassado pelo cansaço de uma das partes. Uma das partes cansou-se e considerou inglório o esforço de continuar a tentar… espero, contudo, que a outra parte tenha aprendido com os erros e mude a sua atitude, caso contrário, mais partirão.

(AP Photo/Narciso Contreras)

Portugal, a Europa e os refugiados

Reparem bem na foto que ilustra este artigo. É deste cenário que fogem os refugiados, maioritariamente sírios, que chegam à Europa depois de terem perdido família, bens, estilo de vida e dignidade. Muitos fogem das violações e de serem coagidos a juntarem-se a grupos armados. Só ainda não perderam a esperança, o que me deixa deveras impressionado.

Muitos são os que, por essa Europa fora e também em Portugal, se opõem ao acolhimento destes seres humanos nas respectivas regiões. Creio que muito desse receio tem origem em um ou mais dos seguintes factos:

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Sobre a Associação Humanista Secular

No próximo sábado irá ocorrer um encontro entre Humanistas que irá debater a necessidade e oportunidade de se avançar formalmente para a constituição de uma Associação Humanista Secular em Portugal. Após vários anos com reuniões informais mas regulares, chega a hora de arregaçar as mangas e tentar por em prática tudo o que se tem vindo a discutir ao longo desse período.

Como é sabido, nós portugueses temos um fraco índice de adesão aos movimentos associativistas. Não pretendo neste texto fazer as análises históricas ou culturais para esse fenómeno, pretendo, isso sim, apontar as razões pelas quais considero de maior importância lutar contra essa realidade quando se fala de uma Associação Humanista Secular.

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A homofobia de regresso ao parlamento

O assunto do dia é a proposta do PSD para um referendo sobre a adopção de crianças por casais homossexuais. Num país onde os políticos não pedem a permissão – e muito menos a opinião – dos portugueses para agirem em desacordo com os programas eleitorais que suportaram a sua eleição, não deixa de ser curioso este referendo sobre algo que tem a ver com a igualdade de direitos de todos os cidadãos.

Fica aqui a minha posição: completamente contra o referendo, totalmente a favor da adopção por casais homossexuais. A acontecer este referendo, receio ter que começar a olhar com desdém para mais de 50% das pessoas com que me cruzo na rua.

Solidariedade quê?

Hoje ouvi uma expressão que me deixa sempre com suores frios: solidariedade cristã! Pergunto-me sempre o que é que o “cristã” acrescenta à “solidariedade”. O que é que pode haver no exercício do cristianismo que possa valorizar ou caracterizar a solidariedade? Como é que se distingue uma solidariedade que é cristã de uma solidariedade monárquica, comunista, científica, amarela, enviesada, mal disposta, boquiaberta, quadrúpede ou dançarina? Não se distingue, porque solidariedade é apenas – e tanto – solidariedade. Mais, o verdadeiro acto solidário não faz questão de ser reconhecido, prefere e opta pelo anonimato.

A colagem de outros termos ao conceito de solidariedade é a primeira prova de que os actos solidários nem sempre são naturalmente altruístas, começando logo pela utilização de propaganda na descrição utilizada, o que não valoriza em nada o acto solidário em si, mas serve-se deste para promover outros ideais.

Sobre a legalização do trabalho sexual

Não fora a crise instalada e os folhetins que a circundam, a legalização do trabalho sexual ou a sua simples regulamentação seriam alvo de maiores discussões nos media e na sociedade em geral. Contudo, esta discussão está remetida para segundo plano na sociedade que se dedica actualmente à discussão da situação económica do país e pouco mais.

Pessoalmente, tenho formada uma opinião favorável à legalização do trabalho sexual. Contudo, tenho muitas dúvidas sobre a forma dessa regulamentação ser implementada, nomeadamente no que diz respeito à implementação das baixas médicas e sobre o seu controlo. Não tenho dúvidas de que a legalização do trabalho sexual deverá ter como principal objectivo o reconhecimento do direito à dignidade pessoal e profissional de quem exerce este tipo de profissão, mas não podemos fazer tábua rasa do risco para a saúde pública que poderá representar uma má regulamentação e/ou implementação da lei que poderá vir a ser aprovada.

Algumas das questões que coloco são as seguintes:

– No caso de um(a) prostituto(a) contrair uma DST, como é feito o controlo de que o/a mesmo(a) suspende a actividade (temporariamente ou definitivamente)?
– Que direitos ficam assegurados pelo Estado nos casos em que seja contraída uma DST crónica?
– Que tipo de procedimentos são necessários para a emissão de uma carteira profissional?
– De que forma deverão estar previstos os direitos do consumidor no que toca a questões de saúde?

Enfim, algumas questões que não são brincadeira, embora possam parecer.

Quiçá ingénuo

Há mais de trinta anos que não ia a uma manifestação, o que significa que nunca tinha ido a uma enquanto adulto. À de ontem tinha que ir. Era obrigatório. Precisava de ir. E fui…

Ontem foi um dia que fará a diferença. Deixem-me ser optimista e, quiçá, ingénuo, mas espero que estejamos não só no início da queda deste governo, mas sim no início de um novo paradigma político em que o Estado sejamos todos e em que não seja passado um cheque em branco por quatro anos a qualquer governo, seja qual for a cor do mesmo.

Que este seja o início de uma época em que os governos sejam obrigados a cumprir as promessas eleitorais e que sejam constitucionalmente impedidos de agirem de outra forma;

Que este seja o início da democracia se tornar digna desse nome e as grandes decisões para o país sejam sempre tomadas em referendo pelo povo;

Que este seja o início de uma nova consciencialização política de um povo que tem optado pela abstenção, abdicando da força da sua união;

Que este seja o início da esperança e que a desculpa dos indicadores económicos não sirva para transformar os poderosos em carrascos de quem precisa de trabalhar arduamente para ter uma vida digna;

Que este seja o início da criação de um novo propósito nacional de dignificar o seu povo e não de o amordaçar no medo do descalabro dos banqueiros e das grandes empresas;

Que esteja seja o início de um processo incubador de novos políticos e dirigentes que respeitem os seus concidadãos e que actuem com espírito de missão, honestidade e sentido de Estado;

Que este seja o início de um novo “Nós”;

Que este seja o início de uma revolução de mentalidades, pois só essa é a verdadeira revolução;

Ingénuo, provavelmente, quiçá?

 

Email para a Junta de Freguesia da Penha de França

O lixo acumula-se nos passeios
Teve que ser… Raramente tenho pachorra para estas coisas, mas há limites que me deixam azul. Por isso, seguiu há momentos o seguinte email para a Junta de Freguesia da Penha de França. Se houver resposta, aviso.

Exmos. Senhores,

Gostaria de vos alertar para a quantidade de lixo espalhado na Praça António Sardinha. Esta situação verifica-se há já vários dias e, para além do aspecto estético, representa um risco para a saúde pública dos habitantes desta praça, especialmente para o elevado número de crianças que utiliza o parque existente na mesma.

A propósito do parque infantil, recordo que a informação

As obras de melhoramento da secção norte do parque infantil foram interrompidas

disponibilizada no vosso site é falsa e as obras de melhoramento do mesmo não se encontram concluídas, uma vez que o lado norte do referido parque carece ainda de melhoramentos e, não estando devidamente isolado, apresenta sérios perigos para a integridade física das crianças utilizadoras deste parque.

Junto em anexo duas fotos demonstrativas destas minhas preocupações. Aguardando um esclarecimento de V. Exas., subscrevo-me,

Com os melhores cumprimentos,
Helder Sanches

 

O bispo, a esquerda e a falta de blue-jeans

Quando toca a “cascar” no governo encontram-se as alianças mais inesperadas. Assistir ao espectáculo de alguma esquerda a aplaudir a intervenção do bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, na passada terça-feira na TVI, parece demasiado deprimente para ser verdade. Para essa esquerda, é válido que qualquer cidadão se pronuncie sobre politica se for para “cascar” no governo. Contudo, chamo a atenção de dois pormenores:

  • O entrevistado foi anunciado como bispo das Forças Armadas e com o seu título de membro da Igreja Católica, envergando o pomposo “Dom” antes do nome (ver aqui)
  • O entrevistado não trajava à civil, envergando as tradicionais vestes do cargo que desempenha na hierarquia a que pertence

Pergunto-me se, em iguais circunstancias, essa mesma esquerda defenderia tão convictamente a liberdade de expressão do referido bispo em assuntos como o aborto ou o casamento de pessoas do mesmo sexo. Ou se virão a defender o papel de agente social da Igreja quando acontecer um debate público e sério sobre a eutanásia. Não me parece.

Ao contrário do que muita gente pensa, a separação entre Estado e Igreja visa a protecção de ambos. Ao pronunciar-se sobre assuntos de Estado, o bispo abre um precedente muito perigoso, pois seria tão ou mais grave que, doravante, o Estado começasse a opinar sobre assuntos internos da Igreja.

Assim, mesmo que o cidadão Januário tenha todas as razões e mais alguma para dizer o que disse, não o pode fazer com o “Dom” antes do seu nome e tem que envergar uma t-shirt e blue-jeans quando o fizer, caso contrário comporta-se como mais um agente do tráfico de influências com que a imprensa e a Igreja Católica tantas vezes nos presenteiam. Que a esquerda oportunista não queira ver isto é que é de lamentar.

A indignação ilusória

Já não restam dúvidas que o acesso à internet e a consequente utilização de blogs, fóruns e outros sites sociais como o Facebook, democratizam a palavra e a opinião, permitindo virtualmente a qualquer cidadão expressar-se como muito bem entender. Claro que isso acarreta os malefícios inerentes a qualquer massificação, tornando-se mais frequente o desinteressante e o monótono do que o profundo e inovador.

Contudo, não me parece que seja esse o verdadeiro problema desta massificação. O verdadeiro problema reside na ilusão que se cria em quem expõe as suas opiniões de que elas contam. E não contam! Toda essa indignação exposta em entradas do Facebook, umas mais sérias, outras mais sarcásticas, pode contribuir para o retrato do “estado de alma” do país, mas em nada contribui para melhorar a fotografia.

Precisamos de uma maior consciência cívica e de nos mentalizarmos que existe uma alternativa ao “fado” de não conseguirmos um melhor Estado. Essa alternativa passa por conseguirmos menos Estado e isso só é possível com mais trabalho do que escrever uns textos ou partilhar umas imagens com frases feitas. É preciso por em prática o que se apregoa e não ficarmos apenas por palavras vãs. E faço já mea culpa.