Estante herege

Uma reor­ga­ni­za­ção das pra­te­lei­ras cá de casa dá nisto: uma sec­ção para os cren­tes se arre­pi­a­rem e se ben­ze­rem. Por detrás de “A His­tó­ria do Ateísmo” está — bem escon­di­di­nha — uma Bíblia de capa dura!

Por cima, fica­ram os de ciên­cia e filo­so­fia e por baixo os de bar­ten­ding, Bea­tles e outros generalistas.

Rezar de olhos fechados

Hoje foi-me dada a conhe­cer uma frase do pri­meiro 1º minis­tro e Pre­si­dente do Qué­nia, Jomo Kenyatta. Antes que me venham com a cha­mada da aten­ção, já sei que o senhor depois se trans­for­mou num daque­les líde­res afri­ca­nos inca­pa­zes de levan­tar as náde­gas do banco do poder. Só que, tal como no enten­der dos cató­li­cos os atos de pedo­fi­lia de alguns padres em nada dimi­nuem o valor das homi­lias de que estes pro­fe­rem, tam­bém neste caso a ati­tude polí­tica deve ser afas­tada da aná­lise histórica:

Quando os Bran­cos che­ga­ram a África, nós tínha­mos ter­ras e eles tinham a Bíblia. Eles ensinaram-nos a rezar com os olhos fecha­dos: no momento em que abri­mos os olhos, os Bran­cos tinham as ter­ras e nós a Bíblia.”

Nonsense

Às vezes somos obri­ga­dos a ouvir con­ver­sas  quer quei­ra­mos, quer não. Foi o que me acon­te­ceu hoje no café… A con­versa entre pai e filha foi a seguinte:

Filha: Então, pai, já tomou o com­pri­mido?
Pai: Tomei… Tomei com o pequeno almoço.
Filha: E, então, já se sente melhor?
Pai: Já… Já me sinto bem!
Filha: Ah, gra­ças a Deus!

Sem comen­tá­rios!

Testamento Vital

A pro­pó­sito desta afir­ma­ção do Rui Rodri­gues (Esta dis­cus­são [tes­ta­mento vital] só não se faz, por­que a Igreja Cató­lica não quer) no seu mural do Face­book, recordei-me de algo que eu disse uma vez acerca dos cren­tes, das cren­ças e das reli­giões. Já não me recordo exa­ta­mente do con­texto, mas a afir­ma­ção era mais ou menos a seguinte:

Há duas coi­sas que não se podem dar às reli­giões: nem dema­si­ada impor­tân­cia, nem dema­si­ada con­fi­ança! Se con­se­guir­mos um equi­lí­brio entre estas pre­mis­sas, sere­mos capa­zes de ter uma soci­e­dade ver­da­dei­ra­mente laica e secu­lar sem ser­mos per­se­cu­tó­rios em rela­ção às liber­da­des reli­gi­o­sas de todos os cidadãos.

Isto, claro, abor­dado no con­texto naci­o­nal, ou até mesmo ao nível da Europa oci­den­tal, grosso modo.

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Racionalizar deus

Se é muito inte­res­sante do ponto de vista inte­lec­tual ques­ti­o­nar­mos sem­pre aquilo que sabe­mos, já me parece muito pouco razoá­vel que colo­que­mos em dúvida tudo o que sabe­mos, inde­pen­den­te­mente da maté­ria em causa. Por outras pala­vras, o nosso grau de conhe­ci­mento (tanto indi­vi­dual como colec­tivo) não é uni­forme, fazendo sen­tido que se apli­quem diver­sos graus de dúvida con­so­ante os assun­tos em causa.

Sabe­mos, com um grau de cer­teza muito grande, que a Terra gira à volta do Sol; esse grau de cer­teza é tão grande que nem sequer per­de­mos tempo a veri­fi­car os dados neces­sá­rios para che­gar­mos a essa con­clu­são. Enten­de­mos, sim­ples­mente, as expli­ca­ções que nos são dadas por que se tra­tam de expli­ca­ções racionais.

Temos uma cer­teza con­si­de­rá­vel sobre os pro­ces­sos bio­ló­gi­cos que con­du­zem à evo­lu­ção das espé­cies. Pode­mos não saber em por­me­nor todos os pas­sos evo­lu­ti­vos de todas as espé­cies, devido a falhas nos regis­tos fós­seis, mas com­pre­en­de­mos o pro­cesso na sua gene­ra­li­dade por que pode­mos raci­o­nal­mente extra­po­lar alguns casos bem docu­men­ta­dos para os outros e toda a evo­lu­ção é raci­o­nal­mente sustentada.

Sabe­mos que devido aos movi­men­tos da crosta ter­res­tre e à agi­ta­ção das pla­cas tec­tó­ni­cas os con­ti­nen­tes vão-se trans­for­mando eter­na­mente enquanto a Terra for “viva” em ter­mos geo­ló­gi­cos. Raci­o­na­li­za­mos os regis­tos geo­ló­gi­cos e che­ga­mos a essa conclusão.

Todas estas coi­sas que sabe­mos foram temas de estudo no pas­sado para pes­soas que, mui­tas delas, dedi­ca­ram a sua vida à pes­quisa, à explo­ra­ção, à busca de pro­vas e à refu­ta­ção de outras… Esses exer­cí­cios de busca do conhe­ci­mento permitem-nos hoje falar des­ses temas como se tra­tas­sem de ver­da­des que nem sequer ques­ti­o­na­mos no nosso dia a dia.

Porquê, então, não raci­o­na­li­zar deus? Porquê, então, tanta difi­cul­dade em reti­rar deus da equa­ção do conhe­ci­mento? Porquê jogar na lota­ria de um pré­mio ima­gi­ná­rio? Por­que é que os cren­tes con­se­guem raci­o­na­li­zar tudo e não con­se­guem raci­o­na­li­zar deus? Raci­o­na­li­zar deus, note-se, é dife­rente de raci­o­na­li­zar as reli­giões. Essas, todos sabe­mos, são uma evo­lu­ção da mito­lo­gia, em que se cria a noção do pro­fano e do sagrado e em que se sepa­ram os deu­ses dos mor­tais humanos.

Mas deus, tome ele a forma e o nome que tomar, tem que ser raci­o­na­li­zado, como todo o conhe­ci­mento humano. A impos­si­bi­li­dade de o fazer, ao con­trá­rio do que ten­tam demons­trar os cren­tes, não demons­tra a  sua irra­ci­o­na­bi­li­dade. Demons­tra, muito pelo con­trá­rio, a irra­ci­o­na­li­dade do seu conceito.

Que sen­tido faz, então, viver em fun­ção de algo que não se con­se­gue sequer raci­o­na­li­zar? Que sen­tido faz, então, viver em fun­ção de algo que ape­nas as con­vic­ções mais dúbias e menos sus­ten­tá­veis raci­o­nal­mente con­se­guem supor­tar? Se as pes­soas men­tal­mente sau­dá­veis não regu­lam o seu conhe­ci­mento — e a sua vida! — em outras maté­rias em per­mis­sas tão frá­geis, então, por que fazê-lo em rela­ção à hipó­tese de deus? Não me parece coe­rente, não me parece lógico, não me parece raci­o­nal. Enfim, crendices…

26 de Abril, Dia do Óleo de Fritar Peixe

Ontem comemorou-se o Dia da Liber­dade. Hoje comemora-se o Dia do Óleo de Fri­tar Peixe.

Ainda não me tinha pro­nun­ci­ado sobre a ele­va­ção de D. Nuno Álva­res Pereira a santo cató­lico. Pri­meiro, por­que a hie­rar­quia cató­lica pode muito bem esco­lher quem muito bem enten­der para ser isso de “santo”, o que quer que isso seja. Os actos, já diz o ditado, ficam com quem os pra­tica e ao con­si­de­rar D. Nuno deci­sivo no pro­cesso da cura da lesão pro­vo­cada pelo óleo de fri­tar peixe, a Igreja ape­nas me faz o favor de cair num “aben­ço­ado” ridí­culo. Como sabem, não é a pri­meira nem será a última vez. Não nos esque­ça­mos, con­tudo, que fosse qual fosse o “argu­mento” invo­cado o ridí­culo seria sem­pre o mesmo, sem­pre “abençoado”.

Em segundo lugar, tenho uma certa ten­dên­cia para não sim­pa­ti­zar com heróis de guerra, inde­pen­den­te­mente dos “fei­tos” pro­cla­ma­dos na defesa da inde­pen­dên­cia naci­o­nal. Cer­ta­mente que D. Nuno não ganhou nenhuma bata­lha sozi­nho — nem nenhum outro herói. Que a ima­gem dum ilus­tre por­tu­guês seja desta forma ridi­cu­la­ri­zada, sin­ce­ra­mente, pouco me apoquenta.

Estas duas razões são para mim sufi­ci­en­tes para não me mani­fes­tar em rela­ção ao pro­cesso, ao herói e ao novo san­ti­nho. Con­tudo, quero dei­xar aqui bem claro o meu total repú­dio pelo envol­vi­mento ofi­cial de supos­tos gran­des esta­dis­tas por­tu­gue­ses nas ceri­mó­nias ofi­ci­ais que irão hoje decor­rer no Vati­cano. A sua pre­sença em repre­sen­ta­ção de um Estado cons­ti­tu­ci­o­nal­mente laico é um com­pleto sinal de falta de res­peito pela pró­pria Cons­ti­tui­ção, pelos por­tu­gue­ses e pelos valo­res secu­la­res a que uma demo­cra­cia moderna deve­ria de estar incon­tes­tá­vel­mente asso­ci­ada. E não me venham com a con­versa de que que a mai­o­ria dos por­tu­gue­ses são cató­li­cos e se revêm nesta cele­bra­ção. A mai­o­ria dos por­tu­gue­ses esta­rão, quanto muito, a borrifarem-se para o novo santo e para as come­mo­ra­ções. Infe­liz­mente, terei que reco­nhe­cer que a mai­o­ria dos por­tu­gue­ses, a exem­plo dos seus líde­res poli­ti­cos, esta­rão tam­bém a borrifarem-se para a Constituição!

A mai­o­ria dos por­tu­gue­ses tam­bém são bran­cos e mui­tos serão ainda racis­tas; alguém ima­gina o senhor Pre­si­dente da Repú­blica em repre­sen­ta­ção do país numa ceri­mó­nia do Ku Klux Klan?

Histórias de Embalar

Adão e Eva - Uma história de embalar

Adão e Eva — Uma his­tó­ria de embalar

No meio de todas as dis­cus­sões, de toda a contra-argumentação, de todas as pro­vo­ca­ções e, por­que não, de todas as ofen­sas, às vezes somos leva­dos a esquecer-nos, na nossa boa von­tade, que, afi­nal, todas as reli­giões do “livro” não pas­sam de imen­sas ten­ta­ti­vas, leva­das a cabo por gente séria e por gente duvi­dosa,  de raci­o­na­li­zar o irracionável.

Por mui­tos tex­tos eru­di­tos que se escre­vam, por mui­tos deba­tes que se façam, por muito que se filo­sofe em torno do assunto, depois de espre­mido, resta-nos o sabor amargo da cons­ta­ta­ção de que anda­mos a per­der o nosso tempo a ten­tar impe­dir que meras his­tó­rias de emba­lar mile­ná­rias não inter­fi­ram com o nosso dia a dia e, devo dizê-lo, com o nosso bom senso, com os nos­sos direi­tos e com a nossa liberdade.

Por mais que os cren­tes se retor­çam na ago­nia de que­re­rem ser leva­dos a sério, ape­nas a apa­tia de uns ou a boa von­tade de outros impede que as suas cren­ças sejam cata­lo­ga­das junto dos con­tos de Grimm ou das sagas de Tol­kien. Por­que, ver­dade seja dita, o Antigo Tes­ta­mento não passa disso mesmo: his­tó­rias sim­ples, ima­gi­na­ti­vas, é certo, mas ape­nas banais; ten­ta­ti­vas infan­tis de expli­car o uni­verso com a única fer­ra­menta de que então se dis­pu­nha: a ignorância.

Por mais “pen­sa­do­res” que ten­tem apro­fun­dar a ques­tão, os rela­tos ou os tex­tos, a dou­trina é sem­pre oca de sen­tido quando na sua base impera a fan­ta­sia e a fal­si­dade. Fic­ção, fic­ção, fic­ção; ilu­são, ilu­são, ilusão…

A reli­gião é ape­nas um pro­cesso, uma ten­ta­tiva de raci­o­na­li­za­ção, de levar a sério o absurdo, o decla­ra­da­mente dúbio. Sem ponta por onde se peguem, as cren­ças reli­gi­o­sas enrolam-se sobre si pró­prias como um bicho-de-conta assus­tado, defendendo-se, ten­tando ludi­briar quem o aborda com mais brusquidão.

Sem mais moti­vos para a sub­sis­tên­cia que a pró­pria sub­sis­tên­cia em si, mascaram-se heróis fic­tí­cios de pro­fe­tas, mila­grei­ros e már­ti­res; a nar­ra­tiva do romance fácil e pre­vi­sí­vel impõe-se à lógica, ao huma­nismo e até — imagine-se — à decên­cia! Chega de delí­rios, chega de len­das, chega de his­tó­rias de embalar…

Deus mor­reu. Não? Então, está mori­bundo.  Seja­mos misericordiosos…