Archive for the ‘ Religião ’ Category


May the cross be with you…

Racionalizar deus

Se é muito interessante do ponto de vista intelectual questionarmos sempre aquilo que sabemos, já me parece muito pouco razoável que coloquemos em dúvida tudo o que sabemos, independentemente da matéria em causa. Por outras palavras, o nosso grau de conhecimento (tanto individual como colectivo) não é uniforme, fazendo sentido que se apliquem diversos graus de dúvida consoante os assuntos em causa.

Sabemos, com um grau de certeza muito grande, que a Terra gira à volta do Sol; esse grau de certeza é tão grande que nem sequer perdemos tempo a verificar os dados necessários para chegarmos a essa conclusão. Entendemos, simplesmente, as explicações que nos são dadas por que se tratam de explicações racionais.

Temos uma certeza considerável sobre os processos biológicos que conduzem à evolução das espécies. Podemos não saber em pormenor todos os passos evolutivos de todas as espécies, devido a falhas nos registos fósseis, mas compreendemos o processo na sua generalidade por que podemos racionalmente extrapolar alguns casos bem documentados para os outros e toda a evolução é racionalmente sustentada.

Sabemos que devido aos movimentos da crosta terrestre e à agitação das placas tectónicas os continentes vão-se transformando eternamente enquanto a Terra for “viva” em termos geológicos. Racionalizamos os registos geológicos e chegamos a essa conclusão.

Todas estas coisas que sabemos foram temas de estudo no passado para pessoas que, muitas delas, dedicaram a sua vida à pesquisa, à exploração, à busca de provas e à refutação de outras… Esses exercícios de busca do conhecimento permitem-nos hoje falar desses temas como se tratassem de verdades que nem sequer questionamos no nosso dia a dia.

Porquê, então, não racionalizar deus? Porquê, então, tanta dificuldade em retirar deus da equação do conhecimento? Porquê jogar na lotaria de um prémio imaginário? Porque é que os crentes conseguem racionalizar tudo e não conseguem racionalizar deus? Racionalizar deus, note-se, é diferente de racionalizar as religiões. Essas, todos sabemos, são uma evolução da mitologia, em que se cria a noção do profano e do sagrado e em que se separam os deuses dos mortais humanos.

Mas deus, tome ele a forma e o nome que tomar, tem que ser racionalizado, como todo o conhecimento humano. A impossibilidade de o fazer, ao contrário do que tentam demonstrar os crentes, não demonstra a  sua irracionabilidade. Demonstra, muito pelo contrário, a irracionalidade do seu conceito.

Que sentido faz, então, viver em função de algo que não se consegue sequer racionalizar? Que sentido faz, então, viver em função de algo que apenas as convicções mais dúbias e menos sustentáveis racionalmente conseguem suportar? Se as pessoas mentalmente saudáveis não regulam o seu conhecimento – e a sua vida! – em outras matérias em permissas tão frágeis, então, por que fazê-lo em relação à hipótese de deus? Não me parece coerente, não me parece lógico, não me parece racional. Enfim, crendices…

26 de Abril, Dia do Óleo de Fritar Peixe

Ontem comemorou-se o Dia da Liberdade. Hoje comemora-se o Dia do Óleo de Fritar Peixe.

Ainda não me tinha pronunciado sobre a elevação de D. Nuno Álvares Pereira a santo católico. Primeiro, porque a hierarquia católica pode muito bem escolher quem muito bem entender para ser isso de “santo”, o que quer que isso seja. Os actos, já diz o ditado, ficam com quem os pratica e ao considerar D. Nuno decisivo no processo da cura da lesão provocada pelo óleo de fritar peixe, a Igreja apenas me faz o favor de cair num “abençoado” ridículo. Como sabem, não é a primeira nem será a última vez. Não nos esqueçamos, contudo, que fosse qual fosse o “argumento” invocado o ridículo seria sempre o mesmo, sempre “abençoado”.

Em segundo lugar, tenho uma certa tendência para não simpatizar com heróis de guerra, independentemente dos “feitos” proclamados na defesa da independência nacional. Certamente que D. Nuno não ganhou nenhuma batalha sozinho – nem nenhum outro herói. Que a imagem dum ilustre português seja desta forma ridicularizada, sinceramente, pouco me apoquenta.

Estas duas razões são para mim suficientes para não me manifestar em relação ao processo, ao herói e ao novo santinho. Contudo, quero deixar aqui bem claro o meu total repúdio pelo envolvimento oficial de supostos grandes estadistas portugueses nas cerimónias oficiais que irão hoje decorrer no Vaticano. A sua presença em representação de um Estado constitucionalmente laico é um completo sinal de falta de respeito pela própria Constituição, pelos portugueses e pelos valores seculares a que uma democracia moderna deveria de estar incontestávelmente associada. E não me venham com a conversa de que que a maioria dos portugueses são católicos e se revêm nesta celebração. A maioria dos portugueses estarão, quanto muito, a borrifarem-se para o novo santo e para as comemorações. Infelizmente, terei que reconhecer que a maioria dos portugueses, a exemplo dos seus líderes politicos, estarão também a borrifarem-se para a Constituição!

A maioria dos portugueses também são brancos e muitos serão ainda racistas; alguém imagina o senhor Presidente da República em representação do país numa cerimónia do Ku Klux Klan?

Histórias de Embalar

Adão e Eva - Uma história de embalar

Adão e Eva – Uma história de embalar

No meio de todas as discussões, de toda a contra-argumentação, de todas as provocações e, porque não, de todas as ofensas, às vezes somos levados a esquecer-nos, na nossa boa vontade, que, afinal, todas as religiões do “livro” não passam de imensas tentativas, levadas a cabo por gente séria e por gente duvidosa,  de racionalizar o irracionável.

Por muitos textos eruditos que se escrevam, por muitos debates que se façam, por muito que se filosofe em torno do assunto, depois de espremido, resta-nos o sabor amargo da constatação de que andamos a perder o nosso tempo a tentar impedir que meras histórias de embalar milenárias não interfiram com o nosso dia a dia e, devo dizê-lo, com o nosso bom senso, com os nossos direitos e com a nossa liberdade.

Por mais que os crentes se retorçam na agonia de quererem ser levados a sério, apenas a apatia de uns ou a boa vontade de outros impede que as suas crenças sejam catalogadas junto dos contos de Grimm ou das sagas de Tolkien. Porque, verdade seja dita, o Antigo Testamento não passa disso mesmo: histórias simples, imaginativas, é certo, mas apenas banais; tentativas infantis de explicar o universo com a única ferramenta de que então se dispunha: a ignorância.

Por mais “pensadores” que tentem aprofundar a questão, os relatos ou os textos, a doutrina é sempre oca de sentido quando na sua base impera a fantasia e a falsidade. Ficção, ficção, ficção; ilusão, ilusão, ilusão…

A religião é apenas um processo, uma tentativa de racionalização, de levar a sério o absurdo, o declaradamente dúbio. Sem ponta por onde se peguem, as crenças religiosas enrolam-se sobre si próprias como um bicho-de-conta assustado, defendendo-se, tentando ludibriar quem o aborda com mais brusquidão.

Sem mais motivos para a subsistência que a própria subsistência em si, mascaram-se heróis fictícios de profetas, milagreiros e mártires; a narrativa do romance fácil e previsível impõe-se à lógica, ao humanismo e até – imagine-se – à decência! Chega de delírios, chega de lendas, chega de histórias de embalar…

Deus morreu. Não? Então, está moribundo.  Sejamos misericordiosos…

NATO vs. Cartoons

nato_vs_cartoons

Provas da existência de Deus

O que separa um ateu de um crente

De uma forma minimalista, poderia dizer-se que o que separa um ateu de um crente é apenas o facto de se acreditar ou não em deus(es). Só que essa pequena (grande) diferença arrasta consigo um variadíssimo rol de posturas divergentes relativamente à forma de encarar a vida.

Antes de mais, o “um ateu” do título sou eu e não outro qualquer; portanto, o título também poderia ser “O que me separa dos crentes” mas, como haverão mais ateus a partilhar pelo menos algumas das minhas razões, optei por este titulo. Por outro lado, o “um crente” do título não é ninguém em particular, de nenhuma religião ou crença específica; é possível – e até provável – que a maioria dos crentes não se revejam em todas as diferenças apontadas. Mas, mesmo correndo o risco de uma generalização exagerada, parece-me interessante a análise do que nos separa.

A ordem pela qual os pontos são apresentados é totalmente irrelevante.

Noção do Sagrado – Esta noção é tão ou mais importante para alguns crentes do que a(s) própria(s) entidade(s) divina(s). É o reconhecimento comum e colectivo do Sagrado que imprime nos grupos de crentes o sentimento de unidade social, a identificação colectiva. Muitos crentes não praticantes, embora desligados no seu dia a dia das cerimónias e dos rituais, mantêm a Noção do Sagrado intacta. O Sagrado pode ser um objecto, um local, uma pessoa ou até uma data que pela sua simbologia divina ou pela sua relação com o divino se encontra acima de qualquer suspeita, merecendo profunda veneração e respeito inquestionável. Para um ateu esta condição é absurda; afastado o conceito de divino, nem nada nem ninguém pode merecer tais atributos. O ateu terá, quanto muito, um leque de ideias e valores que considerará basilares para a construção de uma sociedade justa; mas mesmo essas ideias e valores deverão ser continuamente questionadas de forma a puderem ser rectificadas e melhoradas num processo ininterrupto.

Racionalismo e Modelo de Realidade – Para um ateu, a única forma de entender o mundo é através da razão. Não é através de sensações, revelações ou visões de qualquer espécie, mas sim através do intelecto e de uma forma dedutiva. Para um crente, a razão não é suficiente para a obtenção do conhecimento do mundo. Para este, existem verdades insondáveis, de um domínio metafisico, apenas alcançáveis pela via religiosa. Separa-nos, portanto, não apenas o método, mas também as expectativas, uma vez que para o crente a realidade absoluta estará sempre para além do que a razão pode alcançar. Não são precisos muitos conhecimentos de história para nos apercebermos que o avanço do conhecimento científico tem implicado um decréscimo nas áreas outrora integrantes da tal realidade apenas alcançável pela experiência religiosa.

Tolerância – A grande diferença aqui consiste na facilidade com que se utilizam mecanismos fúteis para defesa daquilo em que se acredita. Nenhuma religião é tolerante enquanto se sentir ofendida pelo facto de alguns dos seus ícones sagrados serem utilizados por cartoonistas, artistas plásticos porno ou realizadores de cinema polémicos. Um ateu pouco se importa que um artista crente desenhe uma caricatura de Charles Darwin com corpo de chimpanzé. Tolerância não significa achar que todas as ideias são válidas; significa, isso sim, reconhecer aos outros o direito de ter ou defender quaisquer ideias, mesmo as incorrectas ou falsas. Quando as religiões não se desmarcam das descobertas cientificas que põem em causa as suas doutrinas milenares não estão a ser tolerantes; estão, sim, a ser demagogas. Caso contrário, a colagem à ciência teria como consequência a descolagem da doutrina.

Vida, Morte e Sentido de Existência – Tenho como razões primordiais para o surgimento do fenómeno religioso a tentativa de explicação da realidade e o reconforto para a incógnita da morte. Para um crente, a expectativa de que a sua existência não acaba com a morte, que se prolonga para além desta, deverá ser uma questão fundamental. Seja pela promessa de uma outra realidade mais feliz, pelo receio de um castigo supremo ou simplesmente pela a azia provocada pelo desconhecido, não há dúvida que esta deverá ser uma matéria que causará grandes angústias a quem viver com tal credo. Para um ateu, nada disto faz sentido. Imagino o meu futuro após a minha morte da mesma forma que imagino o meu passado antes do meu nascimento: nulo, isento de experiência ou de noção seja do que for. Resta-me apenas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a questão filosófica não é o “porque vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na resposta a esta questão que se pode encontrar o sentido de existência.

O Mercado das Almas

Enquanto ateu, não me passa pela cabeça que não exista liberdade religiosa. Cada individuo deve ter o direito de escolher se quer fazer parte de uma religião e de qual.  Quis começar por aqui porque tenho noção que o que vou escrever vai soar a alguns como exactamente o contrário. Mas não é!

O maior favor que se pode fazer às religiões é permitir essa liberdade religiosa, deixá-las competir entre si, criando uma espécie de economia de “mercado das almas”; ao contrário da regra do “dividir para reinar”, neste caso pode-se mesmo dizer “dividir para proliferar”.

A predisposição para a crença tem um habitat ideal nesta sociedade onde se respeita a liberdade religiosa: quem já não se convence com o que uma tem para oferecer – ou vender, na maioria dos casos -, depressa encontrará alternativas de oferta e preço no vasto “mercado das almas”.

São óbvias as técnicas comerciais utilizadas por alguns agentes deste prolífico mercado: canais de televisão, programas de rádio ou mesmo emissoras próprias, cerimónias religiosas que mais lembram concertos rock de mau gosto e, finalmente, a promessa do bem mais apetecido: a vida eterna!

Realmente, quem no seu perfeito juízo pode resistir a tamanha oferta?

O que não deixa de ser curioso é que quem mais defende a liberdade religiosa (ateus, agnósticos, humanistas, laicos, etc) são exactamente aqueles que menos têm a ganhar com ela; mas, a razão é simples: sabemos que a democracia, a igualdade e a liberdade de escolha são muito mais importantes e indispensáveis do que a vida eterna, a moeda de troca do “mercado das almas”.

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