Sobre a Associação Humanista Secular

No próximo sábado irá ocorrer um encontro entre Humanistas que irá debater a necessidade e oportunidade de se avançar formalmente para a constituição de uma Associação Humanista Secular em Portugal. Após vários anos com reuniões informais mas regulares, chega a hora de arregaçar as mangas e tentar por em prática tudo o que se tem vindo a discutir ao longo desse período.

Como é sabido, nós portugueses temos um fraco índice de adesão aos movimentos associativistas. Não pretendo neste texto fazer as análises históricas ou culturais para esse fenómeno, pretendo, isso sim, apontar as razões pelas quais considero de maior importância lutar contra essa realidade quando se fala de uma Associação Humanista Secular.

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Penn Jillette

Religion cannot and should not be replaced by atheism. Religion needs to go away and not be replaced by anything. Atheism is not a religion. It’s the absence of religion, and that’s a wonderful thing.

 

– Penn Jillette

Humanista

Pior do que ficar farto de discussões sobre ateísmo por causa de crentes fanáticos e irracionais é ficar farto de discussões sobre ateísmo por causa de ateus da mesma estirpe. O discurso tem-se vindo a radicalizar de há uns anos a esta parte, tendo-se há muito metido o humanismo e a razoabilidade no saco, trocando-os pelo cientismo fácil. Pretende-se pensar nas causas e nas consequências, nos prós e nos contras, nos comos e nos porquês dos deuses e das religiões sem qualquer sentido critico, de tubo de ensaio numa mão e dedo em riste na outra. Os ateus – ou os novos-ateus, melhor dizendo – consideram-se hoje superiores aos crentes, em inteligência, em moral, em cidadania… Ou seja, fazem o mesmo tipo de juízos de valor que as religiões tradicionais têm feito ao longo dos séculos umas das outras! Quaisquer utilidades que as religiões possam ter tido ou tenham na organização e coesão das sociedades são liminarmente ignoradas. Ser religioso é mau, ser crente é péssimo, os ateus é que são inteligentes e são superiores, ponto final.

É uma atitude desinteressante com a qual não quero ser sequer confundido. Doravante, passarei a designar-me apenas como humanista. Continuarei a ser ateu, obviamente, mas como o meu ateísmo parece já não caber na norma actual da definição, prefiro procurar outras definições mais abrangentes, mais inclusivas e menos discriminatórias.

P.S. – Este texto é uma declaração de princípios pessoais , não está, portanto, aberto a discussão.

A morte de Jon Lord e um “a propósito” para os ateus

Faleceu hoje, em Londres, Jon Lord, fundador e teclista dos Deep Purple, responsável pela co-autoria de muitos dos hits da banda, nomeadamente “Smoke on the Water”.

Estava eu a ler uma das notícias sobre a sua morte num site inglês quando me cruzei com a previsível expressão R.I.P. (Rest in Peace) e me interroguei sobre a mais que provável origem da expressão. Numa pesquisa rápida, eis a resposta na Wikipedia:

The phrase or initialism is commonly found on the grave of Catholics,[1] as it is derived from the burial service of the Catholic Church, in which the following prayer is said at its commencement and conclusion:

“ Anima eius et animæ omnium fidelium defunctorum per Dei misericordiam requiescant in pace. ”

In English:[3]

“ May his soul and the souls of all the departed faithful by God’s mercy rest in peace. ”

Assim sendo, evitem lá de colocar o tão católico RIP quando pretendem homenagear distintos ateus. É deveras despropositado.

Portal Ateu Off

Desde meados da semana que o Portal Ateu se encontra offline devido à conta onde este se encontrava alojado ter sido suspensa por excesso de consumo de recursos do servidor, ao que percebi. Não sei que tipo de conta estava contratada, mas é extremamente desagradável a atitude de alguns service providers chegarem ao ridículo de cortarem o serviço sem pré-aviso, não dando sequer tempo aos responsáveis dos sites para pensarem em alternativas. Já tinha acontecido anteriormente, voltou a acontecer agora…

Espero que a situação seja ultrapassada com a maior brevidade possível.

O macho-alfa e o cardume

No folhetim que se está a tornar a reacção do Ricardo Silvestre às minhas criticas (1234) à forma como é praticado o ateísmo nos sítios Portal Ateu e Diário Ateísta, temos mais um capítulo, com honras de editorial e tudo,  que dá pelo dramático título de “Em defesa dos colaboradores do Portal Ateu“. Baseia-se a necessidade desta “defesa” no facto de eu apontar o dedo à maioria dos artigos do actual Portal Ateu. E, insisto, a critica é feita à maioria dos artigos do Portal Ateu, não à sua totalidade.

Vejamos, então, qual é a definição de maioria de acordo com o Dicionário Priberam:

maioria

(maior + -ia)
s. f.
1. Número excedente a metade do todo.
2. Grupo preponderante; a maior parte.
3. Partido ou aliança de partidos que compreende o maior número de votos no parlamento e geralmente apoia o governo.

Posto isto, vejamos como estão distribuídos os 1748 artigos do Portal Ateu de acordo com os seus autores actuais:

  • Ricardo Silvestre – 1231
  • Lúcio Mateus – 15
  • Tito Casquinha – 68
  • Rui Janeiro – 380
  • Rui Silva – 9
  • Catarina Pereira – 45

Se tivermos em consideração os artigos de todos os autores que já passaram pelo Portal Ateu, o site tem um total de 2290 artigos publicados. Portanto, não há volta a dar-lhe. Para onde quer que olhemos, o Ricardo Silvestre tem sempre a maioria dos artigos do Portal Ateu. E, se tivermos em consideração apenas os actuais colaboradores, a percentagem de artigos do Ricardo Silvestre é superior a 70 por cento. Obrigado, Priberam!

Portanto, não vale a pena o Ricardo Silvestre tentar sacudir a água do capote e tentar diluir a sua responsabilidade pelos restantes colaboradores do Portal Ateu. Fica-lhe mal, é uma solidariedade apenas aparente e oportunista. O Ricardo Silvestre tem sido sempre o macho-alfa do processo e agora, na altura das criticas, quer transformar o processo num cardume.

O resto do artigo perde-se em confusões falaciosas entre ateísmo e humanismo e entre voluntarismo e obra feita. Ser ateu não implica ser-se humanista. Muitos cristãos consideram o cristianismo uma religião humanista e são muitos os exemplos de que nem sempre é assim. O mesmo é válido para o ateísmo. De igual forma, ser-se voluntário, ter dedicação a uma causa, não implica ter sucesso ou ser eficaz na defesa ou promoção da mesma. Por muito que isso possa ser difícil de encarar.

Para mim este assunto está encerrado. Não tenho mais nada a acrescentar nem tenho mais tempo para perder com Ricardo Silvestre ou com o Portal Ateu. Acho até que já lhes dei importância a mais. Mas em relação à PAMAP ainda há muita coisa a dizer.

Ateus há muitos…

Num artigo com o título “Os Meios e os Fins“, Ricardo Silvestre ironiza uma sugestão para todos os ateus que, como eu,  não se revêm na forma como ele e outros têm vindo publicamente a expor o seu ateísmo, resumindo-o a uma panóplia de queixinhas teofóbicas e em nada contribuindo para a desmistificação do mesmo na sociedade em que vivemos, antes pelo contrário.

O que me espanta – ou, se calhar, nem por isso – é o facto de em todo o artigo ser usado apenas um argumento: Sam Harris! Ricardo Silvestre, após a ironia dos primeiros parágrafos (já lá irei), refugia-se num argumento de autoridade à volta da figura de Sam Harris, ainda por cima em contra-ponto a uma outra figura também utilizável como argumento de autoridade, Scott Atran, que, apenas pelo facto de não defender o ateísmo tipo dos neo-ateus, é abusivamente minorizado na comparação. Para quem não conhece, uma visita à página da Wikipedia dedicada a Scott Atran pode ajudar a perceber do que falo.

Nesse argumento de autoridade baseado no Sam Harris, Ricardo Silvestre recorre ainda às “centenas de milhares de cópias” vendidas dos livros de Sam Harris e eu pergunto-me se o Ricardo Silvestre se terá lembrado, enquanto redigia aquela frase, dos milhões de cópias que a Bíblia vende anualmente…

Finalmente – e para servir de ponte entre a secção Sam Harris e a secção “ironia” no texto em análise -, Ricardo Silvestre lembra que “ele próprio [Sam Harris] não acredita que todos devem pensar como ele”. Ainda bem que o Sam Harris pensa assim. É possível que o próprio Ricardo Silvestre até concorde com o Sam Harris. Mas, se concorda, lida muito mal com a crítica. De tal forma que a sugestão deixada pelo Ricardo Silvestre é a seguinte:

“Tenho uma sugestão a fazer.
Acho que há um grupo, bastante alargado diga-se, de ateus Portugueses que deviam criar a Associação Portuguesa do Ateísmo Positivo: a APAP portanto.”

Pronto! Desta forma ficaria tudo resolvido. O Ricardo Silvestre e os seus companheiros de luta neo-ateus poderiam continuar a praticar o ateísmo da forma mais previsível e inconsequente que sabem e gostam e já ninguém lhes chatearia o juízo. Voilá! No mesmo texto, Ricardo Silvestre atribui uma qualidade ao discurso de Sam Harris quando este afirma que aceita que nem todos pensem como ele quando, uns parágrafos acima, “mandou” os que não pensam como ele criar uma nova associação ateísta! Até parece que estou a ler a Bíblia onde numa página se defende A e umas páginas à frente se defende não-A. Aqui, contudo, basta saltar uns parágrafos.

O que o Ricardo Silvestre ainda não reparou é que a maior parte dos ateus que não se revêm no seu estilo já não fazem parte do Portal Ateu e nunca precisaram da sugestão dada no seu texto para saírem. Saíram porque, provavelmente, já tinham adivinhado este seu artigo há muito tempo.

Não deixa de ser irónico o facto de serem os neo-ateus aqueles que têm uma postura que cada vez mais se assemelha a uma seita religiosa, cheia de dogmas e adversa à crítica.