Helder Sanches

Categoria: Ateísmo (Página 1 de 11)

Reli­gion can­not and should not be repla­ced by atheism. Reli­gion needs to go away and not be repla­ced by anything. Atheism is not a reli­gion. It’s the absence of reli­gion, and that’s a won­der­ful thing.

 

- Penn Jillette

Humanista

Pior do que ficar farto de dis­cus­sões sobre ateísmo por causa de cren­tes faná­ti­cos e irra­ci­o­nais é ficar farto de dis­cus­sões sobre ateísmo por causa de ateus da mesma estirpe. O dis­curso tem-se vindo a radi­ca­li­zar de há uns anos a esta parte, tendo-se há muito metido o huma­nismo e a razo­a­bi­li­dade no saco, trocando-os pelo cien­tismo fácil. Pretende-se pen­sar nas cau­sas e nas con­sequên­cias, nos prós e nos con­tras, nos comos e nos porquês dos deu­ses e das reli­giões sem qual­quer sen­tido cri­tico, de tubo de ensaio numa mão e dedo em riste na outra. Os ateus — ou os novos-ateus, melhor dizendo — consideram-se hoje supe­ri­o­res aos cren­tes, em inte­li­gên­cia, em moral, em cida­da­nia… Ou seja, fazem o mesmo tipo de juí­zos de valor que as reli­giões tra­di­ci­o­nais têm feito ao longo dos sécu­los umas das outras! Quais­quer uti­li­da­des que as reli­giões pos­sam ter tido ou tenham na orga­ni­za­ção e coe­são das soci­e­da­des são limi­nar­mente igno­ra­das. Ser reli­gi­oso é mau, ser crente é pés­simo, os ateus é que são inte­li­gen­tes e são supe­ri­o­res, ponto final.

É uma ati­tude desin­te­res­sante com a qual não quero ser sequer con­fun­dido. Dora­vante, pas­sa­rei a designar-me ape­nas como huma­nista. Con­ti­nu­a­rei a ser ateu, obvi­a­mente, mas como o meu ateísmo parece já não caber na norma actual da defi­ni­ção, pre­firo pro­cu­rar outras defi­ni­ções mais abran­gen­tes, mais inclu­si­vas e menos discriminatórias.

P.S. — Este texto é uma decla­ra­ção de prin­cí­pios pes­so­ais , não está, por­tanto, aberto a discussão.

2º Almoço Ateísta do Vox

Irá realizar-se no pró­ximo dia 13 de Julho o segundo almoço ateísta do Vox Café. O evento está a ser orga­ni­zado atra­vés do Face­book.

Após o almoço, os par­ti­ci­pan­tes que assim o dese­ja­rem pode­rão fazer comu­ni­ca­ções para discussão.

A morte de Jon Lord e um “a propósito” para os ateus

Fale­ceu hoje, em Lon­dres, Jon Lord, fun­da­dor e teclista dos Deep Pur­ple, res­pon­sá­vel pela co-autoria de mui­tos dos hits da banda, nome­a­da­mente “Smoke on the Water”.

Estava eu a ler uma das notí­cias sobre a sua morte num site inglês quando me cru­zei com a pre­vi­sí­vel expres­são R.I.P. (Rest in Peace) e me inter­ro­guei sobre a mais que pro­vá­vel ori­gem da expres­são. Numa pes­quisa rápida, eis a res­posta na Wikipedia:

The phrase or ini­ti­a­lism is com­monly found on the grave of Catholics,[1] as it is deri­ved from the burial ser­vice of the Catho­lic Church, in which the fol­lowing prayer is said at its com­men­ce­ment and conclusion:

Anima eius et animæ omnium fide­lium defunc­to­rum per Dei mise­ri­cor­diam requi­es­cant in pace. ”

In English:[3]

May his soul and the souls of all the depar­ted faith­ful by God’s mercy rest in peace. ”

Assim sendo, evi­tem lá de colo­car o tão cató­lico RIP quando pre­ten­dem home­na­gear dis­tin­tos ateus. É deve­ras despropositado.

Portal Ateu Off

Desde mea­dos da semana que o Por­tal Ateu se encon­tra offline devido à conta onde este se encon­trava alo­jado ter sido sus­pensa por excesso de con­sumo de recur­sos do ser­vi­dor, ao que per­cebi. Não sei que tipo de conta estava con­tra­tada, mas é extre­ma­mente desa­gra­dá­vel a ati­tude de alguns ser­vice pro­vi­ders che­ga­rem ao ridí­culo de cor­ta­rem o ser­viço sem pré-aviso, não dando sequer tempo aos res­pon­sá­veis dos sites para pen­sa­rem em alter­na­ti­vas. Já tinha acon­te­cido ante­ri­or­mente, vol­tou a acon­te­cer agora…

Espero que a situ­a­ção seja ultra­pas­sada com a maior bre­vi­dade possível.

O macho-alfa e o cardume

No folhe­tim que se está a tor­nar a reac­ção do Ricardo Sil­ves­tre às minhas cri­ti­cas (1234) à forma como é pra­ti­cado o ateísmo nos sítios Por­tal Ateu e Diá­rio Ateísta, temos mais um capí­tulo, com hon­ras de edi­to­rial e tudo,  que dá pelo dra­má­tico título de “Em defesa dos cola­bo­ra­do­res do Por­tal Ateu”. Baseia-se a neces­si­dade desta “defesa” no facto de eu apon­tar o dedo à mai­o­ria dos arti­gos do actual Por­tal Ateu. E, insisto, a cri­tica é feita à mai­o­ria dos arti­gos do Por­tal Ateu, não à sua totalidade.

Veja­mos, então, qual é a defi­ni­ção de mai­o­ria de acordo com o Dici­o­ná­rio Pri­be­ram:

mai­o­ria

(maior + –ia)
s. f.
1. Número exce­dente a metade do todo.
2. Grupo pre­pon­de­rante; a maior parte.
3. Par­tido ou ali­ança de par­ti­dos que com­pre­ende o maior número de votos no par­la­mento e geral­mente apoia o governo.

Posto isto, veja­mos como estão dis­tri­buí­dos os 1748 arti­gos do Por­tal Ateu de acordo com os seus auto­res actuais:

  • Ricardo Sil­ves­tre — 1231
  • Lúcio Mateus — 15
  • Tito Cas­qui­nha — 68
  • Rui Janeiro — 380
  • Rui Silva — 9
  • Cata­rina Pereira — 45

Se tiver­mos em con­si­de­ra­ção os arti­gos de todos os auto­res que já pas­sa­ram pelo Por­tal Ateu, o site tem um total de 2290 arti­gos publi­ca­dos. Por­tanto, não há volta a dar-lhe. Para onde quer que olhe­mos, o Ricardo Sil­ves­tre tem sem­pre a mai­o­ria dos arti­gos do Por­tal Ateu. E, se tiver­mos em con­si­de­ra­ção ape­nas os actu­ais cola­bo­ra­do­res, a per­cen­ta­gem de arti­gos do Ricardo Sil­ves­tre é supe­rior a 70 por cento. Obri­gado, Priberam!

Por­tanto, não vale a pena o Ricardo Sil­ves­tre ten­tar sacu­dir a água do capote e ten­tar diluir a sua res­pon­sa­bi­li­dade pelos res­tan­tes cola­bo­ra­do­res do Por­tal Ateu. Fica-lhe mal, é uma soli­da­ri­e­dade ape­nas apa­rente e opor­tu­nista. O Ricardo Sil­ves­tre tem sido sem­pre o macho-alfa do pro­cesso e agora, na altura das cri­ti­cas, quer trans­for­mar o pro­cesso num cardume.

O resto do artigo perde-se em con­fu­sões fala­ci­o­sas entre ateísmo e huma­nismo e entre volun­ta­rismo e obra feita. Ser ateu não implica ser-se huma­nista. Mui­tos cris­tãos con­si­de­ram o cris­ti­a­nismo uma reli­gião huma­nista e são mui­tos os exem­plos de que nem sem­pre é assim. O mesmo é válido para o ateísmo. De igual forma, ser-se volun­tá­rio, ter dedi­ca­ção a uma causa, não implica ter sucesso ou ser efi­caz na defesa ou pro­mo­ção da mesma. Por muito que isso possa ser difí­cil de encarar.

Para mim este assunto está encer­rado. Não tenho mais nada a acres­cen­tar nem tenho mais tempo para per­der com Ricardo Sil­ves­tre ou com o Por­tal Ateu. Acho até que já lhes dei impor­tân­cia a mais. Mas em rela­ção à PAMAP ainda há muita coisa a dizer.

Ateus há muitos…

Num artigo com o título “Os Meios e os Fins”, Ricardo Sil­ves­tre iro­niza uma suges­tão para todos os ateus que, como eu,  não se revêm na forma como ele e outros têm vindo publi­ca­mente a expor o seu ateísmo, resumindo-o a uma panó­plia de quei­xi­nhas teo­fó­bi­cas e em nada con­tri­buindo para a des­mis­ti­fi­ca­ção do mesmo na soci­e­dade em que vive­mos, antes pelo contrário.

O que me espanta — ou, se calhar, nem por isso — é o facto de em todo o artigo ser usado ape­nas um argu­mento: Sam Har­ris! Ricardo Sil­ves­tre, após a iro­nia dos pri­mei­ros pará­gra­fos (já lá irei), refugia-se num argu­mento de auto­ri­dade à volta da figura de Sam Har­ris, ainda por cima em contra-ponto a uma outra figura tam­bém uti­li­zá­vel como argu­mento de auto­ri­dade, Scott Atran, que, ape­nas pelo facto de não defen­der o ateísmo tipo dos neo-ateus, é abu­si­va­mente mino­ri­zado na com­pa­ra­ção. Para quem não conhece, uma visita à página da Wiki­pe­dia dedi­cada a Scott Atran pode aju­dar a per­ce­ber do que falo.

Nesse argu­mento de auto­ri­dade base­ado no Sam Har­ris, Ricardo Sil­ves­tre recorre ainda às “cen­te­nas de milha­res de cópias” ven­di­das dos livros de Sam Har­ris e eu pergunto-me se o Ricardo Sil­ves­tre se terá lem­brado, enquanto redi­gia aquela frase, dos milhões de cópias que a Bíblia vende anualmente…

Final­mente — e para ser­vir de ponte entre a sec­ção Sam Har­ris e a sec­ção “iro­nia” no texto em aná­lise -, Ricardo Sil­ves­tre lem­bra que “ele pró­prio [Sam Har­ris] não acre­dita que todos devem pen­sar como ele”. Ainda bem que o Sam Har­ris pensa assim. É pos­sí­vel que o pró­prio Ricardo Sil­ves­tre até con­corde com o Sam Har­ris. Mas, se con­corda, lida muito mal com a crí­tica. De tal forma que a suges­tão dei­xada pelo Ricardo Sil­ves­tre é a seguinte:

Tenho uma suges­tão a fazer.
Acho que há um grupo, bas­tante alar­gado diga-se, de ateus Por­tu­gue­ses que deviam criar a Asso­ci­a­ção Por­tu­guesa do Ateísmo Posi­tivo: a APAP portanto.”

Pronto! Desta forma fica­ria tudo resol­vido. O Ricardo Sil­ves­tre e os seus com­pa­nhei­ros de luta neo-ateus pode­riam con­ti­nuar a pra­ti­car o ateísmo da forma mais pre­vi­sí­vel e incon­se­quente que sabem e gos­tam e já nin­guém lhes cha­te­a­ria o juízo. Voilá! No mesmo texto, Ricardo Sil­ves­tre atri­bui uma qua­li­dade ao dis­curso de Sam Har­ris quando este afirma que aceita que nem todos pen­sem como ele quando, uns pará­gra­fos acima, “man­dou” os que não pen­sam como ele criar uma nova asso­ci­a­ção ateísta! Até parece que estou a ler a Bíblia onde numa página se defende A e umas pági­nas à frente se defende não-A. Aqui, con­tudo, basta sal­tar uns parágrafos.

O que o Ricardo Sil­ves­tre ainda não repa­rou é que a maior parte dos ateus que não se revêm no seu estilo já não fazem parte do Por­tal Ateu e nunca pre­ci­sa­ram da suges­tão dada no seu texto para saí­rem. Saí­ram por­que, pro­va­vel­mente, já tinham adi­vi­nhado este seu artigo há muito tempo.

Não deixa de ser iró­nico o facto de serem os neo-ateus aque­les que têm uma pos­tura que cada vez mais se asse­me­lha a uma seita reli­gi­osa, cheia de dog­mas e adversa à crítica.

Porque não posso passar à frente

Nos comen­tá­rios a este artigo do Por­tal Ateu, o Lúcio Mateus, por quem tenho muita con­si­de­ra­ção e cujos tex­tos não incluo no meu rol de pre­o­cu­pa­ções expos­tas nos meus dois últi­mos arti­gos, sugere que ultra­pas­se­mos as dife­ren­ças e pas­se­mos ime­di­a­ta­mente para a parte em que con­cor­da­mos que somos todos huma­nos e ateís­tas. Embora entenda e res­peite o con­teúdo con­ci­li­a­dor expresso no comen­tá­rio do Lúcio Mateus, não posso con­cor­dar que se igno­rem as dife­ren­ças e que não se dis­cu­tam as pos­tu­ras como publi­ca­mente se divulga e pro­move o ateísmo. Seria como se, de repente, dei­xasse de haver dis­cus­são polí­tica no par­la­mento por­que um depu­tado se levan­ta­ria e diria “Não pode­mos pas­sar já para a parte do fim e con­cor­dar­mos que somos todos demo­cra­tas e repu­bli­ca­nos?”. Como é óbvio, não faria qual­quer sentido.

As dis­cus­sões devem exis­tir, os méto­dos devem ser pos­tos em causa e as diver­gên­cias devem ser usa­das para que todos os inter­ve­ni­en­tes pos­sam fazer uma aná­lise do que pre­ten­dem e do cami­nho que esco­lhe­ram seguir no que diz res­peito ao con­tri­buto que cada um dará ao ateísmo. E para que pos­sa­mos todos, em cons­ci­ên­cia, não ser con­fun­di­dos quanto às suas opções, aos seus argu­men­tos e à sua pos­tura enquanto ateus e enquanto pes­soas livres. Ser ateu não pode ser o mesmo que per­ten­cer a um par­tido onde a dis­ci­plina de voto é com­pul­siva e onde as vozes dis­so­nan­tes são per­so­nas non gra­tas. Não! Parecem-me razões mais que sufi­ci­en­tes para não poder pas­sar à frente.

O Corporativismo Ateu

Ainda no res­caldo do meu artigo ante­rior, não deixa de me sur­pre­en­der a ten­dên­cia cor­po­ra­ti­vista de alguns ateus que se mos­tram muito indig­na­dos pela minha posi­ção pública (e de outros) de cri­ti­car algu­mas for­mas de exer­cer o ateísmo, reduzindo-o a um papa­guear de reac­ções típi­cas de um com­por­ta­mento anti-clerical e anti-religioso. Como se pelo facto de se ser ateu dei­xasse implí­cita a con­cor­dân­cia com qual­quer deva­neio incon­se­quente, infan­til ou sim­plista, desde que publi­cado por um outro ateu! Ou, quiçá mais grave ainda, exis­tisse uma obri­ga­to­ri­e­dade em não tor­nar pública a dis­cor­dân­cia com essas posi­ções. Esta­mos, por­tanto, perante um caso de cor­po­ra­ti­vismo ateu. Have­rão, even­tu­al­mente, alguns ateus que con­fun­dem a exis­tên­cia de uma (ou mais) asso­ci­a­ções ateís­tas com o exer­cí­cio de uma Ordem dos Ateus, à ima­gem de outras Ordens que por aí andam, em que o cor­po­ra­ti­vismo, mesmo que não assu­mido, é cla­ra­mente a sua prin­ci­pal preocupação.

Ora, se assim fosse, sig­ni­fi­ca­ria que os inte­res­ses dos ateus teriam que ser sem­pre pos­tos à frente de quais­quer outros inte­res­ses, desde que não vio­las­sem uma pro­vá­vel “con­duta ateísta”, o que quer que isso seja. Mas uma asso­ci­a­ção ateísta não tem — nem deve ter — tal pro­pó­sito. Uma asso­ci­a­ção ateísta deve ser­vir os inte­res­ses dos ateus aju­dando os seus mem­bros a luta­rem pelo seu direito de serem e se assu­mi­rem ateus livre­mente e pro­mo­vendo uma visão natu­ra­lista e raci­o­nal do mundo, enal­te­cendo, no pro­cesso, as vir­tu­des dos prin­cí­pios ateís­tas. Uma asso­ci­a­ção ateísta não se deve con­fun­dir com uma polí­cia reli­gi­osa ou com um órgão de infor­ma­ção anti-clerical. Os ateus são-no por­que não acre­di­tam em deu­ses e não por­que há padres pedó­fi­los, car­de­ais ves­ti­dos de ouro ou guer­ras san­tas. Isso são ape­nas (um ape­nas muito grande, é certo) casos de polí­cia, de osten­ta­ção imo­ral ou poli­ti­cas exter­nas defi­ci­en­tes, res­pec­ti­va­mente. Há muito pouco de ateísmo na expo­si­ção obses­siva des­ses casos.

Há tam­bém quem defenda que a diver­si­dade é óptima no que diz res­peito à opi­nião, podendo assim ser dada maior abran­gên­cia à visão ateísta. Isto só é ver­dade se nessa diver­si­dade não se incluir todo e qual­quer dis­pa­rate argu­men­ta­tivo que ponha em causa a foto­ge­nia do ateísmo no retrato final. Quando o con­teúdo é pre­vi­sí­vel, repe­ti­tivo, teo­fó­bico, mes­qui­nho e mui­tas vezes mal escrito, é certo que enve­nena o con­junto, deixando-o num marasmo de medi­o­cri­dade. Se esse é o preço da diver­si­dade, não con­tem comigo para asso­biar para o lado e fin­gir que todo o ateísmo é útil para “a causa” e que não deve ser ques­ti­o­nado, muito menos publi­ca­mente. É pre­ci­sa­mente por esses dis­pa­ra­tes serem públi­cos e em nome do ateísmo que eu faço ques­tão de me des­mar­car de tais posi­ções, assu­mindo publi­ca­mente o meu des­con­ten­ta­mento e criticando-as sem­pre que me pare­cer per­ti­nente fazê-lo.

 

 

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