Quando toca a “cascar” no governo encontram-se as alianças mais inesperadas. Assistir ao espectáculo de alguma esquerda a aplaudir a intervenção do bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, na passada terça-feira na TVI, parece demasiado deprimente para ser verdade. Para essa esquerda, é válido que qualquer cidadão se pronuncie sobre politica se for para “cascar” no governo. Contudo, chamo a atenção de dois pormenores:
- O entrevistado foi anunciado como bispo das Forças Armadas e com o seu título de membro da Igreja Católica, envergando o pomposo “Dom” antes do nome (ver aqui)
- O entrevistado não trajava à civil, envergando as tradicionais vestes do cargo que desempenha na hierarquia a que pertence
Pergunto-me se, em iguais circunstancias, essa mesma esquerda defenderia tão convictamente a liberdade de expressão do referido bispo em assuntos como o aborto ou o casamento de pessoas do mesmo sexo. Ou se virão a defender o papel de agente social da Igreja quando acontecer um debate público e sério sobre a eutanásia. Não me parece.
Ao contrário do que muita gente pensa, a separação entre Estado e Igreja visa a protecção de ambos. Ao pronunciar-se sobre assuntos de Estado, o bispo abre um precedente muito perigoso, pois seria tão ou mais grave que, doravante, o Estado começasse a opinar sobre assuntos internos da Igreja.
Assim, mesmo que o cidadão Januário tenha todas as razões e mais alguma para dizer o que disse, não o pode fazer com o “Dom” antes do seu nome e tem que envergar uma t-shirt e blue-jeans quando o fizer, caso contrário comporta-se como mais um agente do tráfico de influências com que a imprensa e a Igreja Católica tantas vezes nos presenteiam. Que a esquerda oportunista não queira ver isto é que é de lamentar.

O sr. Helder parte de pressupostos em que Igreja e Estado são duas sociedades ao mesmo nível. O Estado representa a totalidade dos Portugueses que vivem dentro ou fora do território nacional. A Igreja representa uma parcela do povo português que possui determinada identidade religiosa (neste caso, a católica). Assim, D. Januário, sendo cidadão português e representando cidadãos portugueses, pode com legitimidade interferir (com a opinião) em assuntos do Estado. O contrário, ou seja, o Estado a opinar em assuntos eclesiais, não faz qualquer sentido, uma vez que o Estado suporta em si um universo mais amplo que a própria Igreja.
Não, Nelson, não! Isso não seria mesmo que não fosse o bispo da Forças Armadas. A separação do Estado e da Igreja, funciona em ambos os sentidos e, acredite, defende cada um do outro em paridade. Mas, ainda que fosse como você diz, o cidadão Januário deveria trajar à civil e nunca poderia ter sido anunciado como Bispo das Forças Armadas. Mais, a identidade religiosa, como você lhe chama, não tem qualquer valor legal. Experimente lá cometer um crime e alegar inocência devido à sua identidade religiosa. Olhe que não se safa!