O Corporativismo Ateu

Ainda no res­caldo do meu artigo ante­rior, não deixa de me sur­pre­en­der a ten­dên­cia cor­po­ra­ti­vista de alguns ateus que se mos­tram muito indig­na­dos pela minha posi­ção pública (e de outros) de cri­ti­car algu­mas for­mas de exer­cer o ateísmo, reduzindo-o a um papa­guear de reac­ções típi­cas de um com­por­ta­mento anti-clerical e anti-religioso. Como se pelo facto de se ser ateu dei­xasse implí­cita a con­cor­dân­cia com qual­quer deva­neio incon­se­quente, infan­til ou sim­plista, desde que publi­cado por um outro ateu! Ou, quiçá mais grave ainda, exis­tisse uma obri­ga­to­ri­e­dade em não tor­nar pública a dis­cor­dân­cia com essas posi­ções. Esta­mos, por­tanto, perante um caso de cor­po­ra­ti­vismo ateu. Have­rão, even­tu­al­mente, alguns ateus que con­fun­dem a exis­tên­cia de uma (ou mais) asso­ci­a­ções ateís­tas com o exer­cí­cio de uma Ordem dos Ateus, à ima­gem de outras Ordens que por aí andam, em que o cor­po­ra­ti­vismo, mesmo que não assu­mido, é cla­ra­mente a sua prin­ci­pal preocupação.

Ora, se assim fosse, sig­ni­fi­ca­ria que os inte­res­ses dos ateus teriam que ser sem­pre pos­tos à frente de quais­quer outros inte­res­ses, desde que não vio­las­sem uma pro­vá­vel “con­duta ateísta”, o que quer que isso seja. Mas uma asso­ci­a­ção ateísta não tem — nem deve ter — tal pro­pó­sito. Uma asso­ci­a­ção ateísta deve ser­vir os inte­res­ses dos ateus aju­dando os seus mem­bros a luta­rem pelo seu direito de serem e se assu­mi­rem ateus livre­mente e pro­mo­vendo uma visão natu­ra­lista e raci­o­nal do mundo, enal­te­cendo, no pro­cesso, as vir­tu­des dos prin­cí­pios ateís­tas. Uma asso­ci­a­ção ateísta não se deve con­fun­dir com uma polí­cia reli­gi­osa ou com um órgão de infor­ma­ção anti-clerical. Os ateus são-no por­que não acre­di­tam em deu­ses e não por­que há padres pedó­fi­los, car­de­ais ves­ti­dos de ouro ou guer­ras san­tas. Isso são ape­nas (um ape­nas muito grande, é certo) casos de polí­cia, de osten­ta­ção imo­ral ou poli­ti­cas exter­nas defi­ci­en­tes, res­pec­ti­va­mente. Há muito pouco de ateísmo na expo­si­ção obses­siva des­ses casos.

Há tam­bém quem defenda que a diver­si­dade é óptima no que diz res­peito à opi­nião, podendo assim ser dada maior abran­gên­cia à visão ateísta. Isto só é ver­dade se nessa diver­si­dade não se incluir todo e qual­quer dis­pa­rate argu­men­ta­tivo que ponha em causa a foto­ge­nia do ateísmo no retrato final. Quando o con­teúdo é pre­vi­sí­vel, repe­ti­tivo, teo­fó­bico, mes­qui­nho e mui­tas vezes mal escrito, é certo que enve­nena o con­junto, deixando-o num marasmo de medi­o­cri­dade. Se esse é o preço da diver­si­dade, não con­tem comigo para asso­biar para o lado e fin­gir que todo o ateísmo é útil para “a causa” e que não deve ser ques­ti­o­nado, muito menos publi­ca­mente. É pre­ci­sa­mente por esses dis­pa­ra­tes serem públi­cos e em nome do ateísmo que eu faço ques­tão de me des­mar­car de tais posi­ções, assu­mindo publi­ca­mente o meu des­con­ten­ta­mento e criticando-as sem­pre que me pare­cer per­ti­nente fazê-lo.

 

 

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