O que separa um ateu de um crente

De uma forma mini­ma­lista, pode­ria dizer-se que o que separa um ateu de um crente é ape­nas o facto de se acre­di­tar ou não em deus(es). Só que essa pequena (grande) dife­rença arrasta con­sigo um vari­a­dís­simo rol de pos­tu­ras diver­gen­tes rela­ti­va­mente à forma de enca­rar a vida.

Antes de mais, o “um ateu” do título sou eu e não outro qual­quer; por­tanto, o título tam­bém pode­ria ser “O que me separa dos cren­tes” mas, como have­rão mais ateus a par­ti­lhar pelo menos algu­mas das minhas razões, optei por este titulo. Por outro lado, o “um crente” do título não é nin­guém em par­ti­cu­lar, de nenhuma reli­gião ou crença espe­cí­fica; é pos­sí­vel — e até pro­vá­vel — que a mai­o­ria dos cren­tes não se reve­jam em todas as dife­ren­ças apon­ta­das. Mas, mesmo cor­rendo o risco de uma gene­ra­li­za­ção exa­ge­rada, parece-me inte­res­sante a aná­lise do que nos separa.

A ordem pela qual os pon­tos são apre­sen­ta­dos é total­mente irrelevante.

Noção do Sagrado — Esta noção é tão ou mais impor­tante para alguns cren­tes do que a(s) própria(s) entidade(s) divina(s). É o reco­nhe­ci­mento comum e colec­tivo do Sagrado que imprime nos gru­pos de cren­tes o sen­ti­mento de uni­dade social, a iden­ti­fi­ca­ção colec­tiva. Mui­tos cren­tes não pra­ti­can­tes, embora des­li­ga­dos no seu dia a dia das ceri­mó­nias e dos ritu­ais, man­têm a Noção do Sagrado intacta. O Sagrado pode ser um objecto, um local, uma pes­soa ou até uma data que pela sua sim­bo­lo­gia divina ou pela sua rela­ção com o divino se encon­tra acima de qual­quer sus­peita, mere­cendo pro­funda vene­ra­ção e res­peito inques­ti­o­ná­vel. Para um ateu esta con­di­ção é absurda; afas­tado o con­ceito de divino, nem nada nem nin­guém pode mere­cer tais atri­bu­tos. O ateu terá, quanto muito, um leque de ideias e valo­res que con­si­de­rará basi­la­res para a cons­tru­ção de uma soci­e­dade justa; mas mesmo essas ideias e valo­res deve­rão ser con­ti­nu­a­mente ques­ti­o­na­das de forma a pude­rem ser rec­ti­fi­ca­das e melho­ra­das num pro­cesso ininterrupto.

Raci­o­na­lismo e Modelo de Rea­li­dade — Para um ateu, a única forma de enten­der o mundo é atra­vés da razão. Não é atra­vés de sen­sa­ções, reve­la­ções ou visões de qual­quer espé­cie, mas sim atra­vés do inte­lecto e de uma forma dedu­tiva. Para um crente, a razão não é sufi­ci­ente para a obten­ção do conhe­ci­mento do mundo. Para este, exis­tem ver­da­des inson­dá­veis, de um domí­nio meta­fi­sico, ape­nas alcan­çá­veis pela via reli­gi­osa. Separa-nos, por­tanto, não ape­nas o método, mas tam­bém as expec­ta­ti­vas, uma vez que para o crente a rea­li­dade abso­luta estará sem­pre para além do que a razão pode alcan­çar. Não são pre­ci­sos mui­tos conhe­ci­men­tos de his­tó­ria para nos aper­ce­ber­mos que o avanço do conhe­ci­mento cien­tí­fico tem impli­cado um decrés­cimo nas áreas outrora inte­gran­tes da tal rea­li­dade ape­nas alcan­çá­vel pela expe­ri­ên­cia religiosa.

Tole­rân­cia — A grande dife­rença aqui con­siste na faci­li­dade com que se uti­li­zam meca­nis­mos fúteis para defesa daquilo em que se acre­dita. Nenhuma reli­gião é tole­rante enquanto se sen­tir ofen­dida pelo facto de alguns dos seus ícones sagra­dos serem uti­li­za­dos por car­to­o­nis­tas, artis­tas plás­ti­cos porno ou rea­li­za­do­res de cinema polé­mi­cos. Um ateu pouco se importa que um artista crente dese­nhe uma cari­ca­tura de Char­les Darwin com corpo de chim­panzé. Tole­rân­cia não sig­ni­fica achar que todas as ideias são váli­das; sig­ni­fica, isso sim, reco­nhe­cer aos outros o direito de ter ou defen­der quais­quer ideias, mesmo as incor­rec­tas ou fal­sas. Quando as reli­giões não se des­mar­cam das des­co­ber­tas cien­ti­fi­cas que põem em causa as suas dou­tri­nas mile­na­res não estão a ser tole­ran­tes; estão, sim, a ser dema­go­gas. Caso con­trá­rio, a cola­gem à ciên­cia teria como con­sequên­cia a des­co­la­gem da doutrina.

Vida, Morte e Sen­tido de Exis­tên­cia — Tenho como razões pri­mor­di­ais para o sur­gi­mento do fenó­meno reli­gi­oso a ten­ta­tiva de expli­ca­ção da rea­li­dade e o recon­forto para a incóg­nita da morte. Para um crente, a expec­ta­tiva de que a sua exis­tên­cia não acaba com a morte, que se pro­longa para além desta, deverá ser uma ques­tão fun­da­men­tal. Seja pela pro­messa de uma outra rea­li­dade mais feliz, pelo receio de um cas­tigo supremo ou sim­ples­mente pela a azia pro­vo­cada pelo des­co­nhe­cido, não há dúvida que esta deverá ser uma maté­ria que cau­sará gran­des angús­tias a quem viver com tal credo. Para um ateu, nada disto faz sen­tido. Ima­gino o meu futuro após a minha morte da mesma forma que ima­gino o meu pas­sado antes do meu nas­ci­mento: nulo, isento de expe­ri­ên­cia ou de noção seja do que for. Resta-me ape­nas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a ques­tão filo­só­fica não é o “por­que vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na res­posta a esta ques­tão que se pode encon­trar o sen­tido de existência.

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19. Junho 2008 by Helder Sanches
Categories: Ateísmo, Religião | 8 comments

Comments (8)

  1. Bom dia Helder.

    Sou o que tu pode­rias cha­mar de um “novo ateu” ape­sar de ter aban­do­nado à reli­gião católica,a muito quando estava as vol­tas de ser “cris­mado”, a pes­soa que vos escreve aqui à negou, por des­cré­dito e divída, arru­mei briga com a fami­lía e por ai vai… (isso aos 13 anos).

    Depois de muito vagar e até ter fre­quen­tado cen­tro espi­rí­tas, lido muita coisa sobre budísmo,(o que ape­sar dos erros his­tó­ri­cos deles, tem algu­mas noções inte­re­san­tes) a “razão” e os pen­sa­do­res me leva­ram a ver (de fato e não por crença)que não existi qual­quer deus, deu­ses ou enti­dade de maior rele­vân­cia, demo­rei um pouco não? (Semana que vem com­pleto 38 anos)

    Nunca é tarde para nada na vida!

    Aqui no Bra­sil reli­giões, super­ti­ções, cre­dis­ses e outras, são de uma riqueza impres­si­o­nante, somente por isso deves ima­gi­nar o quanto temos de bar­cos à atra­ves­sar um mar por aqui!

    Bem, falei muito, fora um tio da minha esposa que leu o agnós­tico Cal Sagan, e se tor­nou ateu, eu não encon­tro mui­tas pes­soas que com­par­ti­lhem dos meus propósitos.

    Quando puder sem­pre vou estar de olho no teu blog, moro no sul Bra­sil e é muito gra­ti­fi­cante encon­trar lei­tura inte­li­gente na inter­net, para­béns pelo blog!

    Sau­da­ções!

  2. Gio­vane,

    Obri­gado pelo seu comen­tá­rio. Apa­reça sempre.

    Cum­pri­men­tos.

  3. O que separa o ateu de um crente é que o ateu não crê que Deus existe. Se Deus não exis­tisse, nós tam­bém não exis­ti­ría­mos por­que foi Ele quem nos criou. Nin­guém veio do nada.
    Outra coisa: Deus não tem nada a ver com reli­gião. Isso é inven­ção dos homens. O que Ele quer é que ame­mos uns aos outros e siga­mos ao seu Filho Jesus e não a religião.

  4. O argu­mento usado para jus­ti­fi­car a exis­tên­cia de deus é incon­sis­tente. Expe­ri­mente tro­car deus por o Hórus; Se Hórus não exis­tisse, nós tam­bém não exis­ti­ría­mos por­que foi Ele quem nos criou. Nin­guém veio do nada. Agora mostre-me com pro­vas irre­fu­tá­veis que seu deus é mais real do que meu Hórus. Uma suges­tão. Que tal pedir ao seu deus para fazer nas­cer meu dedo ampu­tado? Pode­ria me trans­for­mar em uma está­tua de sal? não vai dizer que ele per­deu a receita, poxa ele fez isto antes.
    Des­li­guei sua tomada do tempo!

  5. Se Deus não exis­tisse, nós tam­bém não exis­ti­ría­mos por­que foi Ele quem nos criou. Nin­guém veio do nada.
    teresa assim vc faci­lita demais os argu­men­tos dos ateus! afi­nal os ateus bus­cam uma repostta logica e atra­ves da razao! da cien­cia. o sim­ples fato de nin­guem veio do nada, é tao vazio quanto o “nada”. 1 coisa é certa: o ateu ja nao acre­dita em muita coisa, esta con­ven­cido, ate de que tem “razao” total e plena!, vc ja per­ce­beu como o ateu é estu­dado e letrado; nao é zom­ba­ria! minha1! mui­tos ja tive­ram fé e ja foram da fé! bus­ca­ram, pes­qui­sa­ram e acha­ram uma con­clu­sao q para eles fosse satis­fa­to­ria! mui­tos expe­ri­men­ta­ram de td! ate che­gar aqui! vc acha q ape­nas com essas decla­ra­çoes vai fazer valer a sua fé? e criar duvida, em um ateu!???
    na minha opi­niao isso pode ser algo que, ate una o ateu ao crente!
    nao q separe um do outro!
    pode ate gerar um topico! = o q une um ateu a um crente?!
    sera q o hel­der ira faze-lo??? seria ate inte­res­sante um ateu bus­car alguma liga­çao! se é que há alguma!
    espero o comen­ta­rio rebus­cado e sem ERROS de por­tu­gues do hel­der! afi­nal nao tenho a mesma paci­en­cia para escre­ver e acen­tuar o ÓBVIO.
    afi­nal pra ser um ateu devi-se muito tempo em lei­tu­ras e teses con­tra­di­tó­rias, cien­cia, paci­en­cia e tudo mais! isso nao é pra qual­quer um! ou é? ser ou nao ser!? eis a razao??? abra­ços e ate breve!

  6. …Resta-me ape­nas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a ques­tão filo­só­fica não é o “por­que vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na res­posta a esta ques­tão que se pode encon­trar o sen­tido de existência.”

    Gos­tei!
    Um forte amplexo!

  7. O ateu acre­dita que a exis­tên­cia do Uni­verso é auto­jus­ti­fi­cado de um modo que não con­se­gue expli­car total­mente, mas cuja expli­ca­ção que não está rela­ci­o­nada com uma força inte­li­gente incau­sada.
    O teísta crê numa causa incau­sada inte­li­gente para jus­ti­fi­car o Uni­verso, que o pode ter cri­ado, gerado, ou que sim­ples­mente o man­tém e lhe intro­du­ziu as leis que orga­ni­zam a natureza.

  8. Caro Sér­gio Sodré,

    É ainda mais sim­ples do que isso: o teísta crê numa causa incau­sada inte­li­gente para jus­ti­fi­car o Uni­verso, que o pode ter cri­ado, gerado, ou que sim­ples­mente o man­tém e lhe intro­du­ziu as leis que orga­ni­zam a natu­reza, o ateu não acre­dita em tal. Ponto final.

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