Carta aberta aos crentes

Eu não esco­lhi ser ateu. Ape­nas acon­tece que não creio em nada des­sas coi­sas que, segundo vocês pró­prios, vos tra­zem tanta Paz e Ale­gria. Nem con­sigo — sequer — con­ce­ber que para se ser feliz e viver em paz se tenha que acre­di­tar nes­sas coi­sas que vocês acreditam.

Sou, acre­di­tem, um homem bas­tante feliz. Tenho momen­tos em que só de pen­sar que alguém possa ser mais feliz do que eu me parece impos­sí­vel! Não me passa pela cabeça que alguém possa ser mais feliz ape­nas por ser bafe­jado por essa abs­trac­ção a que dão o nome de Fé. Fé em quê? No des­co­nhe­cido? No incóg­nito? No mis­te­ri­oso? Não entendo…

E, afi­nal, que espé­cie de con­forto é esse dado pela dúvida? Sim, pela dúvi­da… Afi­nal, até Jesus duvi­dou! Não se acham mais per­feito que Ele, pois não? Vá lá, admi­tam, vocês têm os vos­sos momen­tos de “fra­que­za”; não há sis­tema reli­gi­oso nem Fé alguma que se aguente face ao mais pequeno momento de luci­dez crí­tica que vocês pos­sam ter.

E essa his­tó­ria da vida eter­na… Acre­di­tam mesmo nisso ou ape­nas gos­ta­vam que isso fosse ver­dade? Deixem-se de ilu­sões, caramba! Vivam esta vida o melhor que pude­rem e não sejam reféns de pro­mes­sas con­for­tá­veis para os nos­sos ante­pas­sa­dos de há qua­tro ou cinco mil anos. Em quan­tas das his­tó­rias bíbli­cas, por exem­plo, é que vocês acre­di­ta­riam se tives­sem sido inse­ri­das nou­tra obra literária?

Final­mente, sejam feli­zes sendo vocês pró­prios. Dei­xem de ava­liar os outros pelos padrões morais fos­si­li­za­dos pres­cri­tos nos vos­sos escri­tos sagra­dos. Ajam em con­for­mi­dade com a vossa pró­pria noção de jus­tiça e liber­dade, no res­peito pela lei e pela liber­dade dos outros.

A vida não será nem mais, nem menos bela. Será, ape­nas, mais real, mais vos­sa… Será a vossa vida, a única, e espero que con­si­gam ser tão feli­zes nela quanto eu.

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18. Maio 2008 by Helder Sanches
Categories: Ateísmo, Pessoais | 13 comments

Comments (13)

  1. Obri­gado pelo teu comen­tá­rio.
    Só um comen­tá­rio: já repa­raste que, se tu tive­res razão, não há forma nenhuma de se cri­ti­car Hitler?

    Deus seja contigo.

  2. Mats,

    …já repa­raste que, se tu tive­res razão, não há forma nenhuma de se cri­ti­car Hitler?”

    Mas por­que carga de água, explica lá?!

  3. Beowulf,
    Pus a res­posta a este post no blog.

  4. Já agora, qual é o blog? É que eu tam­bém não percebi…

  5. Hel­der,
    O meu blog. Des­culpa fazer publicidade.

  6. Por­que é que diz que é feliz? Quais os seus requi­si­tos de feli­ci­dade? E se os meus forem outros, posso dizer que é infe­liz, à luz dos meus critérios?

  7. Res­pon­dendo às suas três perguntas:

    1 — Por­que sinto que sou, logo, sei que sou
    2 — Não inte­ressa, é com­ple­ta­mente irre­le­vante para o raci­o­cí­nio
    3 — Não, por­que você não sente o que eu sinto. Você pode espe­cu­lar sobre o que eu sinto mas não pode ter a certeza.

    Essa é ape­nas parte do pro­blema; ten­tar impor for­ma­tos de feli­ci­dade, típico de sis­te­mas tota­li­ta­ris­tas, como são a maior parte das religiões.

  8. 1 — Então ser feliz resume-se a sen­tir, muito bem. Se eu sen­tir que Deus existe, então Deus existe. E se sen­tir que a astro­lo­gia faz sen­tido, então é ver­da­deira. Belo argu­mento, vindo de um ateu/agnóstico.

    2 — Se não quer impor for­ma­tos de feli­ci­dade, por­que é que está a que­rer impor que toda a gente queira ser feliz? Está a ten­tar impor o tota­li­ta­rismo da felicidade?

  9. Em rela­ção ao seu pri­meiro ponto, estou com­ple­ta­mente de acordo con­sigo, muito pro­va­vel­mente por razões dife­ren­tes da que pensa. Eu sen­tir feli­ci­dade é algo que só eu e ape­nas eu posso vali­dar, não tem nada a ver — o facto de sen­tir — com o mundo que me rodeia. A sua con­clu­são é fala­ci­osa por­que pelo facto de você sen­tir deus ele ape­nas passa a exis­tir para si, não se trans­forma numa ver­dade para os outros. O mesmo para a astro­lo­gia. As ver­da­des que você qui­ser criar para si pró­prio não são ver­da­des abso­lu­tas, excepto se se limi­ta­rem ao seu ser. E por favor, não me volte a cha­mar de agnós­tico. ;)

    Em rela­ção ao ponto número dois, lanço-lhe aqui o desa­fio: apresente-me uma pes­soa ape­nas que não queira ser feliz; tenho uma amiga psi­có­loga que, cer­ta­mente, a gos­ta­ria de conhecer.

  10. Muito bem, vamos assu­mir que se eu sinto, Deus passa a exis­tir para mim. Posso argu­men­tar que só não acre­dita em Deus quem não O sente, tal como diz sen­tir a feli­ci­dade. Por isso Deus para mim é real, tal como é o facto de estar feliz. Como negar quer um quer outro?

    Quanto às pes­soas que­re­rem ser feli­zes, con­cordo. Então pode­mos dizer que o desejo de feli­ci­dade, de ple­ni­tude é um desejo ine­rente ao Homem. Que para os ateus (não agnos­ti­cos) acon­te­ceu por acaso, e para quem acre­dita em Deus é um desejo imposto por Ele.

  11. Sendo Deus para si real por­que o sente, não sig­ni­fica que ele seja uma rea­li­dade abso­luta. Era como se pelo facto de você se sen­tir feliz a feli­ci­dade fosse uma rea­li­dade abso­luta. Não faz sen­tido. Eu dizer que sou feliz não implica nem pres­su­põe que toda a gente con­si­dere esse estado como inevitável.

    Em rela­ção ao segundo pará­grafo, ima­gine a seguinte situ­a­ção: eu hoje comi bife com bata­tas fri­tas ao jan­tar e o Pedro tam­bém. Eu comi por­que foi o que esco­lhi o Pedro comeu por­que lhe foi imposto por Ele. Isto, para mim, não faz sen­tido nenhum!

  12. Para si estar feliz não é uma rea­li­dade abso­luta? Eu tam­bém posso acre­di­tar que Deus é uma rea­li­dade abso­luta, que inte­rage com os que O sen­tem. Para os que não sen­tem, é como se não exis­tisse, mas existe por­que basta alguém sentir.

    Em rela­ção ao segundo pará­grafo, está-me a dizer que todos os homens, desde sem­pre, esco­lhe­ram que­rer ser feli­zes. Nenhum em nenhuma época esco­lheu não ser feliz. Como acon­tece essa “escolha”?

  13. Foste tu que fos­tes feliz em Tokyo no pas­sado fim de semana?

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