Os aplausos dos distraidos
Ateísmo, Sociedade 29 Abril, 2008Ainda no rescaldo do programa “As Tardes da Júlia”, tive uma conversa mais acalorada com alguém que muito respeito, me é muito querida e se enquadra no leque - e que leque - dos católicos não praticantes. Tudo começou a propósito de eu ter admitido que uma frase do Ricardo Silvestre poderia ter sido evitável, embora ele tivesse razões para afirmar o que afirmou, uma vez que hostilizou um pouco a assistência. Refiro-me à passagem em que a assistência aplaude entusiasticamente uma argumentação do padre presente no programa e em que o Ricardo se sai com um estonteante “as pessoas aplaudem porque são ignorantes”. Seguiu-se, claro está, um leque de apupos vindos da bancada.
Ora, embora me pareça que o Ricardo até tinha razão para produzir tal afirmação, acho que deveria ter sido mais “politicamente correcto” e ter tido, eventualmente, um comportamento mais comercial e - quiçá? - mais cínico de forma a não hostilizar tanto a assistência.
Nesta minha conversa, fomos logo acusados (eu e o Ricardo, uma vez que nesta matéria e para a minha interlocutora somos iguais) de arrogância e de nos comportarmos como os religiosos extremistas que não respeitam as ideias dos outros. Ora, está-se mesmo a ver…
Antes de mais, onde é que está escrito que eu tenho que respeitar as ideias dos outros? O que eu tenho que respeitar, isso sim, é o direito dos outros terem ideias diferentes das minhas. E, mesmo nesse caso, existem ideias que não são sequer legalmente respeitadas. Qual é, portanto, o problema de eu não respeitar as ideias dos outros? Alguém ficaria chocado se eu não respeitasse as ideias de um nazi, de um racista ou de um xenófobo? Estas são ideias não respeitáveis e, a meu ver, muito bem.
Porque é que a religião tem que continuar a ter ele própria um altar no sistema de respeitabilidade social? Porque é que posso criticar um ministro, uma politica governamental e até o governo e não o posso fazer em relação à religião?
Não sou dos que pensam que todos os males da história da humanidade têm origem na religião. Historicamente, todas as religiões fizeram sentido e, em alguns casos, admito até que tenham contribuido para a coesão das sociedades em que se inseriram. Contudo, já passou muito tempo desde o Renascimento, do surgimento dos movimentos Humanistas, do Iluminismo, da revolução industrial e do esboço inicial da teoria da evolução de Darwin. Por isso, chega de vassalagem a um sistema de crenças da idade do bronze impregnado de rituais medievais.
A Humanidade cresceu em conhecimento ao longo de todos estes séculos. Os sermões previsíveis só podem merecer os aplausos daqueles a que o Ricardo chamou de ignorantes, mas que eu prefiro chamar de… distraidos. Deixem-me ser cínico, vá lá!



22 Maio, 2008 às 20:04
O site tem sofrido mutações!
Tecnicamente é verdade que a maior parte das pessoas não sabe o que está na Bíblia, mas dizer logo que são ignorantes ou que “não sabem nada para além do que está a ser dito” leva, obviamente, a más-interpretações - como se tivesse a chamar as pessoas de pouco inteligentes. Se estivesse a discutir com um Hitler que é apoiado pelo povo, e dizer ao povo que não sabe mais nada para além do que é discutido, haveria a mesma reacção. E a palavra de um padre é sempre valorizada, mesmo que diga coisas sem nexo. Desde que não diga que gosta de apalpar um rapazinho logo pela manhã, ou algo assim, encontra-se sempre numa posição favorável. E se admitir que a Bíblia está recheada de coisas horríveis, mas que servem apenas para uma lição qualquer, ainda melhor parece. Na verdade relativizar e subjectivar o que está escrito é de bom tom - na verdade, se acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus, prefiro que pensem assim -, mas se eu quiser discutir sobre a Bíblia deve-se aceitar que sejamos mais objectivos, mesmo tendo de procurar conhecer a História para perceber como entendiam o que estava escrito. Senão temos um a contar as suas opiniões sobre ela como se fosse um guia moral, outro que diz que os povos que escreveram eram de outros tempos e outro a dizer que tem conteúdo imoral. O mais romântico é que fica melhor visto, porque realmente quem não sabe o que está lá escrito tem uma ideia romântica sobre a Bíblia. Mas pensando bem, talvez numa discussão entre um astrónomo e um astrólogo o resultado seria semelhante. O astrónomo não seria o romântico - seria o arrogante, o extremista.