O que fazer aos outros?

Do unto others“Não faças aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti”.

Esta é uma máxima que parece ser basilar, pelos menos em teoria, para grande parte dos seguidores da doutrina cristã. Parece-me que este princípio, por mais justo e saudável que pareça, encerra em si próprio todo o potencial para o desenvolvimento de uma cultura egoísta e intolerante. Não fazermos aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem é uma forma de querermos impor os nossos critérios morais a terceiros.

Parece-me muito mais justo, correcto, saudável, tolerante e democrático o seguinte raciocínio: “Não faças aos outros aquilo que eles não quiserem que lhes façam”.

Tudo isto a propósito deste artigo, onde o comentador António se acha no direito de avaliar o que é ou deixa de ser moralmente aceitável para terceiros. Porque o António se choca com determinada matéria, não só entende que os outros também se devem chocar como, indo mais longe, se questiona, inclusivamente, sobre a legalidade do produto e da sua exposição (pelo menos entendi assim, o António que me corrija se eu estiver equivocado).

Não vejo como poderei contribuir para a felicidade alheia limitando terceiros aos meus valores morais. O limite será sempre a lei em vigor e, nos casos em que esta já não se adequar à realidade e ao evoluir dos tempos, há que fazer tudo para a mudar. Claro está que não estou a falar da lei de qualquer deus; quem se quiser limitar por essa é livre para o fazer sem a tentar impor aos outros.

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    21 comentários em “O que fazer aos outros?

    1. Eu tenho passado por muitas dúvidas nesta fase da minha vida. Aos meus 17 anos, lendo principalmente Nietzsche, Kant e Marx, confronto-me com o que acredito e o que faço.
      Estou em um ponto que não sei mais o que pensar sobre certos assuntos, mais devidamente os que falam de moral.
      Na realidade ainda não tenho capacidade de adicionar muito neste comentário, apenas que é um assunto polêmico em certos âmbitos.

      Um exemplo, é que foi abordado pelo meu professor sobre o imperativo categórico, que devemos ajudar a todos para que vire uma lei universal e Nietzche que diz, que ajudar às vezes pode ser constrangedor por mostrar uma relação de forças. Aí me pergunto, devo ajudar ou não uma pessoa numa cadeira de rodas que passa dificuldade – por exemplo – a abrir uma porta. Será que não seria melhor ignorar a todos para não bater na dúvida – vai que ela não quer mesmo -, ou ajudar, e ver o que ela pensa?
      Talvez a segunda opção que muito bem o Helder descreveu seja a melhor, afinal, é melhor saber o que os outros querem que se faça antes de se fazer.

      Ficou um pouco grande mas é isso aí que eu consigo entender.
      abraço

    2. Você é tão moralista quanto os demais,como se pode ver,analisando o tom censório que coloca nos seus textos anti-religiosos e agora vem refugiar-se no critério da Lei,como se fosse a Lei a pedra de toque basilar da consciência humana,sobre o que está certo ou errado.
      Mas já que você quer ir pelo caminho da legalidade,como suposto esteio do seu comportamento,pergunte-se a si próprio,se à luz da proibição penal de ofender sentimentos religiosos,chamar “virgem concubina” â Mãe de Jesus,gozar com o ritual do acto da comunhão,no texto da ASAE,ou divulgar um dildo com a imagem de Cristo crucificado,é ou não atentatório desses valores,penalmente protegidos e punidos.
      Você continua a não responder ao repto das questões que lhe suscitei no seu anterior post e,em vez disso,vem para aqui fazer uma espécie de queixinha pública sobre aquilo que eu,como comentador,teci em relação a outro dos seus textos.

    3. A moral precede toda e qualquer religião. Em traços gerais o Ser Humano pressegue o prazer e foge à dor, tanto individualemente como em espécie. Ajudar terceiros não mais é que buscar o prazer dentro de nós próprios, ou a fuga à dor dentro de nós próprios, o apoio mútuo nasce da moral inerente ao Ser Humano, enquanto ser desprovido de dogmatizações, poderá ajudar um cego a atrevessar a rua porque isso lhe dará prazer, um sentimento de prazer o invadirá. A fraternidade e o apoio mútuo não nascem com qualquer religião, ou com qualquer política, são tão antigas quanto o Homem, quanto a moral. A religião deturpa a moral, inflinje no Homem sentimentos repudiáveis como a pena, quando tudo se processa pelas mais básicas concepções Naturais da espécie Humana. Relativamente à “moral” cristã, esta visa a caminhada infindável do Homem pelos caminhos da dor, da pena, do sofrimento, o boicote aos prazeres mais básicos, mais Humanos, mais Naturais.

      Cumprimentos.

    4. Caro Bruno,imagine-se você ou a pessoa de um seu ente querido a ser divulgado na Net,ilustrando um dildo e pergunte a si próprio se essa hipotética situação feriria ou não os seus sentimentos…

    5. Caro António, Jesus Cristo é uma iconografia. Passado para uma questão de pessoalidade, mesmo que provada a sua existência não me parece que exista de sua parte conhecimentos e factos antropológicos suficientes para se afirmar como descendente dele. A hipotética situação de “entes queridos” não tem ponta por onde lhe pegue, é uma analogia completamente fora de contexto.

      Cumprimentos.

    6. Tem razão Bruno.Não sou descendente directo de Jesus Cristo.E,claro,você é inteiramente livre de ter as suas opiniões.Só não explica porque é que “a hipotética situação de “entes queridos” não tem ponta por onde lhe pegue,é uma analogia completamente fora de contexto”.

    7. Caro António, já havia referido anteriormente a questão iconográfica do contexto, a sua alegoria focada em laços sentimentais perante Seres Humanos é completamente fora de contexto devido ao anteriormente exposto. A questão circula entre a iconografia e a idolatria.

      Cumprimentos.

    8. Caro Helder, permita-me discordar e corrigir. Essa máxima não é de origem cristã e muito menos é exclusiva da moralidade cristã. De facto, é muito mais antiga e transversal. Historicamente é a regra de ouro do confucionismo e Confúcio viveu cinco séculos antes de Cristo. Hoje em dia, é simplesmente e acima de tudo uma excelente ideia que deveria ser adoptada por todos. Em suma, não pertence a nenhuma moralidade específica mas sim a uma moralidade universal, diga-mos assim, sem qualquer conotação de natureza religiosa.
      Por outro lado, acho que está a interpretar mal o sentido da frase, presumo que desde logo fruto de um preconceito relativamente a tudo o que emane de qualquer religião organizada. E, como vimos, esta frase pertence a nenhuma religião. A “pertencer” pertenceria aos seguidores de Confúcio e não de Cristo. O que eu não entendo é em que medida é que a aplicação dessa máxima possa significar “uma forma de querermos impor os nossos critérios morais a terceiros”. Tem a certeza que é? Olhe, eu, por exemplo, não sou religioso, também desprezo quem tenta “impor” seja o que for mas acho-a uma máxima formidável que tento aplicar no dia a dia. Porque este princípio só me vincula a mim, não pretende vincular mais ninguém, diz unicamente respeito à minha conduta pessoal perante o outro e à minha procura de ser empático. Eu sei lá o que é que “os outros” (são tantos!!!) não querem que lhes façam?! Nessa impossibilidade, resta-me a minha própria bitola para me conduzir eticamente entre os homens. Eu não gosto de sofrer, por exemplo, como tal, não devo fazer sofrer terceiros. Isto parece-me lógico e nada impositivo. Acha mesmo que eu estou a limitar terceiros aos meus valores morais?

    9. Acho na medida em que presume que os outros têm os mesmos valores, princípios ou interesses. A frase que eu contesto não é universalmente correcta, isto é, existem situações em que a sua aplicação não é a mais benéfica para todos. Note bem, isto não significa que não possa ser suficiente em alguns casos.

      Agarre no seu exemplo de impor o sofrimento, por exemplo, e verá que a forma como eu defendo a frase é igualmente válida. Já noutras circunstâncias, a que eu defendo promove a felicidade alheia independentemente dos valores seres diferentes.

    10. Bizarro,

      A tua proposta é muito interessante, mas encerra nela uma condição de reacção apenas. Deliberadamente, se pretenderes tomar uma acção e não uma reacção, como sugeres, serás sempre melhor sucedido se aplicares a regra por mim proposta.

      Off-topic: Quando é que apareces? Já tens faltas a vermelho! 😉

    11. A tua regra também não me permite ter accção, apenas define que acções não tomar. No caso de usar a regra do olho por olho, dente por dente, a primeira acção da minha parte é sempre colaborar, e a partir daí todas as minhas recções seguem a regra. E claro que terei de partir de algum principio, partirei do que acho melhor para mim, mas com a diferença que não espero que a reacção seja baseada no que quero me façam, nem naquilo que não quero que me façam, mas sim em justiça.

      Off-topic: Isto anda dificil, esta semana há feriados pode ser que ajude 😀

    12. A regra do olho por olho, dente por dente é, na minha opinião, infantil, vingativa e pouco apaziguadora. Falas em justiça mas, no entanto, pareces disposto a enveredar pela injustiça com quem tu achares que esteja a ser injusto contigo próprio.

      Mais, a regra do olho por olho, dente por dente, é um excelente estimulo para a escalada de violência e da própria injustiça.

    13. Compreendo e acho realmente pertinente a sua argumentação, assim como também acho positiva a sua asserção. Penso que uma não invalida a outra. Além disso, já valeu a pena vir aqui conversar sobre isto porque fiquei a aprender um pouco mais acerca das três regras por via do amigo Bizarro.
      Mas em relação a mim, eu não presumo que os outros tenham os mesmos valores, princípios ou interesses que eu. É óbvio que não têm! E é por serem tantos (os outros) e terem todos e cada um deles interesses e valores tão diferentes, que me parece mais razoável agir mediante a minha própria bitola de interesses e valores. Porque é impossível saber o que é que os outros não querem que eu lhes faça. Naturalmente que, se alguém me manifestar “eu não gosto disso” ou “eu não quero isso”, eu, se for empático e fraterno, não lho faço, mesmo que eu próprio ache que “isso” é bom.
      O que eu devo (acho eu e não vincula mais ninguém) é agir mediante um quadro pessoal ético de respeito e justiça em relação ao outro. Em suma, só posso tentar ser uma pessoa decente e agir em conformidade (que é, por exemplo, não fazer aos outros aquilo que não gostaria que me fizessem a mim), não posso é ter a pretensão de saber o que faz a felicidade alheia, pois se é “alheia”…

    14. Hélder, não te vejo a aplicar a tua regra do não fazer aos outros o que eles não querem que lhes façam, no que respeito aos crentes católicos que dizem que não querem lhes ofendas as crenças… podias começar por aí a aplicar a tua regra…

      Se for como contra argumento, que eles são livres de vir aqui, eu também argumento que todos são livres de não interagirem comigo, e por isso não sou nem egoista, nem intolerante, nem nada disso.

      Quanto à infantilidade da olho por olho dente por dente, é o que se pratica na nossa sociedade, a todos os níveis, até tu provavelmente já te defendeste de um assalto ou algo do genero. Eu nunca falei em injustiça, falei sempre em pagar com justiça. Quanto à escalada de violencia, se ninguem começar, não há violencia, mas se houver tem a paga, é melhor que levar e calar…

    15. Bizarro, tens que me explicar como é que se ofendem crenças! Nota, a minha frase é “Não faças aos outros o que eles não querem que lhes façam”, o que não é exactamente a mesma coisa que dizer “Respeita a crença dos outros como eles próprios as respeitam.” Bullshit!

      Ideias e crenças não me merecem respeito absolutamente nenhum! Quem me merece respeito são as pessoas e o DIREITO que elas têm de terem as crenças que quiserem. Esse é um caminho por onde não me viste enveredar. Nunca faltei aqui ao respeito a nenhum crente. Agora se existem crenças que eu considero ridículas, aí meto a boca no trombone. Mas, seja quem for, tem direito de as ter.

    16. É ingenuo pensar que as pessoas e as suas crenças existem separadamente. Ao ridicularizar uma, implicas directamente a outra, mas se consideras que assim seja é necessário mudar a regra para algo do tipo “Não faças aos outros o que eles não querem que lhes façam, menos quando forem crenças e ideias.” Mas e o caso de um assassino? ele não quer ser punido, tem que ser adicionado à regra, e o caso de alguém que anda a roubar, ele não quer ser apanhado nem punido? E o caso de alguém que anda aí a dar chapadas, ele não quer levar outra de volta.

      Esta regra para funcionar teria mais excepções que aplicações, e quando assim acontece é melhor arranjar outra regra. Que tal, olho por olho dente por dente? Se ninguem começar a violencia, a regra não a faz aparecer, mas quando aparece, não a deixa passar impune, ao contrario da regra de ouro, da regra de prata, e da tua regra de não fazer aos outros o que eles não querem.

    17. Caro Bizarro,

      É óbvio que qualquer uma destas regras só pode ser equacionada dentro do quadro legal em vigor. Tentares argumentar com exemplos que estão fora do quadro legal é uma atitude demagógica da tua parte.

      Se te roubarem o telemóvel e tu responderes roubando um telemóvel, não deixas de estar a cometer uma ilegalidade. Ou vais responder que “ladrão que rouba a ladrão…”

    18. 1. Alô, Helder. Gostei da discussão. Permita-me destacar dois fatos: Primeiro: a frase dita por JESUS CRISTO é esta (perceba a diferença): “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, FAZEI-lho também vós” (Mateus 7:12). Compare com a outra frase: “NÃO FAÇAS aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti”. Percebe a difrença?! A primeira te induz a toda e qualquer ação construtiva; a segunda, não necessariamente.

      2. O segundo: a frase (de JESUS) é um resumo de sua doutrina do amor incondicional ao próximo. Entre os cristãos é conhecida como a “regra de ouro”. JESUS CRISTO manda aos seus discípulos que tenham a INICIATIVA de fazer o bem.

      3. Naturalmente, que isso iria requerer dos discípulos ESTAREM ATENTOS às necessidades dos outros e não julgá-las. Para evitar elucubrações desnecessárias, o próprio JESUS CRISTO dá exemplos de algumas dessas necessidades (às quais qualquer um de nós pode vir a ter). Permita-me citar o texto:

      4. “Então, os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E, quando te vimos estrangeiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E, quando te vimos enfermo ou na prisão e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, QUANDO O FIZESTES a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então, dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e estando enfermo e na prisão, não me visitastes. Então, eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão e não te servimos? Então, lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando za um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.” (Mateus 25:35-47).

      5. Minha conclusão é a seguinte: a ética de JESUS (expressa na frase de Mateus 7.12) faz com que deixemos de ver o próximo como um inimigo em potencial; faz com que sejamos parte da solução e não do problema; faz com que haja mais interação positiva entre as pessoas; nos torna mais visíveis caso venhamos a necessitar de ajuda; e, finalmente, é superior à ética que os próprios contemporâneos de JESUS e muitos de nós defendemos hoje, através da “outra” frase: “NÃO FAÇAS aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti” . Nem sempre a decisão de buscar fazer o bem continuamente (sem julgar ou manipular) o próximo será recompensada. Mas, é melhor que vivermos na defensiva todo o tempo, como sugere a “outra frase”.

      6. Gostaria de sugerir a você e aos internautas o texto de http://www.igrejabiblicacrista.com.br/gcl/?page=estudos.php&id_texto=1093. Vale a pena dar uma olhada. Obrigado.
      Até mais.
      Paulo Ceroll.

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