O debate interblogues em curso coloca a seguinte questão: “Será a Religião Eterna e Inevitável?”. Fica aqui a minha resposta.

As diversas religiões, ou melhor, as diversas formas de religião (mitos, lendas, crenças, religiões modernas, etc…) têm cumprido diversos papéis nas sociedades onde se desenvolvem. Desde as tentativas toscas e compreensivelmente limitadas de explicar o mundo que nos rodeia até à cimentação e organização de grupos sociais, são muitos os que só encontram vantagens nestes processos religiosos para o desenvolvimento social.

Não vou neste artigo explorar o caminho fácil de contra-argumentar estas ideias com exemplos de como a religião tem sido, por outro lado, um empecilho ao desenvolvimento, ao conhecimento e ao progresso ou como tem sido uma das principais promotoras de guerras e genocídios da História. Vou assumir que, mesmo com todos esses contras, as religiões terão cumprido o seu papel determinante na tentativa (falhada) de entender a realidade.

Contudo, pelo menos socialmente, a religião já não cumpre um papel de relevo nas sociedades modernas. A religião não tem nada para oferecer que não possa ser encontrado noutras ofertas com mais eficiência e qualidade.

A compreensão da realidade do mundo que nos rodeia é-nos oferecida pela ciência a qual, se não tivesse demais virtudes, não nos procura enganar com verdades absolutas ou dogmas inquestionáveis; o apoio social é-nos dado pelo estado e por organizações não lucrativas que chegam praticamente a todos os pontos do globo e, cada vez mais, as grandes empresas apercebem-se de um novo papel que têm que desempenhar e envolvem-se em questões de índole social.

O apoio espiritual – para quem precisa – parece ser o único aspecto em que as religiões ainda desempenham algum papel, por mais ilusório que este seja. Mas, mesmo este, tem uma tendência a ir diminuindo à medida que o conhecimento científico prolifera e as novas gerações vão sendo melhor educadas e formadas academicamente, optando, tendencialmente, para procurar conforto em decisões lógicas e sustentadas na realidade.

Existe uma linha de cientistas que procura uma razão genética (David Sloan Wilson, Lewis Wolpert, entre outros) para a religiosidade. Basicamente, as razões da predisposição para a religião, ou melhor, para a crença, teriam uma justificação evolutiva. O processo, para ser explicado rapidamente, seria o seguinte: ao longo da evolução de milhões de anos que viria a conduzir ao homo sapiens moderno, as crianças que se tentassem afastar do grupo eram advertidas pelos mais velhos para não o fazerem pois sujeitavam-se a um encontro desagradável com um predador. Os que acreditassem na palavra dos mais velhos mesmo sem verem, sentirem ou cheirarem o predador teriam mais probabilidades de sobrevivência do que aqueles que arriscassem e se afastassem do grupo. Esta aplicação do princípio da selecção natural teria levado a que os mais novos tivessem geneticamente gravada a predisposição para acreditarem sem evidências na palavra dos pais o que, mais tarde, já adultos, facilitaria a crença religiosa e o fascínio pelo sobrenatural.

Não tenho dúvidas que evolutivamente, de facto, é preferível uma criança acreditar nos mais velhos, presumindo a boa intenção destes. Tenho, contudo, muitas dúvidas quanto à predisposição genética para a crença. Se as consequências do exemplo dado tivessem ficado gravadas no nosso código genético isso implicaria a eliminação, ao longo do tempo, dos mecanismos que nos fazem responder a determinados estímulos com curiosidade, essa característica que não é exclusiva dos seres humanos.

Concluindo, parece-me que, uma vez afastadas as condicionantes biológicas, e diluindo-se as motivações sociais por outras soluções que a nossa sociedade oferece, ficamos com uma religião que apenas servirá aqueles que temem a morte como um prenúncio de algo mais e que procuram nela – religião – a busca da eternidade. Uma vez desmistificada a morte a religião passará a ser uma curiosidade histórica como as pinturas rupestres ou a mitologia grega. Demorará, certamente, muito tempo…