O Definhar da Religião
19 Jun, 2007 Debates, Religião
O debate interblogues em curso coloca a seguinte questão: “Será a Religião Eterna e Inevitável?”. Fica aqui a minha resposta.
As diversas religiões, ou melhor, as diversas formas de religião (mitos, lendas, crenças, religiões modernas, etc…) têm cumprido diversos papéis nas sociedades onde se desenvolvem. Desde as tentativas toscas e compreensivelmente limitadas de explicar o mundo que nos rodeia até à cimentação e organização de grupos sociais, são muitos os que só encontram vantagens nestes processos religiosos para o desenvolvimento social.
Não vou neste artigo explorar o caminho fácil de contra-argumentar estas ideias com exemplos de como a religião tem sido, por outro lado, um empecilho ao desenvolvimento, ao conhecimento e ao progresso ou como tem sido uma das principais promotoras de guerras e genocídios da História. Vou assumir que, mesmo com todos esses contras, as religiões terão cumprido o seu papel determinante na tentativa (falhada) de entender a realidade.
Contudo, pelo menos socialmente, a religião já não cumpre um papel de relevo nas sociedades modernas. A religião não tem nada para oferecer que não possa ser encontrado noutras ofertas com mais eficiência e qualidade.
A compreensão da realidade do mundo que nos rodeia é-nos oferecida pela ciência a qual, se não tivesse demais virtudes, não nos procura enganar com verdades absolutas ou dogmas inquestionáveis; o apoio social é-nos dado pelo estado e por organizações não lucrativas que chegam praticamente a todos os pontos do globo e, cada vez mais, as grandes empresas apercebem-se de um novo papel que têm que desempenhar e envolvem-se em questões de índole social.
O apoio espiritual – para quem precisa – parece ser o único aspecto em que as religiões ainda desempenham algum papel, por mais ilusório que este seja. Mas, mesmo este, tem uma tendência a ir diminuindo à medida que o conhecimento científico prolifera e as novas gerações vão sendo melhor educadas e formadas academicamente, optando, tendencialmente, para procurar conforto em decisões lógicas e sustentadas na realidade.
Existe uma linha de cientistas que procura uma razão genética (David Sloan Wilson, Lewis Wolpert, entre outros) para a religiosidade. Basicamente, as razões da predisposição para a religião, ou melhor, para a crença, teriam uma justificação evolutiva. O processo, para ser explicado rapidamente, seria o seguinte: ao longo da evolução de milhões de anos que viria a conduzir ao homo sapiens moderno, as crianças que se tentassem afastar do grupo eram advertidas pelos mais velhos para não o fazerem pois sujeitavam-se a um encontro desagradável com um predador. Os que acreditassem na palavra dos mais velhos mesmo sem verem, sentirem ou cheirarem o predador teriam mais probabilidades de sobrevivência do que aqueles que arriscassem e se afastassem do grupo. Esta aplicação do princípio da selecção natural teria levado a que os mais novos tivessem geneticamente gravada a predisposição para acreditarem sem evidências na palavra dos pais o que, mais tarde, já adultos, facilitaria a crença religiosa e o fascínio pelo sobrenatural.
Não tenho dúvidas que evolutivamente, de facto, é preferível uma criança acreditar nos mais velhos, presumindo a boa intenção destes. Tenho, contudo, muitas dúvidas quanto à predisposição genética para a crença. Se as consequências do exemplo dado tivessem ficado gravadas no nosso código genético isso implicaria a eliminação, ao longo do tempo, dos mecanismos que nos fazem responder a determinados estímulos com curiosidade, essa característica que não é exclusiva dos seres humanos.
Concluindo, parece-me que, uma vez afastadas as condicionantes biológicas, e diluindo-se as motivações sociais por outras soluções que a nossa sociedade oferece, ficamos com uma religião que apenas servirá aqueles que temem a morte como um prenúncio de algo mais e que procuram nela – religião – a busca da eternidade. Uma vez desmistificada a morte a religião passará a ser uma curiosidade histórica como as pinturas rupestres ou a mitologia grega. Demorará, certamente, muito tempo…



19 Junho, 2007 às 12:02
“Um dia terminarão as religiões.”
“Um dia viveremos numa sociedade sem classes. ”
“O Dia do Juízo Final está à nossa espera.”
Três de actos de fé!
Uma nova Santíssima Trindade?
Caro Helder, concordamos em discordar?
PS: Não apostou comigo porque sabia que eu ia ganahar:)
20 Junho, 2007 às 10:14
[...] O Definhar da Religião, aqui mesmo no Penso, logo Sou Ateu [...]
20 Junho, 2007 às 10:21
Caro On,
Eu concordo sempre em discordar. De tal forma, que não veja a correlação entre as suas propostas para novos actos de fé. Enquanto que as duas primeiras propostas são objectivos desejáveis e, eventualmente, alcançáveis, contribuindo para uma sociedade muito mais justa e equilibrada, a terceira proposta faz parte daquela paranóia amedrontada do fim do mundo, na qual não me revejo, e que em nada contribui para a qualificação da sociedade em que vivemos, antes pelo contrário.
Não apostei consigo porque não aposto, simplesmente.
11 Julho, 2007 às 13:57
Na minha opinião, a religião vai ser eterna. Enquanto existirem Homens e civilizações, é inevitável! Acho que, mesmo que a religião evolua (seja lá para onde for) irão começar a aparecer novas ideologias e crenças, ligadas a outros mitos. Acho que a crença não está no nosso codigo genético, está no nosso cerebro, na nossa própria educação. Conheço pessoas que por qualquer razão dizem “graças e Deus”. O que quer dizer isso: nada. É completamente desprovido de conteudo. Mas a verdade é que a associação cognitiva vai de imediato “buscar” essas palavras. Se uma pessoa é resistente à mudança, imaginem os anos longos para mudar a mentalidade de civilizações.
Por outro lado, quanto mais vou conhecendo pessoas, e quanto mais vou crescendo, mais observo na incapacidade dos Homens assumirem que as coisas acontecem, ou porque erraram ou porque simplesmente existiu um desencadear de acontecimentos que os levaram a um determinada situação. É muito mais fácil acreditar que alguma coisa (que não tem nada a ver com eles) quis que tal acontecesse. Mais uma vez acho que o cerebro humano é incrivel. E acredito que, o rumo da civilização moderna vai levar a que apareçam novas formas de religião. Quem quiser acreditar em algo, vai ter muito por onde escolher… aliás já tem!
PS: Não conhecia a página, mas gostei muito. Obrigado por ainda existir sitios interessantes de ler.
22 Julho, 2007 às 0:21
Religião uma muleta psicológica, para os cegos que vivem na escuridão da ignorancia.
Mas o homem evoluido não parece mais se refugiar na sua solidão, procurando abrigo nos braços de uma figura de pai divinizado que ele mesmo criou.
Uma vez que o conhecimento, a liberdade explode na mente de um homem, contra este homem nada mais podem os deuses……………………..
17 Agosto, 2007 às 15:18
Caro Helder…o seu blogue,que muito aprecio,pela indiscutivel qualidade que lhe subjaz e as suas considerações ateístas ,de que não partilho,são imensamente relevantes para quem,como eu,procura o melhor sentido de uma religiosidade fundamentada e consequente.Não creio que existam coincidências,na significância profunda dos acontecimentos,que a todos nos ligam,pelos fios etéreos e invisíveis da Humanidade.Ocorrerá,presumo,um definhar de dogmas e práticas antireligiosas,travestidas de religiosas,mas a verdadeira dimensão espiritual prevalecerá sobre todos os preconceitos e será ela que,igualmente,conferirá cabal sentido à zona misteriosa e inexplicável da Vida,que a Ciência,por si só, nunca conseguirá alcançar.
23 Setembro, 2007 às 16:44
Viva Hélder, só agora escrevi algo a respeito do tema, deixo aqui o link, pois sei que o objectivo destes debates é mesmo a troca de ideias, e sendo assim mais vale tarde que nunca.
http://tinyaleph.blogspot.com/2007/09/ser-religio-eterna-e-inevitvel.html
23 Setembro, 2007 às 17:19
Boas tardes, na minha opinião está-se a cair num erro comum. O fenómeno religioso é muito mas muito mais complexo
do que a maioria das pessoas pensam.
Um pressuposto bastante comum é que o aumento de conhecimento tende a afastar as pessoas da religiosidade. Que ainda nem entendi muito bem o que é que uma coisa tem a haver com outra.
Mas este pressuposto mostra-se insuficiente, quando vê-mos génios, pessoas que atingem níveis de educação elevadíssimos, que constroem bombas para rebentar consigo mesmos.
20 Outubro, 2007 às 6:59
Caro Helder não sei se se lembra de mim, em todo o caso deixo-lhe um grande abraço de Saudade.
Eu sou Católico (não vale a pena dizer que sou praticante porque não há no meu entender outra forma de o ser), acho este seu blog deveras interessante por varios motivos, mas principalmente porque me ajuda a fortalecer a minha fé (sendo inteligente ou não…não sou eu quem vai decidir isso) Não acredito por acreditar acredito porque O vivo em todas as minhas acções. A frase que enverga na sua t-shirt acho-a fantastica sinceramente, eu so deitava agora um pedaço de madeira para a fogueira (para isto nao ser so um reencontro pacifico eheh), “Penso logo sou Ateu” parece-me interessante mas pensar nao nos leva obrigatoriamente a conclusões…eu, em contraponto utilizaria outra frase…”Compreendo logo sou Cristão”
Um forte abraço em breve espero poder ser honrado pela sua companhia de novo tenho que melgar o André para irmos ao Bairro. Lamento que o meu comentario seja somente uma “lambidela” sobre o tema mas prometo aparecer mais por estas bandas
PAz e Bem!
Nuno Azevedo
22 Outubro, 2007 às 7:24
Olá Nuno,
Bem vindo por estas bandas hereges! Lembro-me perfeitamente de ti. Espero que continues dedicado ao baixo como da última vez que soube notícias tuas.
Dizes tu que pensar não nos leva obrigatoriamente a conclusões… Bem, pergunto-te a quanta conclusões já chegaste sem pensares primeiro nos assuntos. Essa tua frase do “compreendo, logo sou cristão” pode parecer muito bonita e poética mas, desculpa lá, não diz nada. Outros dirão, compreendo, logo sou muçulmano ou outra coisa qualquer.
Para mim é, de facto, a pensar que chego a conclusões. Podemos pensar de maneira diferente e chegar a conclusões diferentes, mas, nesse caso, um de nós estará necessariamente errado ou no método ou na análise dos dados.
Espero que voltes sempre. Um abraço!
24 Outubro, 2007 às 16:38
Saudações
É um facto que é a pensar que chegamos a conclusões, e sendo a minha formação em ciencias se dissesse o contrario estaria a ser no minimo incoerente, o que digo é que, nao é somente a pensar que chegamos a conclusoes. Até ha bem pouco tempo, 4 ou 5 anos a minha posição era uma posiçao assumidamente de confronto principalmente com a Igreja mais do que com Deus, no entanto tomei uma decisão que foi, tentar compreender porque é que eu acreditanto (ainda que de forma pouco definida) tinha uma repugnancia tao grande pela Igreja. Bom, para tal entrei num grupo de jovens como observador, e acabei por ver, nao que me tentassem converter a qualquer coisa, mas depois de reflectir acabei por entender que eu fazia parte da Igreja que rejeitava, o meio influencia sem duvida (no meu entender) as nossas acçoes, se vivermos num local em que a Igreja é fria, de pedra, humida, parca em actos…sim as duvidas entranham-se em nós e acabamos por relegar para segundo plano os ensinamentos que nos foram mostrados, agora se a Igreja nos recebe de braços abertos, se vemos trabalho a ser feito, se vemos pessoas a ser ajudadas, ai sim, ai compreendemos…dai eu dizer compreendo logo sou Cristao…poderia dizer compreendo logo acredito em Deus (que para nós Cristaos é o mesmo, o Deus em que acredito é partilhado pelas 3 religioes monoteistas existentes).
Mais importante para mim do que acreditar ou nao acreditar é fazer o Bem, ser Humilde e ser Serio…basta isso para, acreditando ou não, viver em comunhao com a mensagem que me é transmitida pelo “meu” Deus.
Paz e Bem
Nuno Azevedo
11 Novembro, 2007 às 18:05
[...] recomendados de outros blogs:O definhar da religiãoOs católicos e a [...]
6 Janeiro, 2008 às 14:25
“Na tua forma de pensares, a esperança simplesmente não existe, porque não existe salvação senão na capacidade pessoal e individualista de controlar a situação e dominar os acontecimentos” “tu és destituído de qualquer emoção em especial, além de uma grande frieza”.o teu objectivo é.. “prejudicar o cristianismo e promover o ateísmo.” Quero que saibas que a Cristandade está preparada para tudo…”seremos perseguidos, mas nunca desamparados.Seremos abatidos, mas não destruidos…pois se quisermos viver em CRISTO teremos de sofrer a perseguição e os tormentos. Mas quero-te lembrar …que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem presente, nem futuro, nem poder, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura, poderá jamais separar-nos de JESUS CRISTO FILHO DE DEUS.” Porque há um só Senhor, uma só Fé, um só Baptismo e um só DEUS,
Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos”
Amigo Helder, o que tu não darias para dizer o que eu digo…sentindo e vivendo cada palavra…mas no teu coração só tens lugar para o ódio porque nele habita as trevas…e é nas trevas que em breve te encontrarás.
Ps: quero-te dizer que ninguem te obriga, nem Deus a seguir a religião Catolica
ou outra qualquer…
22 Março, 2008 às 12:19
Onde estava a igreja de B16, quando foram extermidas as civilizações: MAIA-INCAS-ÍNDIOS do BRASIL E AMÉRICA do SUL,JUDEUS do HOLOCAUSTO,AFRICANOS(hoje)?. Creio que as religiões têem sido benéficas para seus líderes e políticos que se escondem nelas para atingirem seus objetivos pessoais, ocorrência registrada pela História.
31 Janeiro, 2009 às 8:23
SABES HELDER QUE TENS RAZÃO QUANDO DIZES QUE AS RELIGIÕES VÃO DEFINHAR, ESTÁ ESCRITO.
NÃO SEI A ONDE FOSTE BUSCAR ISSO,MAS ACERTASTE.
DEUS BREVEMENTE VAI ACABAR COM ESTAS DIVISÕES TODAS,PORQUE AS RELIGIÕES TÊKM PROVADO AO LONGO DOS SÉCULOS ,SEREM UM MÁ EXEMPLO, CAUSANDO DERRAMAMENTOS DE SANGUE E DIVISÕES DE CULTURAS,É SÓ HIPÓCRESIAS DISFARÇADAS DE BONDADES.
O deus DESTE MUNDO NÃO PÁRA EM SERVIÇO,E O ARMAGEDOM,ESTÁ Á PORTA,E SÓ OS ESCOLHIDOS DO ÚNICO DEUS VERDADEIRO É QUE VÃO SER BENEFICIADOS,QUER ACREDITEM OU NÃO.
12 Fevereiro, 2009 às 19:44
O Mais Terrível Mêdo e Sentimento do Ser Humano.
Recue. Puxe o fôlego para encarar. Este é o texto do desenlace. Um documento de decisão da consciência. O ser humano se encontrará agora diante de seu mais temível, e jamais sondado, MÊDO, que está dentro, frio, calado; mas que esmagaça suas entrâncias. Porque esse mêdo soma um sentimento quase intraduzível que reúne a um só tempo: o sentir-se sozinho, impotente, sem absolutamente o que possa referenciá-lo. E esse sentimento está recôndito no mais cruel fato, no mais duro pensamento; que só em se insinuar perto da consciência estremece um calafrio de pavor, e o ser humano se esconde e faz tudo para não ter de vê-lo; porque ele agita até toda sua identidade, e ele prefere a exclusão do pensar do que deparar com tal embate psicológico … porque não é dor … é o encontro com o não ser … de não ser encontrado como existência, de não ver referência que dê sutento ao seu existir.
Existe algo estranho numa jornada de vida, não há como saber quanto está alinhavado cada nó do bordado onde cada um de nós toma e retoma sua linha de história; e é esse esquivo fenômeno que fêz neste exato momento essas linhas que você lê.
Um frio, um vazio na barriga … não há casa para você (ter tranquilidade), você não tem casa, a casa em que vc está não é segura, amanhã você não terá casa … quem suporta isso uma vida inteira? Esse é o sentimento vivido sem trégua pelo pensador; até, por uma incrível pujança da espécie, escrever este texto que vai aqui …
Os olhos humanos vêem nitidamente o cirandar dos rumos, o voleio dos ventos, tomando o volume do assombro repentino, e vê o correr espavorido e galopante do desgraçado arrogante e do covarde a encarar o relâmpago estampado diante de seu lívido olhar sem mais tempo algum diante de seu montante de estupidez e inútil futilidade.
Nos dias idos nossos ancestrais se apavoravam com o temor de não ter onde pisar, o que o cobrir, o que o sustentar. E ao pensar que a Terra seria um platô, um “plano” sem fim, só lhes cabia ver o “em cima” como céu; e imaginar que quando o chão se revolvia debaixo de seus pés, que lá em cima poderia estar a segurança. “O que sou?” … “Como poderei assegurar minha vida?”. Esse tormento psicológico terá se insinuado antes mesmo de qualquer um de nós ter tido a conquista do falar, ou, do claro pensamento expresso no falar.
O relâmpago riscava assombrosamente no céu, a Terra se enfurecia abrindo chanfros enormes nos solos que pareciam tão calmos e seguros. “Onde estou?” …
E foram-se os tempos … E uns rumaram pros confins do mar e não voltaram; “Caíram num abismo” …
Uma nova inferência surgia; “O que há mais que não sabemos” …
Mêdo. “Eu posso falar, e pergunto, e nós nos perguntamos”; “Que segurança há pra nós nesse solo, que abruptamente nos surpreende? “E vemos catástrofes e fúrias de fogo e água e gêlo” …
Assim nossos genes em nossos pais se impregnavam de impressões de cuidados e insegurança. Tínhamos que procurar amainar nossa jornada de vida. E nós nos arrumávamos socialmente e começávamos a montar nossas casas e a ter os mesmos sentimentos de tê-la em segurança como os que tínhamos em esperança dum amainar de TEMPERAMENTO do ambiente (às vezes repentinamente hostil) que nos inquietava.
Queríamos o conforto psíquico do sossêgo. E inventamos um “regente” que se comiserasse de nosso temor e no qual pudéssemos aplacar nosso receio de corte de vida sempre iminente. E inventamos nossas supertições. E simbolizamos nosso Mẽdo. E criamos um “deus” terrível. Totalmente associado ao nosso sofrimento e nossas frustrações e esperanças. E as inferências se propagaram e tornaram-se crenças. Começamos a dotar nossas sociedades de rituais de consôlo, e víamos que era bom que fosse assim. Éramos tribais. Rudes. Infantes como seres vivos; inflamados de violentos temores e sentimentos.
Quando alcançamos o estágio da polis, das cidades, à medida que rompíamos o cordão da rudeza selvática e nômade também já deixáramos a crueza da caça aberta e retínhamos em controle o que domesticávamos e o que comeríamos. Aplacávamos aos poucos nosso maior mêdo; mas também já não o discutíamos, e o perdíamos no nosso subconsciente. E nossos símbolos tornavam-se severamente cruéis. Descobríamos que por eles então podíamos escravizar nossos próprios semelhantes; e torná-los como reses, como bichos amedrontados. Já não endeusávamos nossos símbolos para protegermo-nos de nossos receios e pressentimentos; criáramos a mentira acintosa, usurpadora de todos os direitos de nossa liberdade civil: Inventáramos a Religião. Uma pantomima de efeito civil catastrófico, tão mais daninho à sociedade do que todas as catástrofes naturais.
Hoje temos os políticos escorados em um auge do embuste dessa pantomima; ávidos por nos manterem cegados; cuidando sempre do domínio de nosso estado civil escravo (fartamente açulado pelas frases insanas dos manuais de embustes); mas de maneira nenhuma cuidando da melhoria de nossa sociedade. Todos os desenvolvimentos genuínos emperram com entraves estapafúrdios venerados pelo açulamento de nossa própria escravidão psicológica. Sucumbimos geração após geração, degenerando-nos como espécie, enfeiando-nos como seres, e já comprometendo gravemente a Terra com nossa própria invencionice, que se transformou numa armadilha psíquica de alto dano civil.