Ética com estética

A pro­pó­sito das tou­ra­das, iniciou-se um inte­res­sante debate entre o Ludwig Krip­pahl e o Ricardo Alves sobre ética. No seu último post, o Ludwig defende dois prin­cí­pios com os quais eu dis­cordo (e não o faço por uma ques­tão de crença ;) ).

Pri­meiro, o Ludwig defende que merece con­si­de­ra­ção ética todo aquele que sente, tendo como pre­missa um sis­tema ner­voso base­ado no cór­tex cere­bral dos ver­te­bra­dos. Ora, esse prin­cí­pio parece-me tão válido como qual­quer outro. Por­que não basear-nos num prin­cí­pio que exclui, por exem­plo, as espé­cies não soci­ais, uma vez que as con­sequên­cias da morte de um indi­ví­duo se reper­cu­ti­riam menos na vida dos outros da mesma espé­cie? Nesse caso, a for­miga teria direito a muito mais con­si­de­ra­ção ética que um urso polar, por exemplo.

Este prin­cí­pio do sen­tir torna-se cla­ra­mente mais duvi­doso quando o Ludwig res­ponde que o doente coma­toso irre­ver­sí­vel não merece qual­quer con­si­de­ra­ção ética! Quero acre­di­tar que o Ludwig após uma mais pon­de­rada aná­lise irá mudar de opi­nião. A huma­ni­dade é com­posta por um ele­vado número de fac­to­res, não ape­nas pela efi­ci­ên­cia do seu sis­tema ner­voso. Pelos prin­cí­pios éticos do Ludwig, um rato de esgoto mere­ce­ria mais con­si­de­ra­ção ética que o tal doente coma­toso irre­ver­sí­vel. Defi­ni­ti­va­mente, pouco sustentável.

O Ludwig cai ainda na sua pró­pria argu­men­ta­ção quando aponta as falhas aos méto­dos que per­mi­tem ir “res­trin­gindo arbi­tra­ri­a­mente «os outros» até dar o resul­tado cer­to” quando cita o caso do polvo. Ora, no caso do polvo, o Ludwig está a inclui-lo, ainda que ape­nas atra­vés do bene­fi­cio da dúvida, para obter o tal resul­tado certo que lhe parece mais correcto!

Em segundo lugar, o Ludwig defende que o erro é usar a tal regra de ouro de não fazer aos outros o que não que­re­mos que nos façam e que, em vez dessa regra, o cor­recto é não lhes fazer aquilo que eles não gos­tam. Estou com­ple­ta­mente de acordo até aqui. O pro­blema é quando o Ludwig se acha no direito de saber o que os outros gos­tam ou dei­xam de gos­tar. Com ou sem um cór­tex cere­bral evo­luído, qual­quer ser vivo lutará até à última ins­tân­cia pela sua sobre­vi­vên­cia, enquanto indi­vi­duo ou enquanto espécie.

A vida tem toda o mesmo valor intrín­seco. Parece-me uma grande falta de ética valo­ri­zar a vida con­so­ante as suas carac­te­rís­ti­cas evolutivas.

Basi­ca­mente, diria que é ético poder matar qual­quer espé­cie (com o mínimo sofri­mento pos­sí­vel) nas seguin­tes situações:

  • Sub­sis­tên­cia (alimentação)
  • Sobre­vi­vên­cia (auto-defesa)
  • Saúde e Higi­ene (pública ou pessoal)

Estas situ­a­ções são váli­das para qual­quer espé­cie em causa e a morte deverá ser o menos dolo­rosa pos­sí­vel quer se trate de for­mi­gas, vacas ou ratos de esgoto. Obvi­a­mente, impli­cam a repulsa por qual­quer tipo de tor­tura tanto de ursos, de mos­cas da fruta ou tou­ros de lide. Pla­gi­ando alguém conhe­cido, o resto é treta! ;)

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04. Junho 2007 by Helder Sanches
Categories: Diversos, Sociedade | 38 comments

Comments (38)

  1. Nada como uma boa tórada.

  2. Já agora fica a indi­ca­ção que alguns estu­dos rea­li­za­dos para enten­der o tipo de inte­li­gên­cia no polvo, reve­la­ram que este sente dor e stress, ao con­trá­rio do que alguns pen­sam. Eu adoro polvo à laga­reiro apa­nhado por mim.

  3. Repara, para mim é indi­fe­rente que o polvo sinta stress ou não. O que inte­ressa não é o objecto do acto mas o acto em si. Ou seja, acho que fazes muito bem em apa­nha­res os ani­mais que muito bem enten­de­res se for para os comer, desde que ten­tes mini­mi­zar o seu sofri­mento. Isto é válido para o polvo, cara­cóis, gali­nhas ou vacas.
    Tal como repu­dio qual­quer acto de vio­lên­cia con­tra qual­quer ani­mal de qual­quer espé­cie que não tenha um dos objec­ti­vos que indi­quei no final do texto. Isto tam­bém é válido para o polvo, cara­cóis, gali­nhas ou vacas.

  4. Acho q essas regras q defi­niste demons­tram algum bom senso, no entanto têm um pequeno senão. Tam­bém jus­ti­fi­cam a morte de outro ser humano caso este­jas com fome, ou caso ele esteja a dis­se­mi­nar alguma doença alta­mente contagiosa

  5. Eu sei… Por isso é que exis­tem “n” alter­na­ti­vas antes de se che­gar a esses extremos.

    Não nos pode­mos é esque­cer que antes de me trans­for­mar em cani­bal pre­fe­ria for­mar equipa com outro ser humano para caçar poten­ci­ais pre­sas. Caso a caça falhasse, um de nós have­ria de mor­rer pri­meiro, de qual­quer forma. Aí, o outro estava safo.

    Mas, se pen­sa­res bem, encon­tras mui­tas situ­a­ções de qua­ren­tena que têm como único intuito pro­te­ger os outros de doen­ças contagiosas.

    Curi­oso é o facto de não teres incluído no teu exem­plo nenhuma situ­a­ção de auto-defesa. Será que a auto-defesa é um valor mais defen­sá­vel que os outros?

    Isto dá que pen­sar… Con­fesso que des­co­nheço o que está pre­visto na lei (se é que está) em rela­ção às outras situações.

    Este teu comen­tá­rio relembrou-me dois fil­mes: “Os sobre­vi­ven­tes”, em que existe o recurso ao cani­ba­lismo pós-morte, e “Out­break”, onde a hipó­tese de ani­qui­lar na tota­li­dade uma pequena cidade é con­si­de­rada para blo­quear uma epi­de­mia mortífera.

  6. Hel­der,

    O bene­fi­cio da dúvida que dou ao polvo é em maté­ria de facto. Pos­si­vel­mente, ele sente. Isso não é uma esco­lha ética. Não estou a inven­tar uma regra para o polvo. É aná­logo a deci­dir não pisar o sapato que espreita por baixo da cor­tina por não saber se há alguém com o pé lá dentro.

    E eu não me acho no direito de saber o que os outros que­rem. Mais uma vez, o que os outros que­rem é uma ques­tão de facto. Ou que­rem A, ou que­rem B. Não é uma coisa que eu escolho.

    Em suma, o que eu defendo é que se o polvo sente dor quando o espe­tam e se o polvo não quer isso, então a ética diz que é mau espetá-lo, tal como seria mau espetar-me a mim ou a ti, e exac­ta­mente pelas mes­mas razões: doi, e não queremos.

  7. A mim nin­guem me come, já aviso!

  8. Luis,

    Não digas isso ao pé de umas pes­soas que eu conheço. Pode ser con­si­de­rado um desa­fio! ;)

    Ludwig,

    Eu isso já per­cebi. Não con­sigo per­ce­ber é por­que é que há-de ser a dor — nos padrões tão huma­nos como os que uti­li­zas — a defi­nir o que é ético ou deixa de ser! Por quê a esco­lha desse cri­té­rio e não outro?

  9. Não é a dor. É toda a expe­ri­ên­cia sub­jec­tiva. A dor é ape­nas um exem­plo. Em seres auto­cons­ci­en­tes a vida é outra coisa impor­tante. Ou o medo, o pra­zer, os dese­jos, o que for que o bicho sinta (qual­quer que seja o bicho).

    O porquê, estou a escre­ver ainda :)

  10. «Estas situ­a­ções são váli­das para qual­quer espé­cie em causa e a morte deverá ser o menos dolo­rosa pos­sí­vel quer se trate de for­mi­gas, vacas ou ratos de esgoto. »

    O que não faz sen­tido é evi­tar que uma expe­ri­ên­cia seja dolo­rosa assu­mindo que o ser não sente dor.
    O que raio seria uma expe­ri­ên­cia dolo­rosa para um ser que não sente dor?

    Se a for­miga não for auto­cons­ci­ente, e não for capaz de sen­tir, por­que razão mere­ce­ria mais con­si­de­ra­ção ética que o meu com­pu­ta­dor?
    O que é que a colo­ca­ria acima?

  11. «A vida tem toda o mesmo valor intrínseco.»

    «Vida» é uma eti­queta que nós usa­mos para agru­par um con­junto de seres que inclui as bac­té­rias e os virus.
    Em si, não cor­res­ponde a nada muito mere­ce­dor de con­si­de­ra­ção ética.

    Se eu ins­ta­lasse uma «cons­ci­ên­cia arti­fi­ci­al» no meu com­pu­ta­dor, que sen­tisse, sofresse, ficasse ale­gre, triste, amasse, etc, o meu com­pu­ta­dor não pas­sa­ria a estar vivo — mas pas­sa­ria a ser mere­ce­dor de con­si­de­ra­ção ética.

    Por enquanto não é. Por­que não sente, não há mal nenhum que eu o tor­ture à von­tade. Se a for­miga não sofrer com isso, não vejo por­que é que torturá-la seria errado.
    A dife­rença entre a bac­té­ria e o com­pu­ta­dor, que jus­ti­fica cha­mar «viva» à pri­meira e não ao segundo, é que a «máquina bac­té­ria» é capaz de cons­truir outras máqui­nas iguais a si.
    Enquanto ela não tiver qual­quer forma de cons­ci­ên­cia, ou pelo menos não sen­tir (dor, ou sofri­mento, ou ale­gria, ou pra­zer, etc…) nada a torna mais rele­vante que qual­quer outra máquina.

    E, se admi­tir­mos que a for­miga não sente nada, então nada a torna dife­rente da bactéria.

  12. Eu n referi o auto-defesa, pq con­si­dero essa situ­a­ção mais defen­sá­vel: — é uma ques­tão de sobre­vi­vên­cia ime­di­ata. Ao passo q nas outras situ­a­ções, con­si­dero q só em situ­a­ções excep­ci­o­nais é q pode­rão ser con­si­de­ra­das, como no cani­ba­lismo pos-morte.
    No caso de uma doença já n con­cordo, pq há sem­pre alter­na­ti­vas a matar alguém, como por exem­plo o isolamento.

    Outra ques­tão q isto da ética levanta é a euta­ná­sia. Será legi­timo à soci­e­dade colo­car o valor da vida acima da liber­dade individual?

  13. «Outra ques­tão q isto da ética levanta é a euta­ná­sia. Será legi­timo à soci­e­dade colo­car o valor da vida acima da liber­dade individual? »

    Não vejo como.

    Nem entendo como é que passa pela cabeça de tanta gente ser con­tra a eutanásia.

  14. João Vasco disse:
    “«Vida» é uma eti­queta que nós usa­mos para agru­par um con­junto de seres que inclui as bac­té­rias e os virus.
    Em si, não cor­res­ponde a nada muito mere­ce­dor de con­si­de­ra­ção ética.”

    É aí que nós esta­mos em desa­cordo. Tu pre­fe­res ter con­si­de­ra­ção ética por um con­junto de hardware/software/firmware que te dê a ilu­são de que sente. Eu não sinto neces­si­dade de ter con­si­de­ra­ção ética abso­lu­ta­mente nenhuma por uma máquina que tem escrito algu­res “On/Off” ou “Reset” ou que possa ser pro­gra­mada para ser dócil às ª, ª e ª e rebelde às ª, ª e sába­dos, ficando os domin­gos reser­va­dos para capri­chos obscuros.

    O que não faz sen­tido é evi­tar que uma expe­ri­ên­cia seja dolo­rosa assu­mindo que o ser não sente dor.
    O que raio seria uma expe­ri­ên­cia dolo­rosa para um ser que não sente dor?”

    Mas eu nunca assumi que a for­miga não sente dor. O facto é que a for­miga se ten­tará deba­ter pela sobre­vi­vên­cia. Isso para mim chega.
    E esse aspecto é para mim uma das lacu­nas dos argu­men­tos do Ludwig. Base­ar­mos os nos­sos cri­té­rios éticos em valo­res que são impor­tan­tes para nós. Se, como o Ludwig diz, não deve­mos fazer aos outros o que eles não gos­tam, então não vamos ser nós a deci­dir o que eles gos­tam ou dei­xam de gos­tar pelo facto de não terem um sis­tema ner­voso desenvolvido.

  15. Inde­pen­dente da ques­tão ética:

    Se as pes­soas doam dinheiro à PETA para sal­var os ani­mais, se a PETA con­se­gue par­ce­rias, dinheiro com a venda de pro­du­tos foca­dos em um público que os com­pra sabendo o fim que seu dinheiro terá, então seria deso­nes­ti­dade uti­li­zar os recur­sos para outro fim que não defen­der os ani­mais. Seria deso­nes­ti­dade para com os doadores/parceiros, etc. E não acho imo­ral gas­tar dinheiro com focas enquanto pes­soas mor­rem de fome. Pes­soas gas­tam dinheiro com vinhos de 15000 dóla­res enquanto outros mor­rem de fome algu­res, mas estes ricos exa­ge­ra­dos devem pagar cem vezes mais do que isto em impos­tos, não é mesmo?

    Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A exis­tên­cia de um mal maior não impede que você faça um bem menor. E acho que exis­tem mais orga­ni­za­ções vol­ta­das aos seres huma­nos do que aos ani­mais. Bill Gates e War­ren Buf­fet mesmo, des­ti­nam deze­nas de bilhões à edu­ca­ção e com­bate à pobreza. Se eu qui­ser doar cem reais para o Gre­en­pe­ace e não para o com­bate à fome na África, o pro­blema é meu. Vou cus­pir na cara de um ven­de­dor de cigar­ros por ele não ser um bió­logo que pode­ria sal­var vidas humanas?

    Tam­bém não tenho pânico envol­vendo a extin­ção de espé­cies. O mundo já per­deu ani­mai­zi­nhos muito mais inte­res­san­tes que tigri­nhos e leõe­zi­nhos há milhões de anos, como os dinos­sau­ros. O homem deve se pre­o­cu­par com ele pró­prio e a pró­pria extin­ção (em última aná­lise; não sou alar­mista) pois a terra sobre­vi­verá com ou sem ele, novas plan­tas cres­ce­rão, novos ani­mais sur­gi­rão e se mul­ti­pli­ca­rão. E o que será de nós? Em com­pen­sa­ção, defendo o direito daque­les que que­rem defen­der ani­mais mon­ta­rem suas orga­ni­za­ções e mili­ta­rem da maneira que quiserem.

    Opi­nião pes­soal: não gosto de tes­tes cruéis em maca­cos, diga­mos pelos mais de 90% de com­pa­ti­bi­li­dade gené­tica. Não gosto de ácidos em olhos de coe­lhi­nhos, pau­la­das em filho­tes de focas, não gosto que se coma vitela, aborto de vaca, sou con­tra piso­tear pin­ti­nhos em shows de rock (he he), etc.

  16. Â«É aí que nós esta­mos em desa­cordo. Tu pre­fe­res ter con­si­de­ra­ção ética por um con­junto de hardware/software/firmware que te dê a ilu­são de que sente. »

    Estás errado.
    Não tenho qual­quer con­si­de­ra­ção ética por hardware/software que dê a ilu­são que sente.

    MAS se um dia cri­a­rem hardware/software que sinta (e não seja ilu­são) — e nada existe de impos­sí­vel, ou sequer implau­sí­vel, nesta hipó­tese — esse hardware/software será digno de con­si­de­ra­ção ética.

    «Mas eu nunca assumi que a for­miga não sente dor. O facto é que a for­miga se ten­tará deba­ter pela sobre­vi­vên­cia. Isso para mim chega.»

    Não, não chega.
    Isso é «ilu­são» de sen­tir dor. A for­miga está pro­gra­mada para tne­tar evi­tar mor­rer, tal como um robot pode­ria ser pro­gra­mado da mesma forma — já hoje!!

    Mas se ela não está pro­gra­mada para sen­tir, não merece con­si­de­ra­ção ética. Tal como os pro­gra­mas de hoje em dia — já podem dar ilu­são de sen­tir, mas não podem sen­tir. Por isso não mere­cem con­si­de­ra­ção ética.

    A ver­dade é que podes mesmo cons­truir um robot que se porte de forma igual a uma barata. Exac­ta­mente igual — isso já foi feito, até.
    Esse robot vai lutar para sobre­vi­ver, mas não está a sen­tir nada. Merece tanta con­si­de­ra­ção como o meu com­pu­ta­dor.
    E como a barata.

  17. Des­culpa, João, pode não che­gar para ti mas che­gar para mim. Não se trata de ver­da­deiro ou falso, trata-se de opi­nião e valo­ri­za­ção de factores.

    Para ti o fac­tor “sen­tir” é mais impor­tante que o fac­tor “vida”, para mim não.

  18. Mas o fac­tor vida é o quê?

    O que é a vida?

    Claro que há opi­niões mais defen­sá­veis que outras, um nazi acre­dita que há seres huma­nos infe­ri­o­res por terem uma cor de pele dife­rente, e um machista acre­dita que o lugar das mulhe­res é na cozi­nha. Não estou a dizer que as tuas são aná­lo­gas (caramba! Longe disso!!!) Ape­nas a mos­trar que mesmo que uma coisa seja “opi­nião”, faz sen­tido ten­tar mos­trar que não tem bons fun­da­men­tos.
    E aí, sim, acho que é o caso — uma bac­té­ria está viva. Mas o que é estar viva? Que impor­tân­cia é que isso tem?

    Se tu con­truís­ses uma máqui­na­zi­nha de silí­cio que fosse capaz de con­truir outras iguais a ela, essa maqui­na­zi­nha tam­bém esta­ria viva. Tanto quanto uma bac­té­ria. Por que é que o carimbo “viva” tem alguma impor­tân­cia? Por­que é que essa máquina mere­ce­ria mais res­peito que uma moto, ou relógio?

    A bac­té­ria, essa maqui­na­zi­nha, a moto, o reló­gio, e a barata cons­truida no labo­ra­tó­rio têm algo em comum: não sen­tem, não têm cons­ci­ên­cia, não sofrem, não ficam ale­gres — é-lhes indi­fe­rente se os des­truí­mos ou não. Isso não é ver­dade em rela­ção aos mamí­fe­ros, tal­vez não seja em rela­ção a outros ani­mais (povos, aves, etc..) — esses já mere­cem ser tidos em consideração.

    Tal como uma máquina que cons­truís­ses que pudesse sen­tir, sofrer, etc… essa mere­ce­ria ser tida em consideração.

  19. Con­si­de­ras, então, que podem exis­tir fun­da­men­tos sufi­ci­en­te­mente bons para atri­buir maior con­si­de­ra­ção ética à tal máquina sen­si­tiva que a um ser humano em coma irreversível?

    Já agora, reco­mendo a lei­tura do texto A Ques­tion of Pain in Inver­te­bra­tes. Deixo aqui um tre­cho da conclusão:

    The ques­tion of pain in inver­te­bra­tes will be extre­mely dif­fi­cult to resolve–if, indeed, it is resol­va­ble. In the mean­time, perhaps it can be agreed that it is most appro­pri­ate to con­cen­trate efforts on main­tai­ning and impro­ving the gene­ral well-being of inver­te­bra­tes used in rese­arch, that is, to ensure that these ani­mals are kept in the best and most appro­pri­ate con­di­ti­ons during their lives in the labo­ra­tory; given the bene­fit of the doubt in pro­ce­du­res which have the poten­tial to cause pain and dis­tress; and, when the time comes, kil­led in the most humane man­ner possible.”

    Repara que, na sua maior parte, o texto subs­creve a opi­nião do Ludwig e não a minha, mas acho per­ti­nente a sua lei­tura e análise.

  20. «Con­si­de­ras, então, que podem exis­tir fun­da­men­tos sufi­ci­en­te­mente bons para atri­buir maior con­si­de­ra­ção ética à tal máquina sen­si­tiva que a um ser humano em coma irreversível?»

    Claro!
    A única ques­tão a pon­de­rar é a dor e sen­ti­men­tos de outros que gos­tem do indi­ví­duo em coma irre­ver­sí­vel con­tra os sen­ti­men­tos da máquina. Mas se a máquina tivesse tan­tos sen­ti­men­tos como os de um ser humano, e eu tivesse de matar o indi­ví­duo em coma irre­ver­sí­vel para não fazer sofer a máquina, opta­ria por essa solução.

    Se o indi­ví­duo em coma irre­ver­sí­vel não tivesse ami­gos e conhe­ci­dos, não há sen­ti­men­tos da sua parte em jogo — nem no pre­sente, nem num futuro poten­cial. Aí, é claro que a máquina com sen­ti­men­tos vale­ria sem­pre mais.

    «Repara que, na sua maior parte, o texto subs­creve a opi­nião do Ludwig e não a minha, mas acho per­ti­nente a sua lei­tura e análise. »

    Se eu assu­mir que um insec­to­não sente, então ele torna-se eti­ca­mente irre­le­vante.
    O facto de lutar pela sua vida não é um indí­cio sufi­ci­en­te­mente forte para se con­cluir que sente: isso pode ser ilu­são de sen­tir, e um robot pode fazer o mesmo.

    Se exis­ti­rem boas razões para duvi­dar dos pres­sou­pos­tos do Ludwig — que uma for­miga não sente — então há fun­da­mento para duvi­dar das con­clu­sões — que a for­miga é eti­ca­mente irrelevante.

    Mas se não exis­ti­rem boas razões para con­cluir que a for­miga sente, então repito: vale tanto quanto o meu relógio.

  21. Mau exem­plo: não tenho relógio.

    Mas enfim, seja o meu com­pu­ta­dor, ou a minha caneta, ou outra treta qualquer.

  22. E eu que ia já dizer que as for­mi­gas não têm culpa de teres uma cebola! ;)

    De qual­quer forma, parece-me que esta­mos a andar à roda com os argu­men­tos. Vol­taste ao prin­cí­pio de que o sen­tir terá que ser a bitola base para atri­bui­ção de con­si­de­ra­ção ética.

  23. Vol­tá­mos ao iní­cio sem isto esclarecido.

    Ima­gi­nando que uma for­miga não sente, por­que é que ela mere­ce­ria mais con­si­de­ra­ção que um telemóvel?

    Se nós tiver­mos que assu­mir que ela sente para lhe poder dar alguma con­si­de­ra­ção ética, então parece que o sen­tir (ou vir a sen­tir) é fundamental.

    Mas se tu achas que o sen­tir não é o fun­da­men­tal, peço-te que jus­ti­fi­ques por­r­que é que uma barata mere­ce­ria mais con­si­de­ra­ção que um robot que fizesse exac­ta­mente o mesmo que ela, e ambos não sen­tis­sem.
    Se con­se­gui­res encon­trar uma boa jus­ti­fi­ca­ção para tal dis­tin­ção, então avan­ça­mos no debate, em vez de andar aos círculos.

    Se a dis­tin­ção que apre­sen­tar for “um está vivo e o outro não” eu acho essa jus­ti­fi­ca­ção fraca.
    A bac­té­ria está viva, e não merece qual­quer con­si­de­ra­ção ética. Se o meu tele­mó­vel fosse capaz de cons­truiri outros iguais a ele, esta­ria tão vivo quanto a bac­té­ria, e ainda assim não vejo por­que é que have­ria de ter con­si­de­ra­ção ética pelo meu telemóvel.

  24. João Vasco,

    Ao con­si­de­ra­res que qual­quer ser vivo para ser digno de con­si­de­ra­ção ética terá que sen­tir estás a extra­po­lar aquilo que é impor­tante para ti como sendo o que é impor­tante para os outros seres vivos. Atrevo-me a con­si­de­rar isso espé­cismo selectivo.

    Pode­mos espe­cu­lar à von­tade sobre a capa­ci­dade para a sub­jec­ti­vi­dade de cada espé­cie, para a capa­ci­dade de cons­ci­ên­cia de cada espé­cie, mas esta­re­mos sem­pre a extra­po­lar o que é impor­tante para nós como sendo o que é impor­tante para os indi­ví­duos das outras espé­cies. Parece-me um mau princípio.

    Mais, con­si­dero des­pro­po­si­tado — peri­goso, até — atri­buir­mos con­si­de­ra­ção ética dife­ren­ci­ada a indi­ví­duos da mesma espé­cie em con­di­ções de saúde (sen­so­ri­ais, se pre­fe­ri­res) dife­ren­tes. Seria um pre­ce­dente que ani­qui­la­ria pela base os Direi­tos Huma­nos ao apli­car­mos esse prin­cí­pio à nossa pró­pria espécie.

    A jus­ti­fi­ca­ção “um está vivo, o outro não” é para mim sufi­ci­ente, uma vez que estar vivo, para mim, implica o direito à sobre­vi­vên­cia. Ao que não está vivo não se pode, logi­ca­mente, reco­nhe­cer tal direito.

  25. Hel­der:

    Argu­men­taste baseando-te na ideia de que “é peri­goso” base­ar­mos a ética na ques­tão do sentir.

    Mas não res­pon­deste às minhas per­gun­tas. Peço-te que o faças.

    De resto, que­ria dizer algo a res­peito dos teus argumentos.

    «Ao con­si­de­ra­res que qual­quer ser vivo para ser digno de con­si­de­ra­ção ética terá que sen­tir estás a extra­po­lar aquilo que é impor­tante para ti como sendo o que é impor­tante para os outros seres vivos»

    Exis­tem mui­tos objec­tos na terra. Pedras, mine­rais, poças, o mar­telo do exem­plo do Ludwig (!!), etc… A maior parte não está viva. Ao con­si­de­ra­res que qual­quer objecto, para ser digno de con­si­de­ra­ção ética, terá de estar vivo, estás a extra­po­lar aquilo que é impor­tante para ti como sendo o que é impor­tante para os outros objectos.

    Até aqui esta­mos empatados.

    Mas tu deves achar que a minha objec­ção é ridí­cula! Por­que é que raio é arris­cado extra­po­lar que não há mal em des­fa­zer um mar­telo? Ou um telemóvel?

    Mas eu faço-te essa per­gunta directamente.

    E nota algo. Nós esta­mos de acordo que não mere­cem con­si­de­ra­ção ética objec­tos não vivos que não sen­tem.
    Mas quando sur­gi­rem objec­tos não vivos que sen­tem, a dife­rença entre as nos­sas pers­pec­ti­vas será ainda maior. Como é que tu pode­rias dizer que não have­ria mal em des­fa­zer um ser que sente, por ele não estar vivo?
    Entre uma pes­soa, e um robot que sinta o mundo da mesma forma que a pes­soa, por­que é que o pri­meiro have­ria de valer mais que o segundo?

    Dis­seste que a minha pers­pec­tiva é peri­gosa, e eu dis­cordo. As únicas pes­soas que ficam em perigo com a minha pers­pec­tiva são os seres huma­nos que nunca pode­rão vir a sen­tir — aque­les a quem actu­al­mente já se pode des­li­gar a máquina à von­tade — e bem! Não, os direi­tos huma­nos não ficam em perigo, por­que não nasce nenhum ser humano que não sinta — e repara que eu não estou a falar de ner­vos: estou a falar da mente.

    A tua pers­pec­tiva é que eu acho peri­gosa. Não agora, pois ela ape­nas des­va­lo­riza os objec­tos não vivos que conhe­ce­mos — e nenhum deles sente.
    Mas quando sur­gi­rem objec­tos não vivos que sen­tem, os sen­ti­men­tos deles terão de ser leva­dos em conta.
    A dig­ni­dade ética vem do sen­ti­mento — não vem da habi­li­dade para cons­truí­res cópias iguais a ti, ou do facto de teres sido cons­truído por um ser com essa habi­li­dade (isso é que é ser “vivo”).

  26. Que per­ten­si­o­sismo que eu vejo aqui, voçes que­rem resol­ver a ques­tão da ética em meia dúzia de posts. Boa sorte.
    A pro­posta mais válida para mim é a que con­si­dera como valor supremo a vida, como nós a conhe­ce­mos. Repa­rem que em grande parte do pla­neta a vida tem um valor irri­só­rio, não tendo qual­quer sen­tido nes­ses luga­res as ques­tões éticas sobre a mesma. Como eu já disse ante­ri­or­mente, a ética vai sendo mol­dada em fun­ção do conhe­ci­mento e inte­res­ses do Homem.
    Não pode­mos dar valor ético a algo que ainda não existe, sim­ples­mente por­que não conhe­ce­mos o impacto que pode ter no ser humano a exis­tên­cia de um ser pen­sante e sen­sí­vel não humano que possa rea­gir por si só.
    A ética tem de ser algo supe­rior a tudo, e man­tida a todo o custo, mesmo isso para mim é dífi­cil, uma vez que aceito a exis­tên­cia de pena de morte em cir­cuns­tan­cias espe­ci­ais e a eutanásia.

    Acho que a solu­ção está na Natu­reza e isso faz toda a dife­rença para con­si­de­rar­mos a barata e não con­si­de­rar­mos o tele­mó­vel. Tudo o que é cri­ado pela natu­reza deve ter um valor ético supe­rior ao que um ser possa construír

  27. João,

    Qual­quer máquina que venha a ter essa capa­ci­dade será desen­vol­vida atra­vés de com­ple­xos algo­rit­mos de inte­li­gên­cia arti­fi­cial. É por isso mesmo, por ser arti­fi­cial, que não tem que gozar, no meu enten­der, da mesma con­si­de­ra­ção ética que os seres vivos. Tal máquina pode ser des­li­gada e ligada nova­mente, rei­ni­ci­a­li­zada, sofrer upgra­des e upda­tes e não se quei­xar. Expe­ri­menta fazer isso a um ser vivo!

    Em rela­ção à tua per­gunta directa devo dizer-te que não acho a tua argu­men­ta­ção ridí­cula. Sim­ples­mente não con­cordo com ela, o que são coi­sas bem dife­ren­tes. Mas, res­pon­dendo direc­ta­mente à tua per­gunta, nós esta­mos de acordo que não mere­cem con­si­de­ra­ção ética objec­tos não vivos que não sen­tem mas por razões dife­ren­tes. Tu por­que eles não sen­tem, eu por­que eles não são seres vivos. O mar­telo, o tele­mó­vel ou os pau­zi­nhos de comida chi­nesa estão exac­ta­mente nesse uni­verso dos seres não vivos.

    Estar vivo é uma con­di­ção. Sen­tir é uma capacidade.

    Repara, nós não temos que con­cor­dar, nem estou à espera que isso venha a acon­te­cer. O meu objec­tivo é ama­du­re­cer as minhas ideias e espe­rar que encon­tres nelas falhas que eu iden­ti­fi­que como váli­das para poder melhorá-las. Espero que este­jas com o mesmo espí­rito e não pen­ses que acho as tuas ideias ridí­cu­las ou que espero, sequer, que alte­res a tua maneira de pensar.

    kota,

    Em meia dúzia de posts vamos com cer­teza mais longe do que em um ou dois. :D

    Tu acei­tas a pena de morte? Porra, não és da minha gera­ção… ;)

  28. Hel­der,
    ainda não me con­se­gui­ram con­ven­cer do con­trá­rio. Mas já reduzi o leque de crimes.

  29. Â«É por isso mesmo, por ser arti­fi­cial, que não tem que gozar, no meu enten­der, da mesma con­si­de­ra­ção ética que os seres vivos. »

    Estou em total desa­cordo.
    Para o Fran­kens­tein é com­ple­ta­mente indi­fe­rente se foi cri­ado por um cien­tista ou por uma mulher, na bar­riga dela.
    O que inte­ressa é que ele sente.
    Não está vivo, é arti­fi­cial — mas que dife­rença faz isso? Não é por isso que um pon­tapé lhe doi menos.

    «Tal máquina pode ser des­li­gada e ligada nova­mente, rei­ni­ci­a­li­zada, sofrer upgra­des e upda­tes e não se quei­xar. Expe­ri­menta fazer isso a um ser vivo!»

    Volto a dis­cor­dar.
    O Fran­kens­tein sofre­ria se tu o mago­as­ses, mas a bac­té­ria não sofre quando tu tomas medi­ca­men­tos.
    A dife­rença entre a bac­té­ria e a poeira — a dife­rença que faz com que tu digas que a pri­meira está viva e a segunda não — é que a bac­té­ria tem a habi­li­dade de fabri­car outras iguais a ela.
    Volto a insis­tir, se tu cri­a­res um robot que seja capaz de cons­truir robots iguais a ele, cri­aste vida. Essa vida merece mais con­si­de­ra­ção que o Fran­kens­tein (que não está vivo)?

  30. «Mas, res­pon­dendo direc­ta­mente à tua per­gunta, nós esta­mos de acordo que não mere­cem con­si­de­ra­ção ética objec­tos não vivos que não sen­tem mas por razões dife­ren­tes. Tu por­que eles não sen­tem, eu por­que eles não são seres vivos»

    Isso não res­ponde à minha per­gunta.
    Aquilo que eu quero saber é por­que é que o facto do mar­telo não estar vivo lhe nega qual­quer dig­ni­dade ética.

  31. Por fim, mesmo que achas­ses as minhas ideias ridí­cu­las pode­ría­mos ter uma dis­cus­são inte­res­sante e cons­tru­tiva à mesma. Ainda bem que não é o caso, mas não have­ria problema.

    O impor­tante é man­ter uma ati­tude cons­tru­tiva e centrarmo-nos nos argu­men­tos, e eu cá estou a gos­tar da con­versa, mesmo que o kota ache pre­ten­ci­osa :p

  32. João,

    Na tua per­gunta do mar­telo tu pró­prio dás a res­posta. Se para mim é con­di­ção base estar vivo para bene­fi­ciar de con­si­de­ra­ção ética, é cir­cu­lar colo­car a per­gunta da forma que a colocas.

  33. «para mim é con­di­ção base estar vivo para bene­fi­ciar de con­si­de­ra­ção ética»

    O que eu per­gunto é: porquê.

  34. Por­que só aos seres vivos pode­mos reco­nhe­cer o direito à sobre­vi­vên­cia. E esse direito é inde­pen­dente dos níveis de com­ple­xi­dade do seu sis­tema nervoso.

    O direito à sobre­vi­vên­cia é, por si só, um valor inques­ti­o­ná­vel, mere­ce­dor de toda e qual­quer con­si­de­ra­ção ética.

  35. Pingback: Helder Sanches » Gráfico da Consideração Ética

  36. Comen­ta­rei o novo artigo quando a argu­men­ta­ção sur­gir.
    Desde já informo que con­cordo com o gráfico.

    Quanto ao direito de sobre­vi­vên­cia, ele é negado a alguém –um ser humano — que está ligado a uma máquina que tenha sofrido morte cere­bral. O ser humano está vivo, mas não sente — deixa de ter o direito ina­le­e­ná­vel a viver.

    E assim é que deve ser.

    E acho que o Fran­kens­tein, uma vez acci­o­nado, mesmo sem estar vivo, deve ter o direito a não ser des­truído. Por­que uma vez acci­o­nado, ele sofre­ria. Não per­cebo como é que não con­si­de­ra­rias eti­ca­mente rele­vante a des­trui­ção de um robot que sofresse tanto como nós pode­mos sofrer ao morrer.

  37. João Vasco,

    A razão por­que aos doen­tes com morte cere­bral se lhes des­liga a máquina tem a ver com ges­tão de recur­sos. Como sabes, não existe nenhum local do mundo onde os recur­sos médi­cos sejam infi­ni­tos, por­tanto aquele equi­pa­mento espe­cí­fico pode ser­vir para um outro doente com hipó­te­ses de sobre­vi­vên­cia com qua­li­dade de vida.

    Essa tua argu­men­ta­ção é dema­gó­gica. Se real­mente a razão para lhes des­li­gar a máquina fosse a não exis­tên­cia de con­si­de­ra­ção ética pelos doen­tes com morte cere­bral, em vez de lhes des­li­ga­rem a máquina iam para uma sala de ana­to­mia onde os futu­ros cirur­giões pode­riam apren­der a ope­rar. Ou retiravam-se os órgãos vitais para trans­plante enquanto vivos. Ao fim e ao cabo, pela tua pers­pec­tiva, que dife­rença faria? Penso que nenhuma. Tal prá­tica não lhes cau­sa­ria qual­quer dor ou stress, certo?

    Não te vou res­pon­der à ques­tão do Fran­kens­tein por­que acho sem­pre pre­fe­rí­vel (e cor­recto do ponto de vista raci­o­nal) discutirem-se con­cei­tos e não casos par­ti­cu­la­res. Come­çá­va­mos no Fran­kens­tein e aca­bá­va­mos no T-1000 de “Exter­mi­na­dor Impla­cá­vel 2″! Não faria qual­quer sentido.

    Eu não per­cebo é por­que raio um robot teria que ser pro­gra­mado para poder sofrer! Mas isso é outra discussão.

  38. «Não te vou res­pon­der à ques­tão do Fran­kens­tein por­que acho sem­pre pre­fe­rí­vel (e cor­recto do ponto de vista raci­o­nal) discutirem-se con­cei­tos e não casos particulares.»

    Eu acho que essa recusa é uma má abor­da­gem.
    Os casos par­ti­cu­la­res mui­tas vezes per­mi­tem tes­tar a coe­rên­cia e uni­ver­sa­li­dade dos con­cei­tos. Em mate­má­tica, por exem­plo, um caso par­ti­cu­lar serve para man­dar um teo­rema abaicxo, e até já se conhe­cem as melho­res fun­ções para “tes­tar” teo­re­mas, só para ter uma pri­meira noção da uni­ver­sa­li­dade destes.

    «Eu não per­cebo é por­que raio um robot teria que ser pro­gra­mado para poder sofrer!»
    É sim­ples: ima­gina que nin­guém com­pre­en­dia de onde vinha a ima­gi­na­ção, a cons­ci­ên­cia, o sofri­mento, mas que era capaz de repro­du­zir elec­tro­ni­ca­mente o fun­ci­o­na­mento do cére­bro humano? O ser resul­tante sofre­ria exac­ta­mente como um ser humano.

    Ou então ima­gina que a cri­a­ti­vi­dade fun­ci­ona de tal forma, que sem emo­ções e sen­ti­men­tos (incluindo a ale­gria e sofri­mento) é impos­sí­vel ser muito cri­a­tivo. Para cri­a­res um robot muito cri­a­tivo ele teria de sofrer.

    Em qual­quer des­tes casos, seria pos­sí­vel pro­gra­mar um robot que sofresse. Mas exis­tem outros: se alguém qui­sesse con­ce­ber um “com­pa­nheiro” que emu­lasse o com­por­ta­mento de um humano, difi­cil­mente podes emu­lar melhor o com­por­ta­mento do que se a tua máquina sen­tir como um ser humano, etc…

    Pos­si­bi­li­da­des há mui­tas.
    Uma máquina que não sente não mrece a nossa con­si­de­ra­ção ética.
    Mas se sen­tir, como seria pos­sí­vel igno­rar o seu sofrimento?

    ———-

    Tu fazes uma pequena máquina, minús­cula. É uma máquina de ferro, que vai para um depó­sito de ferro e cons­toi máqui­nas iguais a ela. É a máquina A.

    Tu fazes outra máquina minús­cula. É extre­ma­mente seme­lhante, mas não tem a capa­ci­dade de fazer máqui­nas iguais a si. É a máquina B.

    Tu fazes outra máquina, é um robot com um fun­ci­o­na­mento no cére­bro igual ao de um coe­lho. É a máquina C.

    Os filhos da máquina A estão vivos. Não foram fei­tos por ti, mas sim por um ser igual a eles.
    Para ti, os filhos da máquina A mere­cem mais con­si­de­ra­ção ética que a máquina B (não está viva).
    Pior, mere­cem mais con­si­de­ra­ção ética que máquina C (não está viva).

    E sin­ce­ra­mente, ainda não entendi o porquê. Sei que é por­que estão vivos, mas não entendo o direito de uma bac­té­ria à sobre­vi­vên­cia. Não entendo de onde vem, ou por­que é que deva­mos atri­buir, o direito dos filhos da máquina A à sobre­vi­vên­cia.
    Um mundo em que a terra fosse toda ela feita de bac­té­rias (em vez de ser um calhau com rochas), assu­mindo que isso seria sus­ten­tá­vel, era um mundo melhor? Era um mundo com muito mais vida, mas era um mundo mais desejável?

    É que eu acho que um mundo com menos sofri­mento e mais ale­gria e feli­ci­dade seria um mundo melhor. Acho que a ética serve para encon­trar­mos for­mas de pro­mo­ver esse mundo. E esse mundo não fica mais dis­tante por des­truír­mos bac­té­rias, ou os filhos da máquina A.

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