Compreender e a Pura Indiferença

Admito que há altu­ras em que me sinto mais inco­mo­dado com o agnos­ti­cismo que com alguns tipos de cren­ças. Já aqui escrevi sobre agnos­ti­cismo e penso que ficou bem patente a minha posi­ção em rela­ção à indi­fe­rença cúm­plice dos agnós­ti­cos. Entendo mais facil­mente, por exem­plo, um pan­teísta que um agnós­tico. Recordo-me ainda quando no antigo fórum do ateísmo.net (Diá­rio Ateísta) se dis­cu­tia a cri­a­ção de uma asso­ci­a­ção e se ques­ti­o­nava a inclu­são ou não de agnós­ti­cos. Por mim, nunca fui favo­rá­vel a essas misturas!

Quando me lem­brei de pro­mo­ver este debate inter­blo­gues a dis­tin­ção entre agnós­ti­cos e ateus pareceu-me um tema óbvio para dar o pon­tapé de saída. Esta é a minha par­ti­ci­pa­ção no debate e gos­ta­ria de come­çar com uma fantasia.

Ima­gi­nem que, numa pequena cidade, um grupo con­si­de­rá­vel de pes­soas estava crente que o Sol se extin­gui­ria den­tro de duas sema­nas, a uma quarta-feira, pelas 16h43.

Não exis­tia nenhuma evi­dên­cia para tal crença mas a con­vic­ção de alguns neste delí­rio era tão con­vin­cente que arras­tava uma per­cen­ta­gem sig­ni­fi­ca­tiva dos habi­tan­tes dessa cidade.

Para além dos cren­tes, exis­tiam outros dois gru­pos de pes­soas: os que acha­vam que a ideia era um dis­pa­rate, uma vez que não havia qual­quer suporte cien­ti­fico para temer tal catás­trofe, e os que acha­vam que quer fosse ver­dade ou não era irre­le­vante uma vez que, em qual­quer dos casos, não tinham ao seu alcance qual­quer forma de alte­rar o des­tino da nossa estrela.

Com a apro­xi­ma­ção da data pre­vista para a extin­ção do Sol, o grupo crente começa a viver em fun­ção dessa fata­li­dade, ten­tando impor ritu­ais para con­tra­riar o des­tino anun­ci­ado. Outros, mais radi­cais, cien­tes de que qual­quer ritual seria uma perda de tempo, ten­tam gozar os últi­mos dias isen­tos de quais­quer regras de con­ví­vio social, recor­rendo a vio­la­ções, rou­bos e homicídios.

Os que acha­vam que esta ideia do Sol se extin­guir não pas­sava de um dis­pa­rate opunham-se e pre­ve­niam con­tra a lou­cura e insa­ni­dade dos cren­tes. O outro grupo, limitava-se a obser­var, expec­tante, o desen­ro­lar dos acontecimentos.

Esta his­tó­ria demons­tra bem a ati­tude dife­rente de cren­tes, agnós­ti­cos e ateus em rela­ção à rea­li­dade. Enquanto que os ateus se mani­fes­tam por con­si­de­ra­rem que não exis­tem quais­quer evi­dên­cias que jus­ti­fi­que qual­quer crença num qual­quer deus ou divin­dade, os agnós­ti­cos pro­cu­ram o refú­gio na igno­rân­cia – por enten­de­rem ser impos­sí­vel uma res­posta à ques­tão divina — ou no desin­te­resse – por acha­rem que qual­quer res­posta é insig­ni­fi­cante para as suas vidas.

Assim, o que apa­ren­te­mente pode­ria pare­cer a ati­tude mais raci­o­nal, não passa, isso sim, de uma forma enver­go­nhada de desis­tir da pro­cura da ver­dade ou de uma pre­sun­ção de que essa mesma ver­dade seria incon­se­quente no enten­di­mento do Homem e do mundo. Como é pos­sí­vel pen­sar que não seria deter­mi­nante para a huma­ni­dade pro­var a exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de um ou mais deuses?

Ilu­so­ri­a­mente raci­o­nal, o agnos­ti­cismo não passa de um entrave ao conhe­ci­mento. Tivesse a huma­ni­dade ao longo dos sécu­los con­fi­ado tão pouco na sua capa­ci­dade de des­co­brir e de saber e a roda nunca teria sido inven­tada. Tivesse a huma­ni­dade nos sécu­los mais recen­tes achado que deter­mi­na­das ques­tões não eram impor­tan­tes e a espe­rança de vida não teria mais que dupli­cado nesse período.

Eu entendo que o agnos­ti­cismo pode ser muito mais apa­zi­gua­dor, con­ci­li­a­dor ou demo­crá­tico que o ateísmo. Só que a ver­dade não se define por mai­o­rias! Raci­o­na­li­dade é pro­cu­rar encon­trar a Ver­dade. Raci­o­na­li­dade é pro­cu­rar as expli­ca­ções, jus­ti­fi­ca­ções e a com­pre­en­são do mundo que nos rodeia. Tudo o resto ou é delí­rio ou pura indiferença.

Gos­taste? Então, divulga!

    Comments

    1. Recomendo-lhe viva­mente o visi­o­na­mento dos epi­só­dios (não sei se se pode cha­mar real­mente de epi­só­dios) de Beauty and Con­so­la­tion. Pas­sava na Sic, a horas absur­das. Tal­vez venha a pas­sar de novo.

    2. Hel­der Sanches
      22 Maio 2007 - 21:30

      Caro Jam,

      Obri­gado pela suges­tão. Con­fesso a minha igno­rân­cia em maté­ria tele­vi­siva mas agora, com a curi­o­si­dade agu­çada, tenho que ir ver de que se trata.

      Já agora, obri­gado pela divul­ga­ção do debate. Ten­tei agra­de­cer no seu post sobre o mesmo mas não esta­vam dis­po­ní­veis comen­tá­rios. Ten­ci­ona participar?

      Um abraço.

    3. Sem­pre que se crê em alguma coisa, como o caso dos gru­pos e do sol…, é bom que haja uma base veri­ri­dica, e que tudo o que se desen­role seja tam­bém veri­dico, assim, tudo o que já acon­te­ceu, acon­tece, e virá a acon­te­cer, tal como as coi­sas que têm vindo a ser pro­va­das pela ciên­cia, estão escri­tas na Biblia Sagrada, logo, pode­mos con­cluir que esta é ver­da­deira onte, hoje e para sem­pre.
      Por­que crêr por crêr, não é crêr mas sim que­rer. Logo não é ver­dade, pois a fé é base­ada em fac­tos veri­di­cos e a espe­rança de coi­sas que se espe­ram, e a prova das que não se vêm.

    4. Catel­lius
      23 Maio 2007 - 6:10

      Viva Hel­der!
      Escrevi uma dezena de linhas por aqui e a página sim­ples­mente caiu…
      Obri­gado pelo con­vite. Era minha inten­ção ape­nas comen­tar, mas vou pre­pa­rar um artigo e devo postá-lo em uns 4 ou 5 dias. Espero que a dis­cus­são não tenha encer­rado até lá.
      Grande abraço,
      Catellius

    5. Catel­lius
      23 Maio 2007 - 6:11

      errata:
      em uns 4 ou 5 dias = em 4 ou 5 dias :)

    6. O Beauty and Con­so­li­tion era uma série de lon­gas entre­vis­tas a filó­so­fos, escri­to­res, cien­tis­tas, músi­cos, etc. Nas entre­vis­tas fala­vam deles pró­prios e o tema, era pre­ci­sa­mente “Beauty and Con­so­la­tion”, ou por outras pala­vras, uma espé­cie de pro­cura da “ver­dade”, que é um pouco uma ver­dade de cada um, o encon­tro com a “beauty” e a “consolation”.

      Mas o mais inte­res­sante nisto é, pro­va­vel­mente, o debate final onde par­ti­ci­pam a mai­o­ria dos entre­vis­ta­dos, numa emis­são que dura 3 pro­gra­mas, todos sen­ta­dos numa mesa enorme a deba­ter este tema: a huma­ni­dade e a sua pro­cura (e neces­si­dade?) por “beauty and con­so­la­tion” (ter­mos que, pos­si­vel­mente, podem ser subs­ti­tuí­dos por outros).

      http://home.tiscali.nl/sttdc/beauty.htm
      http://pontape-na-logica.blogspot.com/2006/11/182-pontap-beauty-and-consolation.html (um post num blog, na altura, a referir-se ao programa)

      Em rela­ção aos comen­tá­rios, tem razão, mas sin­ce­ra­mente não sei por­que não dá, acon­te­ceu tam­bém nou­tro post no mesmo dia. Mas não me sinto com grande pre­pa­ra­ção e conhe­ci­men­tos sobre o assunto. :)

    7. Oi, Hel­der.
      Ado­rei sua ini­ci­a­tiva de dis­cu­tir sobre esse assunto, li todos os blogs que par­ti­ci­pa­ram mas ainda fica uma dúvida minha.

      No Wiki­pe­dia fala o seguinte:

      O agnós­tico, à pri­meira vista, opõe-se não pro­pri­a­mente a Deus, mas sim à pos­si­bi­li­dade de a razão humana conhe­cer tal entidade ”

      Foi um assunto que eu não vi pro­pri­a­mente ser tra­tado — ou tal­vez tenham e eu que não con­se­gui inter­pre­tar, mas enfim — isso seria des­culpa? afir­mar que “seres sobre­na­tu­rais” estão longe da capa­ci­dade humana de poder com­pre­en­der? sem levar em conta o fato de que quem “real­mente” criou esses “seres” são os huma­nos. Ou essa seria a única forma de refu­tar essa afirmação?

      abraço.

    8. Raci­o­na­li­dade é pro­cu­rar a Verdade.Racionalidade é pro­cu­rar as expli­ca­ções e a com­pre­en­são do mundo que nos rodeia.Tudo o resto ou é delí­rio ou pura indi­fe­rença”. Pois é…mas não há for­mas sacra­men­tais mono­lí­ti­cas de pensamento,teístas ou ateístas,que con­si­gam arvorar-se em deten­to­ras dos uni­ver­sais direi­tos de autoria.Porque,no limiar dos res­pec­ti­vos postulados,há sem­pre quem diga:“Só sei que não vou por aí…”

    9. Hel­der Sanches
      14 Agosto 2007 - 4:57

      Meu caro, cada um vai por onde quer. Você já viu algum ateu a dizer por onde se deve ir? É ao con­trá­rio que as coi­sas acontecem.

      Nem nenhum ateu lhe tenta impin­gir seja o que for. O que não esta­mos dis­pos­tos — eu, segu­ra­mente, não estou — é que sejam as reli­giões a impor as regras de fun­ci­o­na­mento da nossa sociedade.

      Por isso, meu caro, você vá por onde qui­ser e como qui­ser: atire-se da ponte, vá à missa, ao fute­bol ou fique em casa. A esco­lha é sua. Não me obri­gue é a ter que o seguir.

    10. Ai vou por onde quero vou…mas não há raci­o­na­li­da­des mono­lí­ti­cas sabe ?…
      Desde os pos­tu­la­dos da mun­di­vi­dên­cia eins­tei­ni­ana de que “Deus não joga aos dados” até aos do inde­ter­mi­nismo da física quân­tica tan­tas for­mas de raci­o­na­li­dade são possiveis,incluindo as que fun­dam ‚nessa matriz racional,da com­pre­en­são da Vida e do Universo,a sua con­cep­ção reli­gi­osa da Vida…

    11. Hel­der Sanches
      15 Agosto 2007 - 7:38

      Como deve cal­cu­lar, con­cordo com tudo o que aca­bou de dizer com excep­ção da última parte. Mis­tu­rar reli­gião com raci­o­na­li­dade é pior que mis­tu­rar azeite com água.

      Essa é uma arma­di­lha na qual você não me vai ver cair. Se qui­ser falar de razões soci­ais que expli­cam a pro­pa­ga­ção das reli­giões, moti­va­ções cul­tu­rais, etc, tudo bem. Ou seja, se qui­ser ten­tar raci­o­na­li­zar o fenó­meno reli­gi­oso, esteja à von­tade; deba­ter con­cep­ções reli­gi­o­sas da vida, des­culpe, mas não posso dis­cu­tir essa maté­ria uma vez que não tenho sequer qual­quer per­cep­ção do que isso possa ser ou significar.

    12. As per­cep­ções huma­nas são dife­ren­tes e eu não tenho por hábito dia­lo­gar com base no arma­di­lha­mento inten­ci­o­nal de pres­su­pos­tos falaciosos.Para mim,cheguei à ori­gem divina da Vida por via da lógica raci­o­nal de um prin­cí­pio abso­luto da Ori­gem do Universo,por con­si­de­rar iló­gica a con­cep­ção ateísta que a visa explicar,a meu ver inconsequentemente.

    13. Dió­ge­nes
      15 Agosto 2007 - 22:13

      Caro Hél­der,

      Ste­ven Pin­ker, em seu livro “Como a mente fun­ci­ona”, sugere que a sele­ção natu­ral mol­dou nos­sas men­tes para lidar com as ques­tões da sobre­vi­vên­cia e da pro­pa­ga­ção dos genes, não para solu­ci­o­nar os mis­té­rios da vida. Demo­cra­cia, casa­mento e outros assun­tos espi­nho­sos, assim como Deus e reli­gião são dema­si­ado “novos” na his­tó­ria da nossa espé­cie e a evo­lu­ção tem uma inér­cia enorme. Daí acho mere­ce­dor de cré­dito o argu­mento agnós­tico: o apa­rato men­tal não foi mol­dado para res­pon­der essas ques­tões, pelo menos ainda, ao que me parece. O que achas?

      Abraço do Brasil.

    14. «Os que acha­vam que esta ideia do Sol se extin­guir não pas­sava de um dis­pa­rate opunham-se e pre­ve­niam con­tra a lou­cura e insa­ni­dade dos cren­tes. O outro grupo, limitava-se a obser­var, expec­tante, o desen­ro­lar dos acontecimentos.»

      Sei que já chego um pouco atra­sado a este debate, mas não que­ria dei­xar de por aqui a minha colhe­rada agnós­tica. É óbvio que não aceito esta cari­ca­tura, por mui­tas razões que pode­ria expli­car melhor, mas adi­ante. Não sei como são “os agnós­ti­cos”, não faço ideia, só conheço bem um, que sou eu, não res­pondo pelos res­tan­tes.
      E nes­tas cir­cuns­tân­cias da pará­bola da extin­ção do sol, posso asse­gu­rar ao Hel­der que não me limi­tava a obser­var expec­tante o delí­rio dos meus vizi­nhos.
      De uma vez por todas, caro Hel­der, os agnós­ti­cos não são imbe­cis apá­ti­cos e indi­fe­ren­tes. São ape­nas gente que assume as suas dúvi­das em rela­ção às gran­des e real­mente rele­van­tes ques­tões da vida e da con­di­ção humana. Não em rela­ção a pro­fe­cias ou cren­di­ces que são tão dis­pa­ra­ta­das para sim como para mim. A razão tam­bém cá mora e um agnós­tico cons­ci­ente nunca desiste da pro­cura da ver­dade (já agora, o que é isso da “ver­dade”?). Essa é outra falá­cia. Um agnós­tico cons­ci­ente é por defi­ni­ção uma pes­soa inqui­eta. Não é indi­fe­rente às tais ques­tões impor­tan­tes da vida nem ao que o rodeia. E você con­funde agnos­ti­cismo com indi­fe­rença.
      É por isso, e pelo facto da his­tó­ria da ciên­cia e da filo­so­fia estar repleta de agnós­ti­cos, que con­si­dero no mínimo des­bo­cada a asser­ção de que os agnós­ti­cos são um entrave ao conhe­ci­mento… Só fal­tava mais essa…

    15. Hel­der Sanches
      28 Outubro 2007 - 5:53

      Caro JPC,

      Com­pre­endo per­fei­ta­mente que não se reveja nesta minha des­cri­ção de agnos­ti­cismo. Pelo que conheço de si atra­vés dos comen­tá­rios e do seu blog — que apro­veito para reco­men­dar a todos — tam­bém não o revejo nesta descrição.

      Nes­tas coi­sas das defi­ni­ções temos sem­pre que nos per­mi­tir alguma mar­gem, mesmo que para isso tenha­mos que assu­mir algu­mas injustiças.

      Por defi­ni­ção, o agnós­tico não acre­dita na pos­si­bi­li­dade de se vir a des­co­brir se deus existe ou não; outra defi­ni­ção é que para o agnós­tico a ques­tão de deus é irre­le­vante. Em rela­ção à segunda, ima­gino que não seja o seu exem­plo, caso con­trá­rio não teria um blog a deba­ter esta temá­tica. Quanto à pos­si­bi­li­dade de se virem a des­co­brir pro­vas da exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de deus, não tenho tanta cer­teza da sua posi­ção. Esclareça-me neste ponto, por favor.

    16. O que eu acho é que qual­quer que seja a res­posta para a exis­tên­cia do Uni­verso, será com­ple­ta­mente con­tra intui­tiva. Se for real­mente um Deus que criou o Uni­verso, é difi­cil de dige­rir, mas se é o Uni­verso que é eterno tam­bém
      é igual­mente estranho.

    17. Desde logo, o agnos­ti­cismo, tal como ateísmo, não é uma dou­trina. Não faço parte de nenhuma seita ou asso­ci­a­ção de agnós­ti­cos. Considero-me, acima de tudo um livre-pensador com mui­tas dúvi­das e no capí­tulo do agnos­ti­cismo revejo-me mais no cha­mado agnos­ti­cismo empí­rico. Há várias for­mas de viver uma con­di­ção exis­ten­cial agnós­tica, como há várias for­mas de viver o ateísmo ou a pró­pria reli­gi­o­si­dade. «Por defi­ni­ção, o agnós­ti­co…»: esta frase pura a sim­ples­mente não faz grande sen­tido para mim, já que não sou do tipo de agnós­tico «que não acre­dita na pos­si­bi­li­dade de se ir a des­co­brir se deus existe ou não». Para res­pon­der à sua ques­tão, sim, a ques­tão de deus não é irre­le­vante para mim e sim sou do tipo que admite «que a com­pre­en­são e conhe­ci­mento do Divino não é até ao momento pos­sí­vel mas que se apa­re­ce­rem novas evi­dên­cias e pro­vas sobre o assunto tal é uma pos­si­bi­li­da­de». É mais ou menos isto. Mas tam­bém con­si­dero essen­ci­ais outro tipo de ques­tões, desde logo a defi­ni­ção de Deus. De que fala­mos afi­nal quando fala­mos de Deus? Tam­bém isso não sei.

    18. Hel­der Sanches
      28 Outubro 2007 - 16:08

      Pois é, caro JPC, a expres­são “por defi­ni­ção” não faz muito sen­tido para si mas, ao con­se­guir rever-se mais no cha­mado agnos­ti­cismo empí­rico, está-se a rever no que este se define!

      Quanto à defi­ni­ção de deus… Deus, afi­nal, não é o que cada um qui­ser (se qui­ser)? A tal mul­ti­pli­ci­dade de que eu falava ini­ci­al­mente prova que a inte­li­gi­bi­li­dade de deus tem tan­tas pos­si­bi­li­da­des quan­tas as pes­soas que colo­quem a ques­tão sobre a defi­ni­ção de deus. Aliás, essa é a grande arma­di­lha em que a ciên­cia tem caído ao longo dos tem­pos; ten­tar encon­trar uma res­posta para algo em que nem os pró­prios cren­tes são coe­ren­tes na sua definição.

      Mas, ape­sar de tudo, o JPC acaba por dar a mesma cre­di­bi­li­dade à pos­si­bi­li­dade ou à impos­si­bi­li­dade de deus. Pelo que eu entendo, você dis­pensa o fol­clore reli­gi­oso mas não abdica da jus­ti­fi­ca­ção da crença. Para mim, a dis­tân­cia entre uma coisa e outra é pra­ti­ca­mente nula.

    19. Não Hel­der, não faz sen­tido sim­ples­mente por­que não há uma defi­ni­ção espe­cí­fica e estrita de agnos­ti­cismo, há várias e mesmo entre essas, as coi­sas não são assim tão line­a­res. Como lhe disse, não esta­mos aqui a falar de nenhuma dou­trina. E mesmo o meu agnos­ti­cismo empí­rico não é linear. O que eu disse foi que me revia mais. Não que me revia abso­lu­ta­mente. Em abso­luto não me revejo em coisa nenhuma. Por outro lado rela­ti­va­mente à ques­tão da defi­ni­ção de deus, não é pelo facto de have­rem mui­tas defi­ni­ções que deve­mos desis­tir das res­pos­tas e das per­gun­tas. Pro­va­vel­mente tem razão, darei a mesma cre­di­bi­li­dade à pos­si­bi­li­dade e à impos­si­bi­li­dade de deus. Em rela­ção às duas hipó­te­ses, não sei, é o máximo que con­sigo com hones­ti­dade. O mundo da crença e da reli­gi­o­si­dade sim­ples­mente me mere­cem res­peito. Por um lado por­que, ape­sar do meu cep­ti­cismo intrín­seco, não encaro todos os cren­tes como imbe­cis irra­ci­o­nais. Acho que deve­mos ouvi-los com a mesma aber­tura men­tal com que ouvi­mos um ateu, per­ce­ber o que os move e o que os faz viver a reli­gi­o­si­dade dessa forma tão intensa. A expe­ri­ên­cia espi­ri­tual é um mis­té­rio que me fas­cina, tão só. Não tenho cren­ças, mas é um fenó­meno his­tó­rico e humano que tenho pro­cu­rado estu­dar e apro­fun­dar, no sen­tido, por exem­plo, de per­ce­ber o que jus­ti­fica a crença. Do que eu não abdico é da dúvida.

    20. Hel­der Sanches
      28 Outubro 2007 - 20:10

      O mundo da crença e da reli­gi­o­si­dade sim­ples­mente me mere­cem respeito.”

      Aqui existe uma dife­rença fun­da­men­tal entre nós; para mim, quem merece res­peito são os cren­tes e não as cren­ças. Mere­cem res­peito por­que entendo que cada um tem o direito de acre­di­tar naquilo que muito bem enten­der. Quanto ao res­peito por aquilo em que têm direito de acre­di­tar não sou tão condescendente.

      A expe­ri­ên­cia espi­ri­tual é um mis­té­rio que me fas­cina, tão só.”

      Pois, a mim tam­bém. Agora, não a con­fundo com expe­ri­ên­cia raci­o­nal. Seria a mesma coisa que pro­cu­rar a fór­mula mate­má­tica para o Amor. Nem dou à espi­ri­tu­a­li­dade o cré­dito que dou à raci­o­na­li­dade. Pro­cu­rar res­pos­tas na espi­ri­tu­a­li­dade para ques­tões con­cre­tas não tem sido bom exem­plo ao longo da his­tó­ria da humanidade.

      Não tenho cren­ças, mas é um fenó­meno his­tó­rico e humano que tenho pro­cu­rado estu­dar e apro­fun­dar, no sen­tido, por exem­plo, de per­ce­ber o que jus­ti­fica a crença. Do que eu não abdico é da dúvida.”

      É uma exce­lente ques­tão: o que jus­ti­fica a crença? As pos­si­bi­li­da­des levan­ta­das têm sido mui­tas: gené­tica, endo­cul­tu­ra­ção, fenó­meno social, pro­tec­ção pater­nal, espí­rito de grupo, fé…
      Como fenó­meno da huma­ni­dade, tam­bém acho deve­ras fas­ci­nante; pro­curo é expli­ca­ções recor­rendo aos mes­mos méto­dos que recorro para encon­trar expli­ca­ções nou­tras maté­rias.
      Quanto ao facto de não abdi­car da dúvida, acho que só faz bem até certo ponto. Pelo menos, supo­nho que será esse o seu pro­ce­di­mento em todos os outros aspec­tos da sua vida. Repare, nin­guém — cren­tes ou ateus — lhe pode pro­var em abso­luto a exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de deus. De facto, nin­guém lhe pode pro­var em abso­luto nenhuma Ver­dade, por mais tri­vial ou fun­da­men­tal que ela seja.
      A ques­tão é que todos nós temos que viver com os pres­su­pos­tos que melhor reflec­tem a rea­li­dade. Faze­mos isso cons­tan­te­mente no nosso dia a dia, em todas as nos­sas acções. Por­que não, então, fazê-lo tam­bém em rela­ção à ques­tão de deus? É que para mim a pro­ba­bi­li­dade da exis­tên­cia de deus é tão pequena que ape­nas me resta a alter­na­tiva de ignorá-la. É como quando saio de casa: não deixo de o fazer por­que posso levar com um mete­o­rito na cabeça.

    21. Pois, em rela­ção ao res­peito, tam­bém con­cordo con­sigo, não acho que haja assim uma dife­rença tão grande entre nós nesse aspecto. Referia-me mais a um tipo de res­peito cien­tí­fico, ou inte­lec­tual, vamos lá, rela­ti­va­mente a um fenó­meno (a reli­gi­o­si­dade) que tem estado sem­pre pre­sente na his­tó­ria da huma­ni­dade e é trans­ver­sal a todas as cul­tu­ras.
      Outra coisa em que con­cor­da­mos é na sepa­ra­ção entre o plano raci­o­nal e o espi­ri­tual. Tam­bém eu não as con­fundo, tam­bém acho que são dois pla­nos muito dis­tin­tos da expe­ri­ên­cia humana e tam­bém dou mais cré­dito à raci­o­na­li­dade e à evi­dên­cia con­creta.
      Tam­bém eu pre­firo pro­cu­rar “expli­ca­ções recor­rendo aos mes­mos méto­dos que recorro para encon­trar expli­ca­ções nou­tras maté­ri­as”.
      Em rela­ção à dúvida, há uns tem­pos expliquei-lhe algu­res neste blog o que pen­sava acerca disso e aca­bei por lhe dar pre­ci­sa­mente o exem­plo do mete­o­rito na cabeça. Sendo muito certo que nin­guém me «pode pro­var em abso­luto a exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de deus» ou de seja o que for, tam­bém não é menos certo que essa dúvida exis­ten­cial não con­duz todos os aspec­tos da minha vida, se assim fosse, real­mente não sai­ria de casa. Ou melhor, dúvida há sem­pre, em rela­ção a tudo, sem­pre cép­tico, mas para não imo­bi­li­zar tenho de fazer esco­lhas no quo­ti­di­ano, esco­lhas no sen­tido das mai­o­res ou meno­res pro­ba­bi­li­da­des. Por­que tam­bém é certo que «todos nós temos que viver com os pres­su­pos­tos que melhor reflec­tem a rea­li­da­de». Claro. Sim­ples­mente, ao con­trá­rio do Hel­der, não con­sigo igno­rar a ques­tão de deus (aliás, o Hel­der se igno­rasse real­mente essa ques­tão não escre­ve­ria tanto sobre ela). Não ando obce­cado pelo tema, mas quando me reclamo agnós­tico, faço-o ape­nas rela­ti­va­mente às gran­des ques­tões meta­fí­si­cas, ques­tões como a de deus (seja lá o que isso for) ou a da morte, por exem­plo. No resto pre­firo reclamar-me enquanto cép­tico ou livre-pensador ou outro qual­quer rótulo simi­lar. Nesse aspecto sere­mos todos agnós­ti­cos de certa forma, por­que sim­ples­mente (ainda) não sabe­mos. Como já lhe referi tam­bém aqui há uns tem­pos, o meu agnos­ti­cismo não é mili­tante, não ando em cam­pa­nha em prol de qual­quer movi­mento agnós­tico. E de certa forma con­cordo com Ber­trand Rus­sel no excerto que o Hél­der repro­duz mais à frente no seu blog. Em ter­mos rela­ti­vos tam­bém serei mais ateu do que crente. Natu­ral­mente. Até por­que perante a mul­ti­dão de deu­ses que a huma­ni­dade já pariu, acho extre­ma­mente impro­vá­vel que algum deles seja real, por­que nunca se viu qual­quer evi­dên­cia de nenhum. Quando me refiro a deus, refiro-me a um sím­bolo, vamos lá, a um even­tual poder uni­fi­ca­dor e cri­a­dor, a uma metá­fora da cri­a­ção, do even­tual sen­tido da vida, da natu­reza do cos­mos e do átomo, etc., de tudo o que a ciên­cia ainda não con­se­guiu escla­re­cer, de tudo o que per­ma­nece um mis­té­rio ou até, por­que não?, das ale­ga­das expe­ri­ên­cias espi­ri­tu­ais dos outros.

    22. eu sou agnos­tica …e digo que é a melhor esco­lha …pois como pode afir­mar que deus ou outros seres para­nor­mais exis­tem sem os ter visto? e como pode afir­mar que nao exis­tem? sem os ter visto?

      agnos­ti­cismo é sim­ples­mente nao negar ou afir­mar aquilo do que não temos provas

      email se qui­se­rem falar:
      lady_xxr@hotmail.com

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