Nos comentários a este artigo, o Xiquinho defende a teoria de que é impossível alguém ser simultaneamente inteligente e religioso. Parece-me que é uma posição demasiado arriscada. Seria como dizer que é impossível alguém ser inteligente e gostar de futebol. Ou alguém ser inteligente e fumar.

Se é verdade que diversos estudos apontam para uma inversão proporcional entre o grau académico e a religiosidade (as percentagens de membros religiosos da National Academy of Sciences dos EUA ou da Royal Society da Common Wealth demonstram, claramente, esta evidência), esta análise parece-me, mesmo assim, demasiado simplista.

Em primeiro lugar, não é liquido que um maior grau académico corresponda necessariamente a uma maior inteligência. Pode ser reflexo de um considerável número de factores onde se incluirá também, certamente, a inteligência, mas esta estará muito longe de ser o único factor determinante para a obtenção de um grau académico superior. Outros factores a ter em conta serão, por exemplo, origem social, grau de literacia, disciplina, capacidade de organização e método, pressão social, disponibilidade e (porque não?) vontade.

Em segundo lugar, por mais incompreensível que possa parecer, a necessidade de um conforto espiritual pode ser uma necessidade não racional para muita gente e manifestar-se num plano estranho, extra-lógica, que será sempre absurdo para quem não partilhar essa característica. Ainda recentemente assisti na Gulbenkian a uma série de encontros em que se abordou a questão das vantagens evolutivas da religião.

Por último, existem muitas variedades de religiosos. Metê-los a todos no mesmo saco está para lá das minhas intenções. O tipo de fé que move um criacionista não será, seguramente, o mesmo tipo de fé que move um panteísta.

Em suma, embora qualquer pessoa que acredite numa qualquer entidade divina por pura convicção ou fé esteja, a meu ver, com alguns problemas de interpretação do mundo que nos rodeia, dou – a alguns – crédito para os continuar a considerar inteligentes. Por mais absurda que me possa parecer essa necessidade de procurar respostas no sobrenatural.