Sobre a Moral

Um dos argumentos mais utilizados pelos crentes na defesa da utilidade religiosa é o argumento da necessidade do moralismo religioso como sustento de uma sociedade moral. Segundo este princípio, o moralismo religioso é indispensável ao funcionamento da sociedade, através da divulgação de valores de justiça e de regras de boa conduta.

Contudo, este princípio não tem qualquer fundamento. Os sistemas religiosos são sistemas fechados, relutantes à influência externa e só assimilam novos valores exteriores quando lhes é conveniente, através de um simples processo de sobrevivência ou, como quase sempre acontece, tardiamente, quando já toda a sociedade assimilou as alterações em causa.

Por serem sistemas fechados e, consequentemente, as normas morais demorarem muito tempo a sofrerem adaptações, as religiões permanecem praticamente imutáveis aos olhos de qualquer geração e as alterações só se conseguem vislumbrar, muitas vezes, numa perspectiva histórica.

Assim, como se explicaria, baseando-nos no princípio exposto no primeiro parágrafo, que os valores morais de uma religião sofram dessa imutabilidade enquanto as sociedades, com o seu dinamismo independente da religião, alterem consideravelmente os seus valores em processos que muitas vezes duram escassos anos?

Se o princípio da moral religiosa fosse válido viveríamos ainda sob a moralidade medieval, uma vez que os princípios morais religiosos dessa era ainda vigoram na sua maior parte; nos casos em que isso não acontece, a religião foi sempre a reboque das alterações impostas pela dinâmica da sociedade.

Não existem razões de facto para sustentar a superioridade de qualquer moral religiosa. A moral é fruto desse enorme empreendimento que é – e continuará a ser – a adaptação do ser humano ao mundo que o rodeia, procurando equilíbrios de justiça na busca da felicidade individual e colectiva.

(Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

Partilhar este artigo:
  • Print
  • email
  • RSS
  • Facebook
  • Twitter
  • Digg
  • del.icio.us
  • LinkedIn
  • Google Bookmarks
  • Live
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • MySpace
  • Netvibes
  • Tumblr
  • Yahoo! Bookmarks
Esta entrada foi publicada em Religião, Sociedade. ligação permanente.

11 Respostas a Sobre a Moral

  1. Eva diz:

    isso é!! o mesminho ís dizer eu…

  2. Nelson luiz pedra diz:

    Infelizmente as religiões estão aí para infernizar a vida de todos.
    Baniremos as mesmas quando dizimarmos a ignorância.

  3. Um artigo do jornal Times diz que , “de acordo com o estudo, a crença e adoração a um Deus não só são desnecessários para a saúde da sociedade, como pode na realidade contribuir para problemas sociais” :
    http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/article571206.ece

  4. Rapaz, adorei o teu site!!! Sou ateu também e adoro filosofia. Achei teu site super inteligente e fácil de entender. Qualquer um pode compreender o que vc deseja transmitir. Tomei a liberdade de “clonar” esse texto sobre moral e publicar no meu blog, com o devido crédito. Vou colocar o teu link entre meus favoritos. Tomara que muita gente acesse.

    Um abraço forte,
    Sergio Viula
    Rio de Janeiro – Brasil

  5. Aí vai um texto que eu corri o risco de escrever. Sim, porque escrever sempre é um riso e publicar é um ato quase suicida. Deixar-se escrutinar por olhos anônimos não é a coisa mais prudente a fazer, mas é assim que o conhecimento avança. Então, aí vai:

    Lendo Nietzsche em seu escrito denominado “Sobre a verdade e a mentira num sentido ‘extra moral’”, senti-me impelido a colocar alguns dos meus próprios pensamentos no papel. Depois, concluí que seria interessante compartilhá-los aqui, ainda que pudessem atingir os sentimentos dos mais religiosos. Ainda que assim seja, vale a pena abrir a mente para pensar diferente, mesmo que depois continuemos pensando do mesmo jeito que pensávamos antes. Portanto, aí vai…

    A pergunta de Pilatos que ficou sem resposta da parte de Jesus encontra em Nietzsche uma boa réplica. “Portanto, o que é verdade? Uma multidão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim: uma soma de relações humanas poética e retoricamete potencializadas, transpostas e ornadas e que, depois de longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões sobre as quais se esqueceu tratar-se de metáforas que se tornaram usadas e sem força sensível, moedas que perderam sua impressão e agora são consideradas apenas metal, não mais moedas.”

    É interessante como o ser humano é um bicho capaz de projeções tão complexas que chegam a convencer até a si mesmo de sua veracidade.

    No princípio era o homem, e o homem estava com medo, e do medo vieram os deuses. O medo estava no princípio com o homem. Todos os mitos foram feitos por ele, e, sem ele, nenhum mito se fez. A superstição estava nele, e a superstição obscurecia o entendimento dos homens, mas a razão prevaleceu contra ela.

    Houve muitos deuses criados pelos homens à sua própria imagem e semelhança, mas o homem queria alguém maior do que ele, não só em força, beleza, inteligência, mas em “pureza”. O homem purificou tanto os deuses de sua semelhança consigo que acabou projetando uma divindade absolutamente isolada de tudo o que fosse natural ou terreno. Depois almejou ser igual ao deus que ele mesmo projetara, e foi se desnaturalizando.

    Assim foi que muias religiões começaram a se opor a qualquer traço de “mundanidade” na vida humana. O cristianismo considera virtuosos o jejum (não comer e não beber), a vigília (não dormir), a reclusão (não se divertir ou socializar), a castidade (não transar fora do matrimônio) e o celibato (jamais transar), além de uma série de outras negações do que seja mundano ou corporal.

    Ao projetar um deus que é espírito transcendente e que não tolera o menor vestígio de desejos e aspirações humanos à naturalidade (qualidade do que é natural), o ser humano criou um monstro e esqueceu que esse monstro não passa de mera projeção de sua conturbada “psyché”. Temendo o monstro que ele mesmo criou, o bicho homem vive tentando amansá-lo com uma série de regras e sacrifícios, e esquece que o grande “barato” da existência humana é a própria vida neste mundo que o cerca e no contexto das possibilidades que o próprio universo lhe oferece. A superstição só serve para impedir a felicidade ou travar o desenvolvimento saudável de nossas mentes e corpos.

    O cristianismo não é melhor do que a mitologia dos povos antigos. Alguns judeus, sob influência fortíssima dos gregos e romanos, criaram o deus cristão, com seus trasmundos (mundos além deste). Em nada diferindo das crenças antigas de vários povos. Nietzsche chega a dizer que o cristianismo é o platonismo para o povo.

    Enquanto os crentes de todos os matizes pensam possuir uma revelação especial, ignoram que o cristianismo só se tornou uma religião mundial usando o poder temporal em suas mais sórdidas versões. Os protestantes, então, são os mais iludidos , pois pensam que foi graças ao poder da bíblia e do espírito santo que muitos povos foram convertidos ontem e hoje. No entanto, nenhuma missão foi executada sem a espada do colonizador (invasor, para ser mais exato) que obrigava a conversão à força ou a estimulava através de benefícios especiais. Com o tempo, o próprio povo dominado passava a crer no que lhe impunha o dominador, e assimilava toda aquela superstição como verdade. Muita violência e corrupção de toda espécie foram necessárias para que o mundo chegasse a abrigar mais de um bilhão de cristãos, em nada melhores que quaisquer outros religiosos. Pensam-se separados por deus, quando na verdade não passam de seres angustiados que, movidos pelo medo, esforçam-se em amar a deus; amor no qual muitos deles realmente acreditam e jamais admitiriam traço de falsidade. Mas o que mais motiva a crença do cristão e seu esforço ininterrupto para lutar contra si mesmo, considerando-se seu maior inimigo, é o interesse próprio e o medo. Ambiciona o céu e se apavora ante a menor possibilidade de ir para inferno. Em palavras simples e diretas: quer simplesmente salvar a própria pele e ainda ser condecorado por isso… Não foi o que Paulo mesmo demonstrou ao dizer: “Não sabeis que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas só um leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina; aqueles para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível… Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” (I Coríntios 9: 24, 25,27).

    Preciso dizer mais? O cara despreza, abomina a própria corporalidade, teme o vexame de fazer qualquer coisa diferente do que prega e se consola diante de todo esse sofrimento com uma esperança trasmundana, ou seja, de um mundo além desse. O pior é que ele é o modelo que a maioria dos cristãos quer seguir. Espelham-se muito mais em Paulo do que em Jesus. O cristianismo deveria chamar-se “paulinismo”. Não é à toa que a cristandade veio a ser tão colérica, ressentida, esquizofrênica, auto-flagelada em função de dogmas desumanos e antinaturais. Afinal, Paulo – o apóstolo que mais sobressaiu – era o exemplo perfeito de todos esses transtornos.

    É uma pena que a maioria das pessoas não se dê o trabalho de examinar suas próprias crenças à luz da razão. E apesar do grau de instrução que algumas pessoas atingem, é comum ver pouca atividade racional por parte desses mesmos indivíduos por causa do medo que silenciosamente nutrem de perderem a fé. Mas não está aí mesmo a maior prova de que a fé é mero obscurantismo?

  6. Helder Sanches diz:

    Oi Sérgio,

    Obrigado pela visita e pelo elogio. Gostei da reflexão sobre a ausência de “mundanidade” nas religiões. Merecerá a consideração devida num futuro artigo.

    Parabéns também pelo seu blog.

    Um abraço.

  7. O mensageiro diz:

    As religiões não tem moral nem dignidade. Portanto excluídas de bons princípios. A sociedade de um modo geral, corrompida e sem um mínimo de caráter! Só resta a opção para esta humanidade destituída de qualquer princípio uma avassaladora destruição. nada mais!

  8. Pingback: Educação Ateía | Portal Ateu

  9. Abraão diz:

    Olá Sérgio, foi pena vc não ter deixado o link para a gente ler o seu Blog.

  10. JB SINDISAUDE diz:

    SÓ LAMENTO.
    PREFEREM ACREDITAR EM PENSAMENTOS E ESCRITURAS ATUAIS INCOMPLATAS E SEM RESPOSTAS COMPLETAS, EM VEZ DO LIVRO SAGRADO; NÃO IMPORTA SE É SAGRADO OU NÃO; MAS RESPONDE A MAIS DIFÍCIL DE TODAS AS PERGUNTAS
    PORQUE EXISTIMOS?

  11. JB SINDISAUDE diz:

    ELE AMA VOCÊS E EXISTE
    EU O VEJO SEMPRE.

Deixar uma Resposta

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>