Aborto (III)

Esta é a ter­ceira parte de uma série de tex­tos dedi­ca­dos ao aborto . Ver: Aborto (I), Aborto (II)

Gosto do Que Treta!. Ludwig Krip­pahl, o seu autor, é, tam­bém, um ateu con­victo e, curi­o­sa­mente, tam­bém defende o “ƒO” na res­posta ao refe­rendo que se avi­zi­nha sobre a “Inter­rup­ção” Volun­tá­ria da Gra­vi­dez. Coloco “Inter­rup­ção” entre aspas por­que me parece que come­çam logo aqui, na esco­lha do termo “Inter­rup­ção”, os pro­ble­mas da ques­tão colo­cada em refe­rendo. Segundo o dici­o­ná­rio Pri­be­ram online, “Inter­rup­ção” significa:

do Lat. inter­rup­ti­one

s. f.,

sus­pen­são;

acto ou efeito de inter­rom­per;

inter­mis­são;

reti­cên­cia.

Ora, isto sig­ni­fica, no meu enten­der, que a gra­vi­dez pode­ria ser reto­mada o que, obvi­a­mente, não é o caso!
Vol­tando ao Que Treta!, o Ludwig con­sul­tou os dados da O.M.S. (Orga­ni­za­ção Mun­dial de Saúde) — ver post –e che­gou às seguin­tes con­clu­sões estatísticas:

Hoje tive tempo para con­sul­tar os dados da O.M.S. (aqui). Em 2003 mor­re­ram em Por­tu­gal 52992 mulhe­res. Des­sas, por exem­plo, 1556 de can­cro da mama; 418 de aci­den­tes auto­mó­veis; 411 de que­das; 267 de sui­cí­dio; 38 por homi­cí­dio e outros cri­mes vio­len­tos. O número total de mulhe­res que mor­re­ram em Por­tu­gal em 2003 por com­pli­ca­ções rela­ci­o­na­das com gra­vi­dez, parto, ou pós-parto foi oito.

Repa­rem que oito é o numero total de todas as mor­tes rela­ci­o­na­das com gra­vi­dez e não exclu­si­va­mente rela­ci­o­na­das com o acto de abor­tar. É óbvio que enquanto este número for maior que zero ainda há muito por fazer. Uma morte são mor­tes a mais sob qual­quer prisma. Mas, então, que dizer das 418 mulhe­res que são viti­mas de aci­den­tes de auto­mó­veis, das 267 que se sui­ci­dam e das 38 viti­mas de homi­cí­dio? Não serão estas rea­li­da­des bem mais urgen­tes de abordar?

Ludwig vai mais longe e ana­lisa, ainda, os dados da orga­ni­za­ção Women on Waves e de uma reso­lu­ção do P.C.P. sobre aborto medicalizado.

O que me parece impor­tante ler des­tas esta­tis­ti­cas é que, por muito grave que seja, o aborto está longe de ser uma das prin­ci­pais cau­sas de morte em Por­tu­gal, por muito que os pro­pa­gan­dis­tas do “SIM” se esforcem.

Quero, no entanto, dei­xar bem claro que acre­dito con­vic­ta­mente que nin­guém é a favor do aborto, nem mesmo os defen­so­res do “SIM”. As mar­cas que fica­rão gra­va­das na mai­o­ria das mulhe­res pelo sim­ples facto de terem que tomar uma deci­são des­sas, mesmo antes do acto, serão, sem dúvida, enor­mes. No entanto, não me parece que dar ao aborto um esta­tuto con­tra­cep­tivo seja a solu­ção. Afi­nal, inde­pen­den­te­mente do enqua­dra­mento jurí­dico em que se pro­ces­sar o aborto as mar­cas fica­rão sem­pre lá, quer seja legal ou não.

Par­ti­lhar este artigo:
  • Print
  • email
  • RSS
  • Facebook
  • Twitter
  • Digg
  • LinkedIn
  • Google Bookmarks
  • StumbleUpon
  • Tumblr

Outros arti­gos idênticos:

  1. Aborto (I)
  2. O Desa­fio Small Brother
  3. Aborto — Pro­pa­ganda bilateral
  4. As Ques­tões do Luís Pestana
  5. Aborto (II)

24. Novembro 2006 by Helder Sanches
Categories: Portugal, Sociedade | 5 comments

Comments (5)

  1. Para­béns pelo blog.

    Con­tudo há alguns pon­tos que cum­pre esclarecer…

    Achas mesmo que as mor­tes em clí­ni­cas clan­des­ti­nas entram para essa estatística?!?!?!

    Quanto ao teu não sobre o aborto, tens o meu res­peito… mas não a minha concordância.

    O direito à saúde deve ser igual para todos, ou seja, deve ser aces­sí­vel a todos… Proi­bir o aborto é dizer aos que podem -“Vão abor­tar ao estran­geiro” e dizer aos que não podem arris­quem uma clí­nica privada…

    A ques­tão mais late­ral e menos per­ti­nente mas que ainda assim merece um comen­tá­rio é sobre a lín­gua portuguesa.

    Inter­rup­ção sig­ni­fica vol­tar ao zero e não sus­pen­der…
    Pelo que o termo é cor­recto. Esse dici­o­ná­rio Pri­be­ram online…

    Sus­pen­der é (des­culpa o angli­cismo fazer “pause” sem pre­juízo do pos­te­rior novo “pause” para con­ti­nuar do ponto onde, pre­ci­sa­mente, se sus­pen­deu. Sus­pen­der vem logi­ca­mente de sus­pen­são que tam­bém sig­ni­fica algo que fica sus­penso, “no ar”, até vol­tar a sua mar­cha ou desenvolvimento-se (há a ideia da fic­ção cien­tí­fica de sus­pen­são de vida no sen­tido de que a vida fica sus­pensa até que os cien­tis­tas des­cu­bram uma cura que possa aju­dar essa vida, tam­bém para pou­par a vida das pes­soas durante uma grande via­jem no espaço.

    Inter­rom­per é vol­tar ao zero. Não esta­mos a falar do colo­quial inter­rom­per uma con­versa (que, ainda assim, em mui­tos casos, sig­ni­fica vol­tar a zero na con­versa… pre­ci­sa­mente por­que foi interrompida)

    PS: A esma­ga­dora mai­o­ria daque­las pala­vras que con­si­de­ra­mos serem sinó­ni­mos não o são na rea­li­dade, mui­tas daas vezes são pala­vras dife­ren­tes com sigi­nif­ca­dos dife­ren­tes embora muito seme­lhan­tes.
    Sus­pen­são e Inter­rup­ção são defi­ni­ti­va­mente diferentes.

  2. Ape­sar de o termo inter­rup­ção sig­ni­fi­car, ver­da­dei­ra­mente, uma “sus­pen­são” e não uma ces­sa­ção (asso­ci­ada, claro está a extin­ção), como o carís­simo José Sócra­tes aqui afirma, tenho que con­cor­dar com grande parte das afir­ma­ções por ele pro­fe­ri­das. Mas parece-me que o cerne da ques­tão não se encon­tra na ter­mi­no­lo­gia ou inter­pre­ta­ção do con­ceito da pala­vra.
    De facto, amigo Hel­der, os dados esta­tís­ti­cos ofi­ci­ais (seja da O.M.S, ou de outra orga­ni­za­ção qual­quer) são isso mesmo: os dados ofi­ci­ais. O que sig­ni­fica, desde já, que tudo o que esti­ver omisso e não for decla­rado — repare-se que os abor­tos clan­des­ti­nos traduzem-se neste facto — não entra na con­ta­gem esta­tís­tica rea­li­zada. O mesmo será dizer que grande parte, senão a mai­o­ria, dos abor­tos que são rea­li­za­dos em Por­tu­gal são camu­fla­dos. Porquê? Por­que o aborto é crime, e as mulhe­res não que­rem ser pena­li­za­das pela prá­tica de fac­tos cri­mi­no­sos que, ape­sar de tudo, enten­dem ser a melhor solu­ção.
    Isto sig­ni­fica que existe uma ten­dên­cia para um movi­mento de des­cri­mi­na­li­za­ção e que, em ter­mos axi­o­ló­gi­cos, a soci­e­dade “sente” que o bem jurí­dico “vida intra-uterina” pesa menos na balança valo­ra­tiva e em ter­mos de cen­sura social do que outros bens jurí­di­cos — tais como a pos­si­bi­li­dade (seja qual for a ori­gem da gravidez)de se viver uma vida sau­dá­vel em ter­mos amplos, isto é, abran­gendo tanto a saúde e bem-estar físi­cos como psi­co­ló­gi­cos.
    Por outro lado, inde­pen­den­te­mente de gos­ta­res ou não do que vou afir­mar, acho um pouco infe­liz a forma como come­çaste o post em aná­lise. Passo citar “Ludwig Krip­pahl, o seu autor, é, tam­bém, um ateu con­victo e, curi­o­sa­mente, tam­bém defende o “ƒO” na res­posta ao refe­rendo que se avi­zi­nha sobre a “Inter­rup­ção” Volun­tá­ria da Gra­vi­dez”. Passo a expli­car: que raio é que tem a ver o facto de se ser (curi­o­sa­mente) ateu ou defen­sor de qual­quer tipo de fé com uma deci­são que, acima de par­ti­da­ris­mos, reli­gões, lob­bies ou cren­ças, terá que ser expres­sada de acordo com a cons­ci­ên­cia e con­vic­ção de obri­ga­to­ri­e­dade de cada um?
    Ok, até pode­re­mos even­tu­al­mente dizer que a reli­gião “molda” a valo­ra­ção das pes­soas, mas não de todas, nem sequer da mai­o­ria. Conheço inú­me­ros cató­li­cos que estão a favor da “extin­ção” volun­tá­ria da gra­vi­dez e que são cató­li­cos con­vic­tos. Tam­bém já sei que terás a cri­ti­car o facto de se ser um cató­lico con­victo e não defen­der as ori­en­ta­ções que a sua “Igreja” pro­põe. Mas é a rea­li­dade! As pes­soas podem ser cató­li­cas e não con­cor­dar com o todo da dou­trina cristã.
    Tal como o inverso tam­bém poderá ser ver­da­deiro.
    A lógica, para quem a pos­sui e lhe dá valor, existe inde­pen­den­te­mente da reli­gião assumida.

    Grande para ti e para o pes­soal do Palpita-me!

    PS: não sou cató­lico. Nem hindu.
    PS 2: não con­cordo com o cha­mado aborto contraceptivo.

  3. Obri­gado pelos vos­sos comentários.

    Em rela­ção ao valor das esta­tís­ti­cas, sali­ento que foram dados como exem­plo, para além da OMS, duas refe­rên­cias que espe­lham a rea­li­dade não ofi­cial e, mesmo assim, esta­mos longe de poder con­si­de­rar as mor­tes em con­sequên­cia do aborto como uma das prin­ci­pais cau­sas de morte femi­nina em Por­tu­gal. O post no Que Treta! explica isso de forma clara.

    Quanto ao direito à saúde, con­cordo que ele deve ser igual para todos; não con­cordo, con­tudo, que se con­si­de­rem todas as razões para abor­tar como ques­tões de saúde de facto.

    Em rela­ção à ques­tão da inter­pre­ta­ção lin­guís­tica da expres­são esco­lhida — Inter­rup­ção — fui con­sul­tar outros dici­o­ná­rios e rea­firmo o que escrevi no post, tendo em con­si­de­ra­ção os resul­ta­dos de diver­sos dici­o­ná­rios online.

    Manel, em rela­ção ao ini­cio do meu post, penso que não deves ter lido os ante­ri­o­res em rela­ção ao aborto. Neles, faço refe­rên­cia ao facto de achar que alguns defen­so­res do “SIM” não con­tri­buem em nada para a sua causa ten­tando esta­be­le­cer um para­le­lismo entre a Igreja e o “ƒO”, como se ape­nas a reli­gião ser­visse de fac­tor de deci­são no refe­rendo. Isto, exac­ta­mente pelas razões que advo­gas, por isso, esta­mos com­ple­ta­mente de acordo e só o facto de teres lido o iní­cio do post fora do con­texto te pode ter con­du­zido a pen­sar o contrário.

    Já em rela­ção ao teu pará­grafo sobre a lógica sou obri­gado a lan­çar uma pro­vo­ca­ção. A reli­gião é ausente de lógica. A reli­gião é, aliás, a única área onde a falta de lógica não é cen­su­rá­vel e, muito pelo con­trá­rio, é até pro­te­gida. É exac­ta­mente aí que reside o perigo.

    Manel, no teu post scrip­tum dizes que não és favo­rá­vel ao aborto con­tra­cep­tivo. Nota que a forma da per­gunta a refe­rendo per­mite que, caso ganhe o “SIM”, a nova lei o venha a per­mi­tir.
    De qual­quer forma, muito obri­gado a ambos pelos vos­sos coe­ren­tes comen­tá­rios. Vou colo­car um link no topo deste post para os dois posts ante­ri­o­res refe­ren­tes ao aborto para evi­tar mais pos­sí­veis lei­tu­ras desenquadradas.

    Um grande abraço.

  4. ola sou emfer­meira do hos­pi­tal das cli­ni­cas de são paulo.
    tra­ba­lho no esto­que do hospital,mexendo com essas medicações.

    MIFEPRISTONE MISOPROSTOL E RU 486

    miso­pros­tol 200 mg é a for­mula do medi­ca­mento cyto­tec, usado em quase todo o mundo para fins abor­ti­vos e ajuda de parto nor­mal, tam­bém usado no tra­ta­mento de ulceras.

    Para 1 a 8 sema­nas de ges­ta­ção ira pre­ci­sar de 3 com­pri­mi­dos miso­pros­tol 200 mg (cyto­tec) e/ou mife­pris­tone, sera minis­trado 2 via oral e 3 via ute­rina (o mais pro­fundo pos­si­vel) e depois de 6 a 8 horas ira sen­tir o efeito (dores mens­tru­ais, coli­cas dores abdo­mi­nais, con­tra­ções ute­ri­nas etc), logo após isso acon­te­cer voce ira ter o ini­cio da mens­tru­a­ção e junto ao san­gue ira des­cer o saco gestacional.

    CUSTO DO MIFEPRISTONE + MISOPROSTOL
    E DE 600,00

    Após 16 sema­nas de ges­ta­ção reco­mendo a inje­ção Abor­tion ru 486. ESTA INJEÇÃO ELIMINA O FETO ATRAVÉZ DE TAQUICARDIA E FALTA DE OXIGENIO, CAUSANDO A FALENCIA TOTAL DO FETO.

    Inje­ta­vel Abor­tion RU-486 5 ml R$ 900,00
    se dúvi­das me add no msn?
    enfermeira-carla@hotmail.com

  5. o carala…vc ficou louca de pas­sar essas infor­ma­ções aqui???????????? não tem res­peito pela vida! vá se tra­tar mulher

Leave a Reply

Required fields are marked *

*