Vida

Querem-te justa, os incau­tos
Querem-te boa, os sonha­do­res
Mas quan­tos te que­rem ape­nas,
Sem a pre­sun­ção arro­gante de que te terão
Para lá do agora…

Enquanto con­tas em sequên­cias fini­tas o Sol e a Lua,
Trans­for­mas a carne,
Redu­zindo o seu veludo a mero fedor
E trans­for­mas o sonho,
Ele­vando aos céus a obra e o autor

Sejas san­gue, espasmo ou poema
Sê diversa e irre­ve­rente
E impõe-te pela força e cer­teza
Da óbvia pro­ba­bi­li­dade
Que ganha­rás sem­pre o mundo
Mesmo per­dendo o Homem
Ou que ele te perca num por­vir desinspirado

2013/12/04

Tempo

Quero tempo, apenas…

Tempo em ti, para ti
Sem pon­tei­ros nem pra­zos,
Ape­nas o neces­sá­rio, ape­nas o eterno

Tempo é a liber­dade maior.
Per­mite ao dis­po­ní­vel ser arte,
Agi­ganta o pen­sa­mento,
Trans­forma o poema em uni­verso
E ama­du­rece o fruto do ven­tre
Enquanto os espa­ços se redu­zem ao nada

Tempo é a tei­mo­sia rei­nante,
Insen­sí­vel a fados e rezas,
Culpa dos físi­cos incom­pe­ten­tes
Que não lhe matam a line­a­ri­dade,
Privando-nos do que nos per­tence
Ou outrora assim parecera

Sem tempo, tudo é ilu­são.
Só o agora por bre­ves momen­tos se com­pro­mete,
Enquanto o antes se des­va­nece no pos­sí­vel
E o depois se insi­nua no provável

Tempo inqui­eto e regres­sivo,
É tudo o que quero

2013/12/03

A Morte Recíproca

Mer­gu­lhaste o meu mundo num uni­verso de lacuna
Enchar­caste as memó­rias num sal de gotas por cho­rar
Per­deste o que me deste uma vez e para sem­pre
Qual de nós se ocul­tou entre o cais e tanto mar?

Cum­priste o teu tempo como o cheiro a mare­sia
Nave­gaste nas areias de um futuro por lem­brar
Arran­caste o saber do teu peito con­tra o mundo
Qual de nós se afun­dou entre o sol e o luar?

O mur­mú­rio do vento traz a cor do desa­lento
O lamento da luz já não mos­tra ten­ta­ção
E os olhos fecham-se num beco de tormento

Nunca o mar se gelou como o san­gue que me corre
Nes­tas veias, de medo detém-se meu cora­ção
Qual de nós, então, será que no outro morre?

2013/12/02

Morram de espanto

Mor­ram de espanto, incré­du­los,
Sufo­quem nos rios da vossa ilu­são,
Bei­jem as lágri­mas de vos­sas pai­xões
E sus­pi­rem de negro, tão negro
Como o tom da vossa mar­cha de ago­nia,
Enquanto as cin­zas irre­me­di­a­vel­mente vos con­quis­tam
E a morte tudo vos suga
Num abraço tão eterno como previsível.

Enquanto o tempo me sobra
E um sor­riso não me basta,
Quero ape­nas vibrar
Nas har­mó­ni­cas da minha certeza.

Ah, que ale­gria…
Não há maior pra­zer que a nossa confirmação!

2013/12/01

Fui

Fui
Brisa quente nas pla­ní­cies de teu ven­tre
Fui
Brisa fresca nas coli­nas de teus seios
Fui
Brisa amena desde a ponta dos teus dedos
Fui
Tem­pes­tade na ponta de teus cabelos

Fui
Luz acesa nos dese­jos de teus olhos
Fui
Luz e beleza nos segre­dos de teus sonhos
Fui
Luz fic­tí­cia desde o fundo de teu peito
Fui
Escu­ri­dão no final de teu suspiro

Fui
E não mais vol­tei…
Nem brisa, nem luz,
Já não sou nem serei

Fui…
Que tonto fui!

2013/10/27

Imperfeições

Ainda bem que és imperfeita…

As nos­sas imper­fei­ções completam-se,
Transformando-nos
Em muito mais do que somos,
Em muito mais do outro…

Pre­firo assim,
Imper­feito,
A um per­feito incompleto.

Até eu morrer

Até eu mor­rer…
Eis todo o tempo que me resta
Para saber tudo do universo

Quando eu mor­rer,
Mor­rerá tam­bém o mundo,
E tudo dei­xará de ser

Até eu mor­rer…
Eis todo o tempo que nos resta
Para ser­mos cumplicidade

Quando eu mor­rer,
Nada sobrará… nem tu!

A Terra roda

A Terra roda e faz-se noite,
Deixando-me ver-te,
Com­pleta,
Nos sus­pi­ros que dás
Mesmo antes de abra­çar­mos
A calma que a noite nos serve

Depois e sem­pre,
O tempo insurge-se
E avança,
Roubando-te de mim,
Devolvendo-nos ao Mundo…

Espe­re­mos que outra volta se complete.

2012/07/26

Penso

Penso, e ainda assim, nem sem­pre existo.

O tempo são as ideias que mor­rem sem fica­rem na memória.

Por isso, escrevo e persisto.

 

2012/07/24

O fiel da balança

Tei­moso, arro­gante e sisudo
O homem quis saber o peso
da Feli­ci­dade e da Liber­dade
Colo­cando ambas numa balança das antigas

O fiel, can­sado, rodo­piou
E quebrou-se, num sofri­mento fatí­dico
Ao sen­tir num prato “Ser Livre“
E no outro “Ser Feliz”

A balança mor­reu
E o homem des­co­briu
Que há coi­sas inseparáveis!

2012/07/12