Contrails e Chemtrails em Portugal

As teo­rias da cons­pi­ra­ção são dos fenó­me­nos mais inte­res­san­tes do mundo moderno. Ao con­trá­rio do que seria de espe­rar, o fácil acesso à infor­ma­ção e a pos­si­bi­li­dade de ana­li­sar inú­me­ras fon­tes sobre qual­quer maté­ria para pos­te­ri­or­mente reflec­tir sobre as mes­mas e che­gar a con­clu­sões mini­ma­mente infor­ma­das, leva muita gente a pro­cu­rar sus­ten­ta­ção popu­lista para as suas cren­ças pré cons­ti­tuí­das, isto é, sendo a infor­ma­ção dis­po­ni­bi­li­zada tão abun­dante, é mais fácil pro­cu­rar aquela que suporta aquilo em que que­re­mos acre­di­tar do que nos obri­gar­mos ao pesa­roso exer­cí­cio de colo­car em causa as nos­sas crenças.

É ine­vi­tá­vel esta­be­le­cer um para­le­lismo entre este fenó­meno do pen­sa­mento e os pro­ces­sos men­tais das pes­soas reli­gi­o­sas. Na inca­pa­ci­dade téc­nica da falta de for­ma­ção ou na inca­pa­ci­dade bio­ló­gica da pouca inte­li­gên­cia, as cren­ças e o ridí­culo — sejam de que tipo forem — assen­tam como o melhor fato do melhor alfai­ate de alta costura.

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A homofobia de regresso ao parlamento

O assunto do dia é a pro­posta do PSD para um refe­rendo sobre a adop­ção de cri­an­ças por casais homos­se­xu­ais. Num país onde os polí­ti­cos não pedem a per­mis­são — e muito menos a opi­nião — dos por­tu­gue­ses para agi­rem em desa­cordo com os pro­gra­mas elei­to­rais que supor­ta­ram a sua elei­ção, não deixa de ser curi­oso este refe­rendo sobre algo que tem a ver com a igual­dade de direi­tos de todos os cidadãos.

Fica aqui a minha posi­ção: com­ple­ta­mente con­tra o refe­rendo, total­mente a favor da adop­ção por casais homos­se­xu­ais. A acon­te­cer este refe­rendo, receio ter que come­çar a olhar com des­dém para mais de 50% das pes­soas com que me cruzo na rua.

Coro Lopes-Graça no Vox-Café

Começa a ser uma tra­di­ção de que muito nos orgu­lha­mos, este hábito que os gru­pos corais têm de fazer uma per­ni­nha no Vox-Café sem­pre que actuam no palco prin­ci­pal do salão da Voz do Ope­rá­rio. Há 15 dias foi o coro de canto alen­te­jano Almo­cre­ves, hoje foi o Coro Lopes-Graça, após a sua actu­a­ção no espec­tá­culo de home­na­gem a Ary dos San­tos.

Tra­ba­lhar ao som des­tas mara­vi­lhas é um luxo, deixem-me que vos diga.

Solidariedade quê?

Hoje ouvi uma expres­são que me deixa sem­pre com suo­res frios: soli­da­ri­e­dade cristã! Pergunto-me sem­pre o que é que o “cristã” acres­centa à “soli­da­ri­e­dade”. O que é que pode haver no exer­cí­cio do cris­ti­a­nismo que possa valo­ri­zar ou carac­te­ri­zar a soli­da­ri­e­dade? Como é que se dis­tin­gue uma soli­da­ri­e­dade que é cristã de uma soli­da­ri­e­dade monár­quica, comu­nista, cien­tí­fica, ama­rela, envi­e­sada, mal dis­posta, boqui­a­berta, qua­drú­pede ou dan­ça­rina? Não se dis­tin­gue, por­que soli­da­ri­e­dade é ape­nas — e tanto — soli­da­ri­e­dade. Mais, o ver­da­deiro acto soli­dá­rio não faz ques­tão de ser reco­nhe­cido, pre­fere e opta pelo anonimato.

A cola­gem de outros ter­mos ao con­ceito de soli­da­ri­e­dade é a pri­meira prova de que os actos soli­dá­rios nem sem­pre são natu­ral­mente altruís­tas, come­çando logo pela uti­li­za­ção de pro­pa­ganda na des­cri­ção uti­li­zada, o que não valo­riza em nada o acto soli­dá­rio em si, mas serve-se deste para pro­mo­ver outros ideais.

Dia Internacional da Música

Hoje comemora-se o Dia Inter­na­ci­o­nal da Música. Sem­pre achei esqui­sito que hou­ves­sem dias inter­na­ci­o­nais disto e daquilo, mas com­pre­endo que haja neces­si­dade de aler­tar fran­jas da popu­la­ção menos aten­tas para a impor­tân­cia que uma ou outra coisa têm na cons­tru­ção da nossa huma­ni­dade. Por isso, um dia para a música não é dos que mais me choca.

Em jeito de cele­bra­ção deste dia, quero aqui colo­car o tema musi­cal que con­si­dero mais demons­tra­tivo do que é a música que eu gosto. Não se trata de ser melhor, mais bonita, mais ela­bo­rada ou mais pre­fe­rida do que mui­tas outras, é ape­nas aquela que tal­vez melhor espe­lhe os meus gos­tos musi­cais. É irre­ve­rente, tem momen­tos ines­pe­ra­dos, é melo­di­ca­mente agra­dá­vel, tem arran­jos arro­ja­dos, mis­tura magis­tral­mente ins­tru­men­tos moder­nos com clás­si­cos, é uma exce­lente pro­du­ção e, obvi­a­mente, é dos Beatles.

Outros temas que pode­riam aqui estar lis­ta­dos em repre­sen­ta­ção do meu gosto pessoal:

Queen — Bohe­mian Rhapsody

John Miles — Music

John Len­non — Imagine

Nights in White Satin — Moody Blues

Shine on You Crazy Dia­mond — Pink Floyd

 

 

Canto alentejano no Vox

No pas­sado sábado, acon­te­ceu um casa­mento VIP no Salão da Voz do Ope­rá­rio. Estava pre­visto que à che­gada dos noi­vos o grupo de canto alen­te­jano Almo­cre­ves fizesse o seu número, dando as boas vin­das aos mes­mos e aos con­vi­da­dos. Enquanto estes não che­ga­vam, o grupo esteve no Vox-Café a beber uma cer­ve­jas e a aque­cer a voz. Entre o final de uma reu­nião de cép­ti­cos e a che­gada das ban­das para o con­certo da noite, foi isto que aconteceu.

Alfredo Dinis, foi uma grande honra

Alfredo Dinis

Alfredo Dinis

Hoje fui sur­pre­en­dido com uma daque­las notí­cias inde­se­ja­das que nos dei­xam inca­pa­ci­ta­dos de dizer gran­des coi­sas para além de tri­vi­a­li­da­des banais e fra­ses fei­tas. Ainda assim, cons­ci­ente dessa bana­li­dade, não posso dei­xar de assi­na­lar o meu mais pro­fundo pesar pelo desa­pa­re­ci­mento pre­coce de Alfredo Dinis, sacer­dote jesuíta e, até recen­te­mente, direc­tor da Facul­dade de Filo­so­fia de Braga da Uni­ver­si­dade Cató­lica. Isso é o trivial.

Para além das fra­ses fei­tas, e ape­sar de ape­nas me ter encon­trado pre­sen­ci­al­mente com o Alfredo meia dúzia de vezes, sinto que me encon­trei com ele sem­pre que par­ti­lhá­mos os mais vari­a­dos espa­ços de debate online e onde, quase inva­ri­a­vel­mente, nos encon­trá­mos de lados opos­tos da “bar­ri­cada”. A ele­va­ção, a cor­di­a­li­dade e o res­peito com que o Alfredo sem­pre nos brin­dou, ten­tando per­ma­nen­te­mente o con­tri­buto sério para a dis­cus­são, nunca cedendo à arro­gân­cia ou ao argu­mento de auto­ri­dade, são exem­plos da gran­di­o­si­dade deste homem sim­ples com dúvi­das com­ple­xas e assumidas.

Recordo com espe­cial cari­nho a forma como rece­beu a “comi­tiva” do Por­tal Ateu, em Março de  2009, quando nos des­lo­cá­mos a Braga para o debate “Acre­di­tar em Deus – Por­que sim, por­que não”, rea­li­zado na Facul­dade de Filo­so­fia daquela cidade. Almo­çá­mos nas ins­ta­la­ções da Comu­ni­dade Pedro Arrupe e fomos tra­ta­dos com uma sim­pa­tia muito para além do que exi­gi­ria a sim­ples eti­queta social, fazendo-nos sen­tir, a nós ateus, como se esti­vés­se­mos em casa.

Mas, o que de maior guardo na memó­ria de Alfredo Dinis são as suas pala­vras em con­ver­sas pri­va­das — que foram pou­cas, é certo — mas que foram pre­ci­o­sís­si­mas e que opto, por uma ques­tão de res­peito à sua pri­va­ci­dade, por não reve­lar. Con­tudo, aquele que terá sido um dos seus últi­mos pen­sa­men­tos, deixa bem claro o seu âmago, na forma como res­ponde às suas mais pro­fun­das dúvi­das e ansiedades:

Pro­cu­rei como filó­sofo com­pre­en­der o mundo. Estra­nha­mente, sinto que o mundo tem um lado incom­pre­en­sí­vel. O mundo tal­vez exista não para ser com­pre­en­dido, mas para ser amado!

Obri­gado, Alfredo Dinis, por toda a arte e exce­lên­cia do teu exemplo!